terça-feira, 6 de maio de 2014

A Mudança Climática e a Floresta Europeia. Preparar ou Esperar?

Por: Emanuel Oliveira
Fonte: "Climate Change 2014
Impacts, Adaptation, and Vulnerability. 
Working Group II Contribution to the 
IPCC 5th Assessment Report 
- Changes to the Underlying Scientific/
Technical Assessment"

O Relatório das Alterações Climáticas no capítulo dedicado às florestas na Europa, publicado pelo IPCC (Intergovernmental Panel on Climate Change) da Organização das Nações Unidas no passado dia 31 de Março de 2014 estabelece que a situação presente e futura da nossa floresta europeia face à mudança climática inclui alterações ao nível das taxas de crescimento, da fenologia, da composição das comunidades de plantas e animais, o aumento de incêndios florestais e danos causados por tempestades e o aumento de pragas e danos patogénicos. Nas florestas do Sul da Europa verificou-se a mortalidade de árvores e o deterioro das florestas devido a episódios de seca severa.


Os investigadores apontam para um aumento do CO2 na atmosfera e temperaturas mais elevadas, o que poderá levar a um crescimento das florestas e da produção de madeira num curto a médio prazo nas florestas do Norte e da Europa Atlântica. Pelo contrário, na Europa do Leste o aumento do risco de seca provocará efeitos negativos, esperando-se uma queda da produtividade. Por volta do ano 2100 espera-se que a mudança climática incremente a redução do valor económico da terra florestal europeia derivado do cenário climático e das taxas de juro, o que equivale a danos potenciais de várias centenas de milhões de euros.

No Sul da Europa assistimos a um aumento da frequência e da extensão dos incêndios florestais, de forma significativa depois da década de 1970 em comparação com as décadas anteriores devido à acumulação de combustível, à mudança climática e aos fenómenos meteorológicos extremos, especialmente no espaço mediterrânico. O Relatório aponta ainda que os acontecimentos mais graves que ocorreram em 2010 em países como França, Grécia, Itália, Portugal, Espanha e Turquia estiveram associados a ventos fortes durante um período seco e de temperaturas altas. No entanto, na generalidade da região mediterrânica, a área ardida global reduziu desde 1985 e o número de incêndios florestais igualmente diminuiu desde o ano 2000 até 2009, apresentando uma grande variabilidade anual.
Em Portugal, segundo documentos oficiais publicados pelo ICNF a tendência da área ardida total tem vindo a descer desde 2005, contudo o número de ocorrências tem-se mantido estável, sem grandes oscilações, desde 2009.
Incêndio Florestal de Castrocontrigo (Leon - Espanha) em Agosto de 2012
O relatório refere ainda a ocorrência de Mega-Incêndios Florestais (MIF’s, definição derivada conceito Megafire) desencadeados nas últimas décadas por eventos climáticos extremos que levaram a recordes máximos de áreas ardidas em alguns países do espaço mediterrânico (por ex.º: o incêndio de Tavira e S. Brás de Alportel (Portugal) em 2012, o incêndio de Castrocontrigo (Leon, Espanha) em 2012.
Segundo o mesmo documento prevê-se um aumento do risco de incêndios florestais no Sul da Europa com um incremento na ocorrência de dias de alto risco bem como na duração do período de incêndios. Igualmente, o relatório prevê um preocupante aumento da superfície queimada anualmente.
No Norte de Europa, os incêndios prevêem-se a ser menos frequentes devido ao aumento da humidade.
Em termos gerais, o aumento previsto dos incêndios florestais provavelmente conduzirá a um aumento significativo das emissões de gases de efeito estufa devido à queima da biomassa, ainda que seja difícil de quantificar.
Queda de árvores num povoamento florestal na Landes (França) por ventos tempestuosos.
Actualmente os danos provocados por ventos tempestuosos nas florestas da Europa têm aumentado recentemente. As florestas boreais tornar-se-ão mais vulneráveis a estes riscos de tempestades ocorridas no outono e início da primavera devido à prevista diminuição do solo congelado. O aumento das perdas por tempestade poderá rondar entre 8 a 19 % nos territórios ocidentais da Alemanha, entre os anos 2060 a 2100, com maior impacto nas regiões montanhosas.

Segundo a FAO, muitas florestas europeias foram afectadas por um considerável aumento de doenças. Na Europa Continental algumas espécies de fungos beneficiam dos invernos mais suaves e outros propagam-se durante os períodos de seca. O previsto aumento de episódios de aumento de temperatura durante o verão mais tardio, ou seja para final da estação, favorece a disseminação e expansão dos escolitídeos nos países da Escandinávia e nalgumas regiões da Europa Central e Áustria, com maior incidência nas zonas mais baixas.
Espécies de Pinheiro-bravo afectados pelo nemátodo do pinheiro.
Sendo assim, o Relatório sobre a Mudança Climática apresenta um complexo e preocupante conjunto de cenários, conferindo-lhe níveis de probabilidade de ocorrência, prevendo os seguintes impactos para a floresta europeia: 

  • O aquecimento climático aumentará a produtividade das florestas do Norte da Europa (média probabilidade), apesar dos danos causados pelas pragas e doenças em todas as sub-regiões que aumentarão devido à alteração climática (alta probabilidade). 
  • O risco de incêndios florestais no Sul da Europa (alta probabilidade) e os danos causados pelas tempestades no Centro da Europa (baixa probabilidade) também podem aumentar com as alterações climáticas.
  • A alteração climática pode produzir danos ecológicos e sócio-económicos pela alteração das espécies arbóreas florestais (média probabilidade) e na dispersão das pragas.
  • As medidas de gestão florestal podem melhorar a resiliência dos ecossistemas (média probabilidade).

Alterações no risco de incêndios florestais na Europa durante dois períodos.
A Resposta

O mesmo Relatório sobre a Mudança Climática aponta um conjunto de respostas a ter em consideração, visando tornar a floresta mais resiliente face às alterações climáticas e aos cenários previstos.

  1. A resposta possível aos impactos na floresta resultantes da mudança climática implica medidas e a operacionalização de estratégias a curto e longo prazo que se centrem na melhoria da resistência e da resiliência dos espaços florestais.
  2. A floresta fragmentada em pequena escala (minifúndio) pode limitar a capacidade de adaptação.
  3. O ordenamento do território e a gestão do combustível pode reduzir o risco de incêndios florestais, mas pode ser limitado pela alta inflamabilidade devido a condições de seca e de temperaturas elevadas.
  4. As estratégias para reduzir a mortalidade das florestas implicam a preferência por espécies melhor adaptadas às condições ambientais relativamente quentes.
  5. A selecção das famílias e clones tolerantes ou resistentes pode reduzir o risco de danos por pragas e doenças.
Recorda-se que o Alto Minho à semelhança dos restantes territórios da Região Norte de Portugal tem vindo a promover um desenvolvimento económico baseado no aproveitamento dos recursos naturais, apostando no sector primário e incrementando fortes investimentos no sector turismo. A Mudança Climática e os cenários previstos ao afectarem a floresta, com certeza por efeito dominó acarretará graves consequências aos investimentos públicos e privados no Turismo, fortemente dependente da paisagem, da biodiversidade e das actividades rurais e agro-silvo-pastoris que têm contribuído para a manutenção desses preciosos recursos. Tais onerosos investimentos implicam medidas preventivas que salvaguardem a manutenção e conservação da qualidade desses recursos, caso contrário as perdas económicas serão muito superiores às previstas apenas para o subsector florestal, atingindo de forma transversal os demais sectores económicos, ultrapassando em muito as centenas de milhões de euros previstas e afectando directamente a sustentabilidade de toda a Região Norte.

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