sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

Os Grandes Incêndios de 2017 em Portugal eram previsíveis de ocorrer?

Elaborado por: Emanuel Oliveira

Talvez o título seja algo provocatório quando um amplo setor da população acredita que os incêndios sejam incidentes ou riscos impossíveis de prever. Efetivamente, a previsão de incêndios não é tarefa fácil, visto que estes dependem praticamente da ação humana, pelo que importa analisar com rigor as causas e as motivações que estão por detrás das ocorrências. Nunca sabemos onde poderá “rebentar” um incêndio, mas podemos avaliar as condições a médio e a curto prazo para identificarmos as áreas mais críticas e suscetíveis.

Obviamente, esta é também, uma função do analista estratégico de incêndios florestais – recolher e analisar dados que apoiem a tomada de decisão com fins a determinar condições de maior risco e a definir a alocação atempada de meios de prevenção operacional (vigilância) e de meios de supressão (equipas de 1ª intervenção e combate). Note-se que não falo de Período Crítico, pois tal período, aos poucos deixará de fazer sentido face às consequências das Mudanças Climáticas.

Hoje, temos acesso a uma rica informação do histórico dos incêndios de Portugal que apesar de requerer o seu tratamento prévio, com recurso a ferramentas tecnológicas de análise, permite-nos estudar e analisar como se manifestam os incêndios florestais no território.

Com recurso a essa informação que o ICNF nos disponibiliza gratuitamente, procura-se analisar a escala espaço-temporal em que os grandes incêndios florestais (GIF) se propagam na paisagem.
Sendo assim, para além de procurar identificar-se padrões típicos de propagação associados à meteorologia, ao relevo e obviamente às condições vegetativas dos complexos de combustível florestal, procurou-se identificar como estes se manifestam no espaço e no tempo, ou seja quantas vezes se repetem na paisagem e quando esta está em condições de receber um novo incêndio.

Segundo o último Relatório do ICNF (10º relatório provisório: 1 de janeiro a 31 outubro), das 16.981 ocorrências que se deram no território, 3.653 foram incêndios florestais, dentre os quais 214 foram GIF’s (incêndios com mais de 100 hectares) que consumiram 412 781 hectares de espaços florestais, cerca de 93% do total da área ardida no território nacional.
Figura 1 - Mapa do último incêndio no período de 1990 a 2016. Elaboração Própria. Fontes: ICNF (clique na imagem para ampliar)
O que se tem verificado é que a larga maioria dos GIF’s são incêndios recorrentes, isto é, o espaço percorrido pelos incêndios de 2017 já tinha sofrido com incêndios anteriores. Através da cartografia das áreas ardidas disponível, entre o período de 1990 a 2016, algumas áreas em 27 anos foram afetadas por incêndio 11 vezes. Destaca-se que grande parte dos GIF’s durante a sua recorrência têm vindo a apresentar perímetros semelhantes, porém na última década apresentam uma tendência para um aumento considerável da sua extensão, ou seja, os GIF’s recorrentes têm aumentado de dimensão. E porquê?

Várias são as razões, contudo a mais determinante terá a ver com o estado dos combustíveis quanto à carga disponível e a sua cobertura na paisagem. Sublinhe-se que quanto mais arde uma paisagem, menos interesse existe em investir nesse território, logo incrementa-se o estado de abandono, o que por sua vez conduz a um aumento da continuidade do combustível. É um ciclo perigoso que alimenta futuros incêndios cada vez maiores.
Figura 2 - Mapa de Potencial de Retorno para 2017 com base no período de 1990 a 2016. Elaboração Própria. Fontes: ICNF  (clique na imagem para ampliar)
Então, sempre poderemos prever os Grandes Incêndios Florestais? 

  • Se os incêndios se repetem ciclicamente num dado território, então estes apresentam uma determinada frequência e recorrência que poderão ajudar a estimar o potencial para voltarem a ocorrer nesse mesmo território. 
  • A distribuição e carga dos combustíveis numa determinada paisagem dão-nos indicadores do potencial para alimentar um GIF. 
  • Se conhecemos as condições vegetativas dos combustíveis podemos determinar a suscetibilidade para a propagação do fogo.
  • Igualmente, conhecer a meteorologia associada e a forma como se propagam na paisagem, ajudam à tomada de decisão quer no planeamento da prevenção quer numa situação de emergência.
  • Se se monitorizar a distribuição e densidade de ignições, mediante o recurso à potente ferramenta HeatMap, poderemos monitorizar o risco derivado da piroatividade.

Considerando estes pontos, pode-se dizer que existem condições para ajudar-nos a decidir na hora de estabelecermos um plano de prevenção operacional.

Um Exemplo Prático – os GIF’s de 2017 em Portugal
Figura 3 - Mapa do Potencial de Retorno 2017 e o GIF de Mação (Várzea dos Cavaleiros) de 23|07|2017 que consumiu 34 992 hectares. Elaboração Própria. Fontes: ICNF  (clique na imagem para ampliar)
Para analisarmos a situação de 2017, estimou-se o período de retorno e interpolou-se com última vez que um determinado espaço ardeu e assim, podermos estimar o potencial dos incêndios recorrentes (históricos) voltarem a repetir-se num determinado ano num dado território. O resultado foi um mapa que procura identificar áreas com potencial de retorno, o qual foi classificado em 5 classes, tendo em linha de conta a última vez que ardeu e a recorrência. Por exemplo, se um território apresenta uma recorrência de 7 anos e ocorreu um incêndio no último ano, obviamente que no ano seguinte dificilmente voltará a arder, mas se pelo contrário, esse território já não arde há mais de 12 anos, então existe um incremento da carga de combustível, apresentando condições para voltar a arder.

Obviamente, uma ajuda crucial para a prevenção é cruzar o mapa de retorno potencial com o mapa de densidade de ignições do ICNF (de Rui Almeida) para se monitorizar o risco potencial de (rec)ocorrência. Igualmente, para que a análise seja mais rigorosa importa avaliar também o estado fenológico dos combustíveis. Entre os inúmeros casos de GIF's que ocorreram em 2017, as Figuras 4 e 5 referentes aos GIF's de Alijó e de Covilhã, procuram demonstrar o risco do território a incêndios recorrentes e como podemos monitorizar este risco.
Figura 4 - Mapa do Potencial de Retorno 2017 e o GIF de Alijó de 16|07|2017 que consumiu 4 684 hectares. Elaboração Própria. Fontes: ICNF; NOAA  (clique na imagem para ampliar)
Analisando na generalidade os incêndios de 2017, estes consumiram área de incêndios recorrentes com os 3 níveis mais altos, ou seja com um intervalo de recorrência entre 5, 10 e mais de 15 anos e cuja área ardida pela última vez ocorreu no mínimo entre 5 e 10 anos.

Dos 441 418 hectares da área ardida total, 66% ocorreu em espaços percorridos por incêndios passados (recorrentes). Do total da área ardida, 58% apresentava alto a máximo potencial de um incêndio voltar a ocorrer. A restante área (cerca de 34%) sem recorrência resultou da expansão da área ardida dos GIF’s, o que demonstra a tendência de crescimento dos GIF’s recorrentes.
Figura 5 - Mapa do Potencial de Retorno 2017 e o GIF de Covilhã (Rochoso - Seixo Amarelo) de 27|08|2017 que consumiu 10 836 hectares. Elaboração Própria. Fontes: ICNF; NOAA  (clique na imagem para ampliar)
Em termos gerais, em 2017, do total do território com potencial de recorrência apenas foram consumidos pelas chamas cerca de 16% dos espaços classificados com os níveis mais elevados (aproximadamente 1,5 milhões de hectares).
Figura 6 - Mapa de Potencial de Retorno para 2018 com base no período de 1990 a 2017. Elaboração Própria. Fontes: ICNF (com dados provisórios de 2017)  (clique na imagem para ampliar)
Para 2018 existe um potencial de retorno nos níveis mais altos (Alto, Muito Alto e Máximo) para cerca de 1,4 milhões de hectares do território nacional, incidindo sobretudo nas Serras Algarvias que apresentam um potencial alto a muito alto de voltarem a ser percorridas por GIF’s, bem como em várias zonas da Região Centro e de forma dispersa na Região Norte, muito particularmente nos distritos de Vila Real e Bragança. Mais uma vez recordo que a ocorrência de GIF’s recorrentes irá depender da meteorologia, do estado fenológico dos combustíveis e da densidade de ignições.

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