quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

A Evolução dos Incêndios Florestais no Alto Minho

Por: Emanuel Oliveira

Os incêndios florestais constituem o maior risco no território do Alto Minho, sendo igualmente responsáveis pelo desencadear e incrementar outros riscos derivados e associados a alterações repentinas do solo (por ex.º: movimentos de vertente, erosão do solo, enxurradas, assoreamento dos rios e erosão costeira, proliferação de espécies invasoras) e consequentemente colocando em risco a vida de pessoas, os bens e condicionando atividades de vários sectores de importância económica na região (floresta, agricultura, pecuária, turismo, cinegética).

Os incêndios florestais não são constantes no tempo nem no espaço físico, pelo que o estudo exaustivo do seu regime deverá centrar-se na caracterização da perturbação do fogo ao longo do tempo. (Agee, 1993)
Mapa 1 - Área Ardida Acumulada entre 1975 a 2015: cerca de 280 367 hectares. Fonte/Dados: ICNF
Em apenas 40 anos o território do Alto Minho sofreu milhares de incêndios florestais que consumiram cerca de 280 mil hectares (área ardida acumulada), convertendo esta região atlântica uma das que mais arde no espaço ibérico e na Europa Ocidental. Sem antes entendermos como evoluem os incêndios florestais, a causalidade e a forma de fazer prevenção e de combater, é impossível planificar de forma eficiente e reduzir a dimensão e os efeitos dos incêndios florestais.

Analisando o período de 2001 a 2014, com base em dados oficiais do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas, a área ardida acumulada em 14 anos foi de 117 308 hectares, o que corresponde a cerca de 89% do espaço florestal do território do Alto Minho que, segundo o Inventário Florestal Nacional de 2006 ocupa 147 291 hectares de espaço florestal (área arborizada e matos). A média do período situa-se em 8 379 hectares de área ardida anualmente.
Gráfico 1 - Distribuição Anual da Área Ardida e do Número de Ocorrências entre 2001 e 2014 no território do Alto Minho. Fonte/Dados: ICNF
A área ardida em 2005 e 2006 representou cerca de 15,5% e 9% do espaço florestal, respetivamente, determinada por 38 Grandes Incêndios Florestais (GIF's) no primeiro ano e 20 GIF’s no seguinte ano consecutivo. Passados apenas 5 anos, uma grande parte do território volta a arder por consequência de 44 GIF’s que consumiram cerca de 12% do espaço florestal do Alto Minho.

Para o mesmo período de 14 anos verifica-se um excessivo número de ocorrências. No entanto no universo de ocorrências, a larga maioria deve-se a ignições agrícolas e queimas de sobrantes, produzidos ao longo do ano.
Gráfico 2 - Distribuição Percentual da Área Ardida e do Número de Ocorrências por Classes de Extensão entre 2001 e 2014 no território do Alto Minho. Fonte/Dados: ICNF
Observando os dados, apenas focando sobre os Grandes Incêndios Florestais (GIF’s), destacam-se os anos 2010 pelo número de GIF’s e 2005 pela elevada área ardida como consequência de devastadores GIF’s. Por outro lado, os anos 2003, 2007, 2008 e 2012 apenas registaram 1 GIF e a área ardida não ultrapassou os 350 hectares em cada GIF. O ano 2010 apresenta 44 GIF’s e uma área ardida de 14 564,5 hectares, seguido do ano 2005 com 38 GIF’s e uma área ardida de 22 901,3 hectares. Os anos 2006 e 2013 apresentam igualmente valores muito elevados de GIF’s e de área percorrida pelo fogo.
Gráfico 3 - Distribuição Anual da Área Ardida e do Número de Grandes Incêndios Florestais entre 2001 e 2014 no território do Alto Minho. Fonte/Dados: ICNF
Em 14 anos o território sofreu os efeitos de 182 Grandes Incêndios Florestais, dos quais 11 GIF's consumiram mais de 1 000 hectares, 31 GIF’s consumiram áreas superiores a 500 hectares mas inferiores a 1 000 hectares e 140 GIF’s consumiram áreas menores a 500 hectares.

Segundo os dados provisórios do ICNF, o ano 2015 ficou marcado por 1 124 ocorrências responsáveis por uma área ardida total de 9 271 hectares. Porém, preocupante foi a ocorrência de 11 GIF’s que resultaram no consumo de 6 655 hectares de espaço florestal.

O real problema não são os 99,3% de ocorrências que originam incêndios florestais e fogachos (estes representam 75% do total de ocorrências), mas 0,7% das ocorrências que estão na origem dos Grandes Incêndios Florestais que são responsáveis por 64% da área ardida entre 2001 e 2014. 

Se por um lado a grande maioria das ocorrências não passam de fogachos, ou seja inferior a 1 ha e apenas 24,3% dão origem a incêndios florestais (inferiores a 100 hectares), tal situação traduz o sucesso da 1ª intervenção. Por outro lado a ínfima percentagem de ocorrências (0,7%) origina incêndios que atingem dimensões excessivas, classificados como GIF’s.

OS GIF’s são o resultado da MUDANÇA do paradigma dos incêndios florestais associados às alterações da dinâmica espacial e das mudanças climáticas, o que por sua vez obriga a uma mudança de atitude em relação a como hoje entendemos e olhamos a PREVENÇÃO, assim como o modo como os enfrentamos na ação de EXTINÇÃO.

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