quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Existe uma “incapacidade generalizada de ler o fogo e antecipar a sua evolução”

Paulo Fernandes, professor e investigador do Departamento de Ciências Florestais, em entrevista ao Alto Risco, identifica as principais razões para a propagação dos fogos, identifica os erros no combate aos incêndios florestais por parte dos bombeiros e as medidas a tomar para modificar a forma como são combatidos estes incêndios.
A investigação dos incêndios florestais, suas caraterísticas e os efeitos das queimas controladas, são algumas das áreas estudadas pelo Grupo de Fogos Florestais da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD), pioneiro a nível internacional na investigação dos incêndios florestais.



Quais as principais dificuldades encontradas pelos bombeiros no combate aos incêndios florestais?

As dificuldades com que os bombeiros deparam no combate a incêndios florestais em Portugal são comparáveis àquelas verificadas noutras regiões. No entanto, temos uma particularidade que nos distingue no contexto Europeu, que é uma combinação invulgar de condições naturais que em tudo favorece a propagação dos fogos. No norte e centro do País conjugam-se orografias complexas, um clima que favorece a produção de biomassa e a sua secagem posterior ,e a prevalência de tipos de vegetação que ardem facilmente e com intensidade. No que respeita ao ordenamento florestal Portugal não se distingue negativamente dos restantes países do sul da Europa. Aliás, Portugal é de longe o país onde o sector florestal mais contribui para a economia, o que implica um patamar mais elevado de intervenção nos espaços florestais.
Àquelas condições acresce o enorme número de ignições, que em termos relativos é 5 vezes superior ao de Espanha, e a sua simultaneidade.
Note-se porém que a esmagadora maioria destas ocorrências ocorre em áreas periurbanas, ou seja onde muito dificilmente se podem transformar em incidentes de vulto. Seja como for, o panorama dos fogos florestais em Portugal justifica intervenções preventivas na vegetação (a gestão de combustíveis), estratégicas e com escala suficiente para afetar a propagação dos grandes incêndios. Por outro lado, este investimento no espaço florestal será perdido caso não haja evolução na forma como são combatidos os incêndios. É muito comum observar áreas convenientemente tratadas sem que os meios de combate tirem partido da sua existência.

O professor Paulo Fernandes declarou recentemente que há descoordenação e desconhecimento do terreno pelos bombeiros. Como explica esta situação?

Esta situação explica-se essencialmente porque a coluna vertebral do sistema de combate a incêndios é constituída por corpos de bombeiros voluntários de âmbito local, face à situação desejável que seria a de corpos de bombeiros profissionais e florestais de âmbito nacional. O despacho de homens e meios de combate com proveniências e competências diversas para teatros de operações complexos e a sua articulação e coordenação são naturalmente difíceis. Recorrendo o combate a incêndios a grupos que se deslocam par a longe das suas zonas de origem o desconhecimento do terreno é inevitável pelo que aumentam as dificuldades logísticas e de coordenação e diminui a efetividade operacional. No entanto, mais importante que o desconhecimento das condições locais é a incapacidade generalizada de “ler” o fogo e antecipar a sua evolução, o que dificulta a identificação das oportunidades de êxito (bem como as de risco) e favorece a ocorrência de acidentes fatais como aqueles que infelizmente marcaram este ano.

Que medidas devem ser adotadas pelos comandos dos bombeiros para alterar a tática de combate aos incêndios florestais?

A análise do comportamento atual do incêndio e a previsão da sua evolução futura devem guiar a forma como se enfrenta o fogo. Primeiro que tudo devem ser definidos os objetivos estratégicos, por exemplo limitar o fogo a uma determinada área, que permitirá definir as linhas de controlo. Só então se definem as táticas, que serão comprometidas caso a estratégia não seja clara e que devem ser coerentes com os objetivos. Um problema muito comum é a execução de táticas isoladas e desgarradas que fatalmente resultam em maior área ardida. Um princípio básico de qualquer tática é atacar o incêndio quando este está em desvantagem, assegurando que o combate se faz em segurança e somente onde o sucesso é garantido. Tal recomenda maior recurso a o ataque indireto, o trabalho mais focado na cauda e nos flancos dos incêndios, e maior uso de equipamento de sapador, máquinas de rasto e fogo de supressão.
A análise de incêndios exige acompanhamento constante e previsão da evolução do fogo, afim de antecipar e identificar janelas de oportunidade. É este o trabalho feito pelos GAUF (Grupos de Análise e Uso do Fogo), constituídos por engenheiros florestais e que intervêm nos grandes incêndios.
Infelizmente, e apesar dos resultados obtidos (especialmente em 2 010), os GAUF não existem como estrutura e as pessoas que os compõem são poucas e contratadas sazonalmente por concurso.

Tem havido alguma polémica sobre o uso do contrafogo no controlo dos incêndios florestais. A forma como está a ser utilizado é a mais indicada?

O fogo tático ou contrafogo pode ser utilizado desde que o comandante responsável pelo incêndio o autorize.
É minha opinião que a utilização atual está demasiadamente liberalizada, já que não é exigida formação específica a quem o executa. Em particular é importante distinguir entre o uso do fogo para queimar vegetação entre uma descontinuidade e a frente do incêndio, e o contrafogo propriamente dito, o qual implica a interação entre as chamas do contrafogo e as do incêndio e como tal conhecimentos mais avançados de comportamento do fogo. Na prática atual é comum que se sacrifiquem áreas arborizadas e que se perda o controlo do contrafogo, havendo até relatos de bombeiros postos em perigo.

O contrafogo é uma arma eficaz para controlar os incêndios florestais?
Existem outros meios de controlo/combate aos incêndios florestais?

O contrafogo, ou mais generalizadamente o fogo de supressão, pode ser muito eficaz no controlo indireto de incêndios, desde que utilizado corretamente.
É limitado pelas condições ambientais, por exemplo a velocidade do vento e a humidade do combustível, pelo que é vulgar que apenas possa ser usado durante a noite. Naturalmente que é apenas uma das opções disponíveis. O que é importante é que as forças de combate estejam devidamente capacitadas par a o uso eficaz dessas opções complementares, sejam a água, a abertura de faixas com ferramentas ou máquinas, ou o fogo de supressão.

O seu departamento está a realizar um estudo sobre gestão dos incêndios florestais. No que consiste este estudo?

A UTAD, através do Departamento de Ciências Florestais e Arquitetura Paisagista e do centro de investigação CITAB faz da parte do consórcio do projeto FIRE-ENGINE, financiado pelo programa MIT Portugal e coordenado pelo INESC Porto, que representa uma abordagem inovadora à gestão dos fogos florestais.
Neste projeto analisamos a evolução do desempenho das políticas de gestão do fogo em Portugal e qual é o contributo relativo dos vários fatores envolvidos (climameteorologia, vegetação, ignições) para a área ardida. Os resultados permitirão recomendações fundamentadas acerca d as opções políticas mais adequadas para Portugal, nomeadamente o investimento relativo em prevenção (e em que tipo de prevenção) e em combate.

Fonte: Revista Alto Risco
Associação Nacional de Bombeiros Profissionais
10 de Setembro de 2013

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