quinta-feira, 1 de maio de 2014

Campanha de Incêndios Florestais 2014. Previsões Estacionais

Por: Emanuel Oliveira

Os incêndios florestais estão associados às condições de ambiente de fogo presentes num dado território, logo dependentes dos 3 factores que compõem o triângulo de ambiente de fogo: topografia, combustíveis e meteorologia.

A topografia é um factor praticamente inalterável.

Os combustíveis ficam condicionados pelas suas características (carga disponível, o tamanho e a forma, a compactação, a continuidade, o conteúdo químico, a humidade e a temperatura do próprio combustível) definidas, entre outros factores, pela meteorologia.

A meteorologia é sem dúvida alguma o componente mais variável do ambiente de fogo, determinando e condicionando a disponibilidade e susceptibilidade dos combustíveis antes da ocorrência do incêndio e condicionando o comportamento e a propagação do fogo durante o incêndio florestal. Sendo assim, é importante para não dizer-se fundamental que as acções de prevenção estrutural e a disposição e preparação dos recursos e meios de extinção tenham em consideração as previsões meteorológicas.

Para a Campanha de Incêndios Florestais de 2014 o que podemos esperar da Meteorologia? Que verão ou princípio de Outono teremos?

Apesar das respostas serem algo complexas dada a variabilidade da meteorologia, considerando que os vários modelos de previsão sazonal não são de todo infalíveis, no entanto deixam-nos antever um quadro meteorológico aproximado, permitindo-nos uma oportunidade para preparar os meios e recursos de defesa da floresta contra os incêndios, assim como priorizar a alocação de meios de extinção.
Segundo o modelo europeu ECMWF, para a Península Ibérica esperam-se as seguintes condições:


TEMPERATURA


Final da Primavera e Início do Verão
Na Península Ibérica, a temperatura apresentará diferenças negativas, ou seja, com temperaturas abaixo da média, especialmente nas regiões do litoral atlântico.

Durante o Verão e no primeiro mês de Outono
Prevê-se uma anomalia positiva na Península Ibérica, com um desvio médio de temperatura na ordem de 0,5 / 1 °C acima da média.

Maio – Junho
A tendência é para manter-se a temperatura média na Península Ibérica, contudo poderá ficar abaixo da média e de forma mais pronunciada na costa noroeste de Portugal e Espanha (Galiza).
Tendência Térmica para Maio-Junho. Fonte: http://www.ilmeteo.it/
Junho – Julho
Os valores da temperatura serão aproximados da média de norte a o sul e a oeste da Península Ibérica. Na zona litoral oeste, ou seja na costa portuguesa poderá surgir uma anomalia térmica negativa, onde continuará uma tendência para temperaturas abaixo da normal climatológica , até -2 °C em relação à média.

Tendência Térmica para Junho-Julho. Fonte: http://www.ilmeteo.it/
Agosto – Setembro
A evolução do calor para a restante estação do Verão de 2014 sentida em outras regiões da Europa, vai estender-se para o restante continente, verificando-se uma anomalia térmica positiva entre 0,5 e 1, 5 ° acima da normal climatológica, prevendo-se uma excepção a Norte e a Oeste na Península Ibérica, correspondendo à costa portuguesa e à costa norte espanhola (da Galiza até ao País Basco).

Tendência Térmica para Julho-Agosto. Fonte: http://www.ilmeteo.it/
Setembro - Outubro
No final do verão e início da estação do outono, a temperatura continuará acima da média em grande parte da Europa, prevendo-se um ligeiro aumento em particular no Centro-Sul da Península Ibérica e mantendo-se a temperatura dentro da normal climatológica para a zona da costa ocidental peninsular.

Tendência Térmica para Setembro-Outubro. Fonte: http://www.ilmeteo.it/
PRECIPITAÇÃO
Quanto à precipitação o modelo ECMWF a tendência é para a fase de seca em quase toda a Europa Ocidental, incluindo a Península Ibérica. Observemos com mais detalhes a possível evolução das chuvas nos próximos meses.

Maio - Junho
Para o fim da primavera, como se pode observar, a tendência da precipitação encontra-se dentro da média.

Tendência Pluviométrica para Maio-Junho. Fonte: http://www.ilmeteo.it/
Junho - Julho 
No início do verão, o modelo europeu não prevê grandes mudanças sobre a tendência dos valores de precipitação relativamente à etapa anterior, encontrando-se dentro da média, no entanto poderá surgir valores acima nos territórios do Mediterrâneo ocidental.

Tendência Pluviométrica para Junho-Julho. Fonte: http://www.ilmeteo.it/
Agosto - Setembro
Para o restante da temporada de verão prevê-se uma redução da precipitação de forma generalizada em toda a Europa Ocidental, incluindo a Península Ibérica. No Mediterrâneo poderão surgir situações inversas.

Tendência Pluviométrica para Agosto-Setembro. Fonte: http://www.ilmeteo.it/
Setembro - Outubro 
Para o final do verão e início do outono, não haverá grandes mudanças no que respeita aos valores da precipitação, mantendo-se uma situação tendencial para seca nos territórios do Noroeste Peninsular e valores normais para o resto da Península Ibérica.

Tendência Pluviométrica para Setembro-Outubro. Fonte: http://www.ilmeteo.it/

Sendo assim, confirmando-se estas condições e se se efectivar o episódio climático El Niño para meados do Verão conforme nos indica a Organização Meteorológica Mundial (OMM), espera-se um aumento generalizado do risco de incêndios florestais, pelo aumento da carga de combustível fino morto e uma elevada disponibilidade e susceptibilidade do combustível. É notória que as temperaturas sentidas nos últimos meses, a elevada humidade presente e os valores elevados de precipitação vão condicionar um aumento considerável das herbáceas, as quais durante um período de seca facilmente perderão a humidade e ficando susceptíveis à fácil ignição (principalmente para meados a finais da época estival). 

O Período Crítico deverá então ser prolongado para o final do mês de Outubro, o que obrigará a um reforço do Dispositivo Especial de Combate aos Incêndios Florestais, priorizando a região Norte de Portugal (o mesmo deverá ocorrer na Galiza e na Comunidade de Castela e Leão, em Espanha), uma vez que nos últimos 3 anos tem vindo a acumular combustível, actualmente apresentando cargas consideráveis em áreas que já não sofrem incêndios desde 2010 e por outro lado não foram sujeitas a acções de gestão em matéria de defesa da floresta contra incêndios.

1 comentários:

  1. Caro Emanuel, gostei bastante desta previsão/analise do clima e sua relação entre prevenção estrutural e a probabilidade de risco acrescido. Parabéns.

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