quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Os Grandes Incêndios Florestais e a sua recorrência no Alto Minho


Analisando os dados estatísticos é importante entender como evoluíram os Grandes Incêndios Florestais ao longo destes últimos 15 anos no território do Alto Minho.
Gráfico 1 - Distribuição do Nº de GIFs por Ano e Classes de Extensão, 1975 - 2013. Fonte/Dados: ICNF (Clicar na imagem para visualizar)
Facilmente percebemos que a partir de 1989 surgem com maior representatividade os GIF's com mais de 500 hectares e menos de 1000 hectares de área ardida, sendo recorrentes em intervalos de 5 a 10 anos; em 1998, surgem os primeios GIF's com mais de 1 000  hectares, os quais segundo os dados oficais do ICNF, tornaram-se recorrentes na paisagem alto-minhota, com intervalos de 3 a 5 anos.

Os últimos 15 anos coincidem com um importante e necessário incremento dos meios e recursos como forma de resposta para reverter a sua ocorrência. Porém, o esforço foi em vão, tendo em conta que a redução dos GIF's implica uma intervenção a uma escala do consumo potencial de um GIF (intermunicipal), intervindo nos pontos de multiplicação da propagação, na criação de oportunidades ao combate e essencialmente na redução da elevada carga de combustível, mediante a criação de mosaicos com o fim de promover a heterogeneização da paisagem, em vez de uma aposta em pequenas e isoladas intervenções. O trabalho de prevenção obriga a uma implementação transversal de medidas e ações devidamente estruturadas, dimensionadas e de fácil manutenção, onde a complementariedade deverá ser um objetivo a considerar.

Antes de mais, importa entender que um GIF define-se tecnicamente, quando um incêndio apresenta um comportamento de fogo que ultrapassa a capacidade extinção, normalmente apresentando os seguintes critérios:

  1. Comprimento de chama superior a 3,0 metros;
  2. Velocidade de propagação superior a 1 - 2 km/hora;
  3. Atividade de fogo de copas. (UT GRAF, 2011)

Em Portugal, para além destes parâmetros, considera-se como um GIF um incêndio que ultrapasse uma área queimada igual ou superior a 100 hectares. No entanto, em muitos casos de GIF’s no Alto Minho, estes parâmetros técnicos referentes ao comportamento do fogo não se apresentam no incêndio ainda que a área ardida supere o limite que o classifica como GIF. Isto deve-se, por um lado a que a capacidade de extinção não só depende do comportamento do fogo, mas também do número e tipo de meios e recursos existentes para uma resposta mais eficaz e eficiente para a extinção. 

Igualmente, não nos podemos esquecer que existe um problema grave de simultaneidade de incêndios que esgota qualquer dispositivo de extinção quando se ultrapassa o limite. Esta situação agrava-se quando se produz uma diminuição dos recursos humanos que sustentam um dispositivo de extinção baseado na disponibilidade do sistema de voluntariado.

Por outro lado identifica-se, com base no seguimento dos Grandes Incêndios Florestais no território, comprovando-se pelos seus perímetros finais, uma cultura do uso do fogo na extinção com o fim de executar queimas ancoradas em caminhos, cujos perímetros são os mesmos de anos anteriores, de outros GIF’s cujas manobras são repetitivas e assumindo o risco de ampliação dos respetivos perímetros. Esta situação resulta de dois aspetos: a) os recursos são insuficientes para garantir a melhor resposta para a extinção, logo o dispositivo encontra-se debaixo da capacidade de extinção; 2) e existe um uso popular do fogo, dificilmente controlável, como recurso de autoproteção de bens que conduz à ampliação dos perímetros e à simultaneidade.
Imagem 1 - GIF de Cabração (1048 ha) - Município de Ponte de Lima. Fogo de superfície com Intensidade baixa a moderada e baixa severidade. Foto: Emanuel Oliveira, 2015
Os últimos 15 anos apresentam um significativo aumento da frequência dos grandes incêndios florestais, os quais tendem a ampliar as suas áreas ardidas, resultado da superação da capacidade de extinção. Ao contrário do que ocorre em alguns pontos do território ibérico que após a passagem de um GIF os ecossistemas ou têm dificuldade e tardam a recuperar-se ou ficam incapacitados, no território do Alto Minho a recuperação é elevada devido à adaptação das espécies ao fogo (Tojo, Urzes, entre outras) e também as invasoras exóticas pirofitas (Acacea sp. e Hakea sericea) que aproveitam as características climáticas típicas, marcadas por altas precipitações, elevada insolação, sem temperaturas extremas para facilmente regenerarem-se aproveitando a incorporação de fosfatos no solo imediatamente pós-incêndio e cobrindo rapidamente o solo, o que ajuda a combater a erosão e perda de solo em terrenos do tipo esquelético e com declives muito acentuados e íngremes.

Imagem 2 - Os GIFs em 2015 percorreram quase de forma cirurgica antigos perímetros de GIF's ocorridos em 2005 e 2010, onde encontraram um mesmo modelo de combustível, uma paisagem homogénea.

A melhoria dos conhecimentos técnicos, dos meios e da organização operacional no combate aos incêndios florestais não produziu efeitos para evitar a propagação e a frequência dos grandes incêndios florestais. Sendo assim é importante que a sociedade se encontre informada sobre o risco, ainda que não signifique que saiba defender-se frente à ocorrência de um incêndio e, muito menos, frente a um GIF.

O problema dos GIF’s é que o paradigma dos incêndios florestais mudou ao mesmo ritmo que as mudanças na dinâmica espacial e com os episódios repentinos resultantes da acelerada mudança climática. Fazer frente aos GIF’s obrigará a uma mudança do paradigma da prevenção e do combate.

Mais Informação:

Oliveira, Emanuel; 2015. "La Prevención a la Escala del Paisaje para hacer frente a los Grandes Incendios Forestales. Análisis en el Alto Minho. Portugal"; Universidad Politécnica de Madrid 

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