Fogos de Inverno no Alto Minho – O que está a mudar?

  Por: Emanuel Oliveira. Em 2021, a área percorrida por fogos foi de 4 041 hectares e no inverno de 2022, cerca de 2 496 hectares do territó...

 Por: Emanuel Oliveira.

Em 2021, a área percorrida por fogos foi de 4 041 hectares e no inverno de 2022, cerca de 2 496 hectares do território do Alto Minho foram percorridos por fogos. 

Foto 1 - Área de carvalheira afetada por incêndio em 31 de janeiro de 2022.

O presente artigo tem por base um trabalho de cariz académico de monitorização das áreas percorridas por fogos no Alto Minho, pelo que o descrito não se baseia em dados das fontes oficiais. No entanto, não significa que os registos não tenham sido obtidos com o rigor desejável, do ponto de vista técnico e científico.

As áreas percorridas por fogos foram obtidas a partir de séries de imagens satélite (SENTINEL), de forma sistemática. Uma vez processada cada uma das imagens, recorreu-se à digitalização manual de todos os perímetros e supervisionada, com o objetivo de reduzir erros de interpretação, bem como aumentar o rigor na definição dos perímetros.

A classificação das áreas, recorrendo a informação adicional (por exemplo das ocorrências oficiais) permitiu diferenciar o que é uma área percorrida por incêndios rurais, por fogo controlado e por queimadas extensivas próprias das estações de outono, inverno e primavera, onde os usos do fogo estão relacionados com os diferentes usos e ocupações do solo, dentro do ancestral sistema agro-silvopastoril, ou melhor, do que nos resta das práticas milenares. Para estas últimas áreas não houve qualquer intervenção de equipas de combate e extinção, ou seja, são fogos que se autoextinguiram.

Gráfico 1 - Comparação das áreas percorridas por fogos resultantes de incêndios rurais (IR) e por fogos classificados de fogos de outono-inverno e primavera (FOIP). Fonte: E. Oliveira, 2022

De acordo com os dados obtidos na última década (2011 – 2020), independentemente do tipo de fogos, o valor médio anual do número total de perímetros obtidos foi de 691 e a área média anual percorrida por fogos no Alto Minho foi de 9 709 hectares. Atendendo apenas à estação de inverno e analisando as áreas percorridas pelos diferentes fogos, verifica-se que no período de 2011 a 2020, regista-se um número médio de 46 perímetros associados a incêndios rurais com uma área ardida média de 610 hectares. Por outro lado, na estação invernal, o número médio de perímetros obtidos e associados a fogos sem registo de intervenção na extinção, ou seja, fogos de outono-inverno e primavera (FOIP) é de 237 perímetros, aos quais corresponde uma área média queimada de 1 200 ha.

Em 2021, através do processo de mapeamento sistemático e classificação dos perímetros, em relação à média decenal (2011 – 2020), na estação de inverno verificou-se que os perímetros classificados como incêndios rurais mantiveram-se aproximadamente dentro dos valores médios da última década, 50 perímetros identificados, assim como a área ardida correspondente com um valor aproximado à média, de 668 hectares. Quanto aos fogos classificados como FOIP, na estação de inverno de 2021, verificou-se um aumento do número de perímetros obtidos, sendo praticamente superior ao dobro da média decenal (546 perímetros identificados), embora a área ardida correspondente tenha sido aproximadamente idêntica à média do período de 2011 a 2020, cerca de 1 335 ha.

Figura 1 - Distribuição das áreas percorridas por fogos no Alto Minho em 2021: 4 041 ha. Fonte: E. Oliveira, 2022 

Ao analisar os dados obtidos no inverno 2022, verifica-se uma tendência completamente oposta ao ano anterior e à média da última década. O número de perímetros classificados como incêndios rurais foi cerca de três vezes superior ao valor médio (142), o que correspondeu a uma área ardida igualmente três vezes superior à média da última década (1 830 ha). Em relação aos fogos sem intervenção de equipas de extinção, o número de perímetros classificados como FOIP neste inverno, foi cerca do dobro do valor médio e a área percorrida por estes fogos foi cerca de metade em relação ao valor médio de 2011 a 2020, aproximadamente 618 hectares. No entanto, neste último inverno, a área média percorrida por fogos por perímetro do total de fogos foi de cerca de 4 hectares, sendo inferior à média (7 ha) e ligeiramente superior ao valor médio da área percorrida por fogos no inverno de 2021 (3,3 ha).


Figura 2 - Distribuição das áreas percorridas por fogos no Alto Minho no Inverno de 2022: 2 496 ha. Fonte: E. Oliveira, 2022

O aumento registado em 2022 parece indicar uma maior intervenção da extinção dos fogos de outono-inverno e primavera, característica de um regime de supressão. Por outro lado, poderia significar o impacto da seca, ainda que fraca a moderada no Alto Minho, como se pode verificar quer pela percentagem de água no solo, quer pelo Índice de Seca (IPMA, 2022), cujos valores no território não parecem ter contribuído. 

Figura 3 - Percentagem de água no solo (média 0-100 cm profundidade), em relação à capacidade de água utilizável pelas plantas (ECMWF) 31 de janeiro,  28 de fevereiro 2022 e 15 de março de 2022. Fonte: IPMA 2022

Figura 4 - Distribuição espacial do índice de seca meteorológica a 31 janeiro, 28 de fevereiro 2022 e 15 de março de 2022. Fonte: IPMA 2022

O uso do fogo no inverno está associado à gestão de áreas necessárias à produção pecuária em regime extensivo. Um dos fatores que terá conduzido a um aumento do número de perímetros e das áreas percorridas por fogos neste inverno, em relação à média decenal, terão sido os custos dos fatores de produção relacionados com os compostos alimentares e os fenos, derivado da crise energética (combustíveis e eletricidade) e do conflito Ucrânia – Rússia, pelo que os baldios com extensas áreas de matos, constituem uma importante fonte alimentar do gado, praticamente sem custos aos produtores. Os baldios sempre assumiram, durante séculos, um papel essencial nas crises alimentares que afetaram o território, sendo um recurso das comunidades rurais e cooperando para o fornecimento e sustento do país, quer na produção de gado quer de cereais.

Em conclusão, proibir ou excluir o fogo de inverno, de baixa intensidade, não constitui uma solução ao desejável aumento da resiliência da paisagem em relação aos grandes incêndios florestais, os quais, ciclicamente afetam na estação de verão amplas zonas rurais do território, com impactos muito negativos, quer a nível ambiental quer económico. É essencial reconhecer a importância do “pontilhado” de fogos de outono-inverno e primavera que criam e mantêm a estrutura de mosaico da paisagem. Assim sendo, à semelhança de outros países, importa capacitar a população rural para o uso do fogo em queimadas extensivas, dotando-a de conhecimentos de segurança e responsabilizando em vez de criar bloqueios burocráticos que impeçam o uso do fogo.

Igualmente, é fundamental gerir os fogos de inverno, de baixa intensidade e que não coloquem em risco os povoamentos florestais ou as populações, o que implica uma aposta na formação e no financiamento dos agentes locais do sistema de gestão integrada de fogos rurais.

Por último, mais uma vez ,recorda-se da necessidade de se proceder ao registo cartográfico sistemático das áreas percorridas por fogos e a sua publicação atempada, sendo um instrumento essencial no planeamento e na prevenção de incêndios rurais.

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Fogos de Inverno no Alto Minho – O que está a mudar?
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