FOGOS FLORESTAIS

UMA ABORDAGEM OPERACIONAL, TÉCNICA E POLÍTICA

O FOGO

UM BOM CRIADO, UM MAU PATRÃO

FOGO CONTROLADO

UMA FERRAMENTA ESSENCIAL NA PREVENÇÃO DE INCÊNDIOS FLORESTAIS

INCÊNDIOS FLORESTAIS

NÃO SE PODE PROTEGER ALGO QUE NÃO SE VALORIZA

FORMAÇÃO E PROFISSIONALISMO

É ESSENCIAL TRABALHAR COM O FOGO PARA ENTENDER O SEU COMPORTAMENTO NO COMBATE

terça-feira, 2 de julho de 2019

Crónicas do Fogo em Terra de Vera Cruz. O primeiro contacto com o Povo Gavião

O barulho da rua movimentada, os sons do boteco, não impediram que descansasse durante a noite. Na verdade, fui vencido pelo cansaço. Às 07 horas da manhã estava a pé e depois de um duche revigorante, tomei o café, ou melhor, assim chamam no Brasil ao pequeno-almoço servido com pão de queijo, ovos mexidos, pão de trigo, bolo caseiro, suco de caju e suco de cajá, entre outras iguarias locais, e café ao estilo americano.

Havia uma grande ansiedade dentro de mim, pois teria o meu primeiro contacto com o Povo Gavião e com o Cerrado. Seria um dia marcante, pois não sabia o que ia encontrar e o meu conhecimento resumia-se a artigos científicos e teses académicas. Estava como na véspera do meu primeiro dia de aulas ou do meu primeiro dia de trabalho, ou na primeira vez que subi um cume nos Picos de Europa. Estava preparado? Não, mas quem está preparado para o desconhecido? Assim, assumi desde o início este caminho que teria que percorrer.
Foto 1 - Quartel do Corpo de Bombeiros Militar de Imperatriz
O horário marcado com o Corpo de Bombeiros Militar de Imperatriz estava previsto para as 08:00 horas, a pouca distância do hotel onde nos encontrávamos. Cumprindo criteriosamente o horário, com pontualidade militar, a qual parece ser universal, conhecemos os elementos da equipa que nos apoiaria na Terra Indígena de Governador, sendo liderada pelo Tenente Evandro de Abreu. No primeiro momento que conhecemos cada elemento, percebemos que estávamos perante uma equipa bem preparada técnica e fisicamente e cuja postura inicial demonstrou ser, desde logo, altamente disciplinada. Das instalações do 3º Batalhão de Bombeiros Militar do Maranhão partimos para a cidade mais próxima da Terra Indígena de Governador.

Teríamos que percorrer cerca de 110 km, o que nos levaria aproximadamente 2 horas. Imediatamente partimos, seguindo a estrada estadual MA-122, um verdadeiro corredor panorâmico, onde pude deliciar-me com as paisagens que avistava a partir da viatura e com as explicações dos meus amigos e colegas nesta “aventura”. O percurso é pontuado pelas lombas, aqui chamadas de “quebra-molas”, pois quem se atrever a passar sem praticamente parar, é capaz de nunca chegar ao destino. Pequenas cidades foram surgindo junto ao negro asfalto, cujos simples edifícios pintados de cores garridas marginam a estrada e contrastam com o verde carregado da vegetação e um luminoso céu azul. Delas recordo alguns nomes, como Senador La Roque e Buritirana. No meio do casario simples, algumas das construções em adobe (aqui designadas casas de taipa de mão ou pau-a-pique), destacam-se os melhores edifícios que pertencem a inúmeras igrejas evangélicas. As fazendas vão compartimentando a paisagem onde se podem ver inúmeras cabeças de gado de raça bovina, como pontos brancos num fundo verde.
Foto 2 - A rua próxima ao hotel onde ficamos alojados, coberta de areia e pó
Durante o itinerário, eu vou tentando absorver tudo o que vejo, questionando os colegas e. de máquina fotográfica ou telemóvel em punho, vou tirando fotografias. Peço amiúde ao Fillipe para reduzir a velocidade, de modo a poder fotografar. Ainda bem que, a maior parte das vezes, ele fingia que não ouvia, caso contrário nunca chegaríamos ao destino a horas decentes.
Por volta das 10:00 horas, chegámos a Amarante do Maranhão. Esta cidade, com cerca de 40 mil habitantes, nasce nos anos 50, por força dos produtores agrícolas que vão desbravando no Cerrado Maranhense novas terras para cultivo, em conflito com os povos indígenas. Acabados de chegar, vamos ter com o nosso contacto da FUNAI (Fundação Nacional do Índio) que nos integrará na Terra Indígena de Governador. A FUNAI é um organismo do Governo Federal e tem por missão coordenar e executar as políticas indigenistas, proteger e promover os direitos dos povos indígenas do Brasil.
Aproveitando estarmos perto do hospital, fomos, por convite do Tenente Evandro, visitar um bombeiro do CBM de Imperatriz que se encontrava internado. O pequeno hospital era um edifício simples, muito longe das condições que encontramos em qualquer hospital português. As visitas e pacientes amontoavam-se na entrada, à espera da sua vez.
Foto 3 - Contacto com elementos da da FUNAI em Amarante do Maranhão para podermos aceder à Terra Indígena de Governador
Depois de chegarmos a acordo e de ser identificada a pessoa que seria o nosso elo de ligação com a aldeia indígena, dirigimo-nos para aquele que, segundo o cartaz existente à entrada da cidade, seria o melhor hotel de Amarante do Maranhão. Não era mentira, pois é o único que lá existe!
Numa rua asfaltada, mas coberta de terra e pó e do derrame dos efluentes de casas e lojas, ali estava o que seria o nosso alojamento por cerca de uma semana. Carregámos as pesadas malas para o andar de cima por uma estreita e íngreme escadaria que nos levaria a um pequeno quarto onde tinham colocado três pequenas camas, cada uma encostada a uma parede e cobertas com lençóis, cada um com o seu padrão e alguns buracos a fazerem parte da decoração. No centro, tinha uma mesa e uma cadeira, ambas plásticas, e um televisor com algumas décadas, que nunca funcionou. A casa de banho tinha um duche, um lavatório e uma sanita (vaso, no Brasil) e um buraco na parede que servia de arejador e também à entrada de mosquitos e melgas, os temidos pernilongos que já ocupavam o quarto antes de nós chegarmos. Se não tratássemos deles, com certeza eles tratariam de nós! Havia que proceder a uma ação de exterminação antes de nos deitarmos. Antes de sairmos, ligou-se o ar condicionado e percebi que dormir seria uma questão de me habituar ao ruído do aparelho.
Uma vez instalados, fomos almoçar num restaurante, onde saboreamos um prato típico maranhense – a Panelada –,feito com tripas, acompanhado obviamente com arroz e feijão, sem nunca faltar a farofa. É um prato muito parecido com as portuguesas “Tripas à moda do Porto”.
Imagem 1 - Aldeia de Governador. Fonte: Google Earth
Um pouco antes das 13:00 horas locais, partimos para a Terra Indígena de Governador, mais precisamente para a Aldeia de Governador, onde nos esperaria o Cacique. A aldeia ficava a cerca de 10 km da cidade, o que nos levou a fazer um percurso de aproximadamente 15 minutos. Abandonámos a estrada asfaltada para entrarmos no Cerrado, por uma estrada poeirenta de areia vermelha. O ar condicionado do carro disfarçava a temperatura exterior, superior a 35 ºC , e uma humidade relativa superior a 75%. À medida que chegávamos à aldeia, o meu coração batia mais forte, pois o meu sonho estava prestes a realizar-se. Iria estar na presença de um povo indígena e em pleno Cerrado. Não fazia eu a mínima ideia de que este contacto com o povo e com a terra iria desencadear em mim um processo de desconstrução do meu pensamento sobre o uso do fogo prescrito.
Foto 4 - Chegada da nossa equipa às instalações da Brigada Indígena de Governador à entrada da aldeia
Às treze horas em ponto chegámos à aldeia, onde nos esperavam alguns elementos da Brigada Indígena de Governador, constituída com o apoio da FUNAI e do IBAMA PrevFogo. O PrevFogo é o Centro Nacional de Prevenção e Combate aos Incêndios Florestais dentro do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis, cuja missão é prevenir e combater os incêndios florestais em todo o território nacional, formar brigadistas e usar o fogo prescrito na gestão da paisagem. Jeferson, o nosso guia, apresentou-nos o Cacique Evandro (xará do Tenente Evandro, ou seja, o seu homónimo) e fez o enquadramento da nossa visita, tal como já tinha sido acordado semanas antes com o indigenista responsável da FUNAI. O Cacique é uma definição para designar o índio que é responsável pela tribo, tem um papel político, sendo responsável por organizar e comandar a tribo, assim como punir internamente.
Foto 5 - Reunião com o Cacique Evandro
O Cacique Evandro é um jovem com 31 anos, também funcionário da FUNAI. Demonstrou ter um grau cultural bastante elevado e ser muito bem informado, assim como ter um sentido de humor inteligente e apurado, apesar do seu aspeto sisudo, o que permitiu um ambiente muito descontraído. Mostrou-nos logo que nesta Terra Indígena não deveríamos estar à espera de índios a viver como há 50 anos, apesar de ainda existirem alguns grupos de “isolados” que mantinham modos de vida mais tradicionais. Pelo que pudemos verificar durante a enriquecedora conversa e segundo alguns estudos que pude ler, houve um processo persecutório por parte do “homem branco”, entre os séculos XVIII e XIX, fazendeiros provenientes dos estados da Bahia, Pernambuco e Pará que, aos poucos, foram invadindo o território. Mais tarde, a partir da década de 50 do século passado, dá-se um novo processo de ocupação branca, com os grandes fazendeiros provenientes dos estados da Bahia, Minas Gerais e São Paulo. Lendo os jornais atuais, são inúmeras as notícias de índios mortos na região e no Estado, em resultado dos conflitos por invasão da terra indígena, caça furtiva e saques de madeira. Não me admira que andem armados dentro da aldeia e desconfiados com os forasteiros.
É relativamente recente a aculturação ocidental, iniciada a partir de 1960 com os missionários da New Tribes que se instalaram entre o Povo Gavião Pyhcop catiji. Aos poucos, vou apercebendo-me das consequências destrutivas de todo este processo, tão semelhante aos de outras regiões do Brasil, inclusive com consequências irreversíveis para a conservação dos biomas e, neste caso, colocando hoje em risco o Cerrado.
Foto 6 - Entrevista à anciã com mais idade da Aldeia Governador
Após cerca de hora e meia de reunião, com a apresentação do projeto e dos seus objetivos por parte de Fillipe Tamiozzo, pedimos ao Cacique a possibilidade de ouvir as pessoas mais velhas da aldeia. No Brasil, disseram-me, dizer “velho” é pejorativo, pelo que devemos dizer “anciãos”. O Cacique levou-nos até à pessoa com mais idade na aldeia, a qual nos poderia dar muita informação sobre o uso do fogo por parte do Povo Gavião Pyhcop catiji, D.ª Teresa, cujos 100 anos não lhe roubaram a lucidez e a sabedoria que só se ganha com a idade e a experiência. D.ª Teresa não fala português, na realidade o seu verdadeiro nome é Chakui (Xýcwyi). Os missionários, ao abrigo de uma suposta evangelização, foram levando até estes povos a sua cultura e alterando os modos, costumes e tradições indígenas, inclusive mudando os nomes dos índios. O nome original do Cacique é A’Cahuc ‒ que significa “Pé de Bananeira-brava”‒, Evandro é apenas um nome “cristão”.
Foto 7 - D.ª Teresa, ou melhor D.ª Chakui, com cerca de 100 anos, fala-nos como o Povo Gavião usava o fogo, na sua juventude 
Próximo das construções de tijolo vermelho, cobertas de telha, ficámos à sombra de uma construção típica, feita com madeira e coberta com folhas de Buriti, onde uma panela de ferro sobre um braseiro cozinhava lentamente o jantar. Sentámo-nos num banco de troncos, aos pés da anciã. As crianças brincavam no chão, fazendo desenhos entre resíduos de plástico dispersos ou brincando com garrafas plásticas de refrigerantes. As galinhas e os cães deambulavam por entre o casario que se dispunha em forma de círculo e no centro da aldeia pastavam umas quantas vacas.
Foto 8 - Na aldeia o fogo continua a ser utilizado na confeção dos alimentos
Foto 9 - Crianças Gavião a brincar, enquanto os adultos falam sobre o fogo no tempo dos seus avós e bisavós
Com a ajuda do Cacique na tradução, ficamos a perceber que quando Chakui era jovem, o fogo era usado, na aldeia, para os fins mais diversos e quem organizava a queima era o “Chamador” (um responsável hierarquicamente abaixo do Cacique). A queima era levada a cabo pelos índios da tribo mais experientes e faziam muito mais fogo do que atualmente, pois era necessário para a caça e para a produção e recolha dos frutos do Cerrado. Algo que me deixou surpreso foi a fase da Lua como condicionante de prescrição da queima, entre outras ricas e importantes informações que tornariam imensamente extensa esta crónica, porém serão descritas nos produtos deste trabalho de investigação. Não menos importante foi o dado de que os índios desta tribo deixaram de usar o fogo durante várias décadas, até as suas terras terem sido percorridas por dois grandes incêndios devastadores e, em consequência, o IBAMA PrevFogo introduzir novamente a queima prescrita a partir de 2017.
Video 1 - Um curto excerto da enriquecedora entrevista
 O dia passou rapidamente, chegámos ao final da tarde e acordámos com o Cacique a visita, no dia seguinte, das áreas percorridas por queimas prescritas e pelos incêndios de 2013 e de 2017. Saímos da aldeia pensativos, cada um assimilando e meditando sobre tudo o que nos foi dito. Ao chegarmos à cidade, fomos comprar os alimentos e produtos necessários para o almoço do dia seguinte, que seria confecionado na aldeia. No supermercado, tudo se vende, inclusive poções de banho e elixires, assim como essências perfumadas para afastar o mau olhado, atrair riquezas ou amores.
Foto 10 - As poções "milagrosas" para as prometidas mudanças de vida fazem parte das estantes dos supermercados 
Chegados ao hotel, peguei na lata de inseticida e pulverizei de forma contundente o habitáculo, para me assegurar de que acabaria com os pernilongos que ali estavam para nos sugarem o sangue. Apenas segui conselhos médicos obtidos na consulta de vacinação tropical, que teria de ter o máximo cuidado com estes bichinhos! Logo a seguir, abandonámos o quarto, pois “se não morríamos pela doença, morreríamos pela cura”, tal era a intensidade do inseticida. Aproveitámos e fomos jantar numa churrasqueira da cidade; pouco tempo depois, regressámos ao hotel, para o merecido descanso.

sábado, 22 de junho de 2019

Crónicas do Fogo em Terra de Vera Cruz. Chegados a Imperatriz do Maranhão

Eram as 03:00 horas da madrugada do dia 22 de maio quando me levantei da cama para deixar a comodidade da minha casa, situada num lugarzinho de cerca de 9 habitantes, numa aldeia com pouco mais de 250, incrustada no verdejante vale do Coura e rodeada por floresta de pinheiro-bravo e carvalheiras, em pleno coração do Alto Minho; a mesma região do Caramuru ‒ Diogo Álvares Correia (1475?-1557), náufrago português que passou a vida entre os indígenas da costa do Brasil e foi fundador da Bahia. Deixar a casa, a esposa e os filhos, deixar pais e irmãos, é sempre uma situação difícil, para mais quando se parte sem saber o que vamos encontrar a mais de 10 mil quilómetros de distância. É uma mistura entre o querer partir à descoberta e a preocupação com os que ficam! Restava-me o nó na garganta e a pedra no estômago.
Gravura 1 - Hermenegildo Capello e Roberto Ivens.
Fonte: https://tertuliabibliofila.blogspot.com
Os dias que antecederam a partida foram de grande correria, entre encerrar trabalhos, elaborar as apresentações e preparar a viagem e o equipamento necessário para as jornadas que me esperavam, e dominar uma galopante ansiedade. Durante estes dias, vinha-me à memória um livro que li e reli em criança: “De Angola à Contra-Costa: Descripção de uma Viagem Atravez do Continente Africano” que descreve a travessia do continente africano, entre as costas de Angola e de Moçambique, realizada entre 1884 e 1885 pelos exploradores portugueses Hermenegildo Capello e Roberto Ivens, bem como relata o modo como eles descreviam as suas aventuras e angústias.

Por volta das 03:55 horas, no Centro de Transportes de Valença, deixo um beijo à minha mulher e entro no autocarro galego, com um aperto no coração, para seguir para o aeroporto Francisco Sá Carneiro, no Porto, onde me encontrarei com o amigo e coordenador deste trabalho de investigação, Fillipe Tamiozzo. Fillipe está a desenvolver uma investigação no âmbito do pós-doutoramento, na Universidade de Coimbra, pelo que saímos juntos de Portugal para atravessarmos o charco.
Com uma breve paragem em Lisboa, para trocarmos de avião, atravessámos o Atlântico, numa viagem de cerca de 09:30 horas de duração, com escala em São Paulo, para mudarmos de avião e seguirmos em voo interno até São Luís do Maranhão; a hora de chegada foi por volta da uma da madrugada. Aí pernoitámos, num hotel próximo do aeroporto. No dia seguinte, por volta das 08:00 horas da manhã, regressámos ao Aeroporto Internacional de São Luís - Marechal Hugo da Cunha Machado, para seguirmos para Imperatriz, no interior do Estado do Maranhão. No também conhecido como Aeroporto do Tirirical, pudemos degustar um café expresso com o sabor e intensidade que em Portugal tanto apreciamos e do qual já tínhamos saudade; a partir de então, corremos sempre os vários aeroportos, à procura de tão estimulante poção.
Foto 1 - Um café expresso tão “nosso”, forte e intenso.
Pouco antes de aterrarmos, avistava-se por entre as nuvens e sobre um vasto manto verde, o extenso e serpenteante rio Tocantins. Ao sair do avião, senti que tinha chegado ao interior do Maranhão, pela baforada de ar quente e húmido típico desta região. Nos poucos metros entre o aeroporto e a “Localiza” (assim se denomina no Brasil o serviço de aluguer de carros) onde reservámos a viatura todo-terreno que nos permitiria deslocar-nos nas picadas da savana brasileira, deu para perceber o efeito das temperaturas e da humidade relativa tão elevadas. Em poucos minutos, fiquei encharcado de suor e só estava bem debaixo do ar condicionado do escritório do serviço de rent-a-car.
Foto 2 - Rio Tocantins, separando o Estado do Maranhão do Estado de Tocantins
Dali saímos para a cidade de Imperatriz, cheios de ilusões, de ideias, de dúvidas e um oceano de questões, próprias de quem inicia um trabalho de investigação num território para ambos desconhecido. No caótico trânsito e no emaranhado de ruas que se confundiam, navegámos com a ajuda do GPS, indo ao encontro do colega José Augusto, da Universidade Federal do Maranhão, um jovem maranhense biólogo, conhecedor das plantas do Cerrado.
Chegados a um simples hotel no centro do reboliço da segunda maior cidade do Maranhão,com cerca de 258 mil habitantes, esperava-nos o amigo Coronel Paulo Barroso, do Corpo de Bombeiros Militar de Mato Grosso, cuja função nesta missão foi de integração do CBM de Imperatriz e no apoio à organização operacional das ações de segurança e queima.
Foto 3 - Rua do Hotel, na cidade de Imperatriz, Maranhão
Uma vez acomodados, saímos de imediato para almoçar e colocar em ordem a preparação dos dias que se seguiriam. Ainda era preciso adquirir algum material para identificação das plantas nas parcelas alvo de estudo, bem como levantar dinheiro, pois a próxima cidade não teria caixas multibanco compatíveis com os nossos bancos. A rua do hotel era confusamente movimentada, sem sarjetas, os efluentes drenavam no quente asfalto para evaporarem e exalarem todo o tipo de cheiros. Na variedade de espaços comerciais, entre açougues (talhos) com carne de sol à porta, casas de moda, de venda de celulares (telemóveis), destacavam-se inúmeras farmácias e, numa pequena praça ao final da rua, acomodavam-se os vendedores ambulantes que vendiam de tudo um pouco.
Foto 4 - Carne de sol a secar na Rua do Hotel
O dia fez-se muito curto para quem partira na madrugada do dia anterior, atravessando o Atlântico e parte do território brasileiro, para quem já de antemão sabia que os dias seguintes prometiam um esforço muito maior. Era o momento de aproveitar a noite para descansar, reduzir a temperatura do ar condicionado para 16 ºC e pulverizar-me com o mais forte repelente, de forma a evitar as tormentosas picadelas de mosquitos e melgas (muriçocas ou pernilongos, no Brasil).

quarta-feira, 19 de junho de 2019

Crónicas do Fogo em Terra de Vera Cruz. Prólogo

Depois de cerca de um mês em Terra de Vera Cruz, das paisagens, aromas, matizes, paladares e sons que abundam e diversificam aquele país, na verdade não sei por onde hei de começar a escrever. Talvez por o Brasil ser muito mais do que um país ‒ é um continente, cada Estado é uma nação onde se fala a língua de Camões ‒, ou talvez porque as semanas foram tão ricas que não fui capaz, ainda, de assimilar tudo o que aprendi, vivi e conheci.

Temo deixar algo por (d)escrever, algo que é tão importante como tudo o demais, pois tudo fez parte do que vivi. Esta viagem marcou-me para sempre, pois permitiu conhecer-me melhor, como ser humano, e voltei a constatar que os limites e os receios existem para serem ultrapassados, bem como que o que se entende por “conforto” não é igual em todas as situações.
Não é fácil deixar a comodidade da casa, o carinho e o amor da família, para entrar naquilo que para mim foi uma aventura rumo ao desconhecido e uma verdadeira aprendizagem. Talvez, mais do que uma aventura, tenha sido parte de um antigo sonho, um desejo realizado.

Foto 1 - Meu pai, Manuel de Oliveira,  o terceiro a contar da direita (com chapéu) em Angola nos anos 60
Tudo começa lá atrás, em criança, ouvindo as histórias do meu pai na África, então colonial. Como qualquer criança, imaginava fazer algo semelhante ao meu pai, embrenhar-me no meio da savana ou da selva, percorrer as extensas picadas, ver um mundo diferente daquele em que  habitualmente passo o meu  dia-a-dia. Era uma mistura de querer ser como o meu pai, viver algo semelhante ao que ele viveu e descobrir paisagens e modos de vida diferentes. Passado tanto tempo, desde os sonhos de criança, agora a poucos anos de alcançar meio século, o fogo despertou o meu interesse pelos povos que ainda hoje mantêm a chama viva. Esses povos que usam o fogo, também prescrito, ainda que as condições de prescrição sejam mais empíricas e distantes de tabelas, nomogramas e valores obtidos por entediosos métodos e ensaios científicos.
Foto 2 - Véu de Noiva - Parque Nacional da Chapada dos Guimarães - Mato Grosso (Brasil)
O meu percurso profissional e académico conduziu-me até à Universidade Federal de Viçosa onde, em 2017, a convite do professor e amigo Fillipe Tamiozzo, diretor do Laboratório de Incêndios Florestais, passei a integrar o Grupo de Pesquisas da Conservação da Natureza e Manejo de Áreas Protegidas, liderado pelo professor Doutor  Gumercindo Souza Lima. Desde então, tenho colaborado no desenvolvimento de projetos dedicados ao estudo do fogo nos biomas do Brasil. Felizmente, uma porta abriu-se  e graças ao apoio do CNPq (o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, um órgão ligado ao Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações para incentivo à pesquisa no Brasil) e à colaboração da Universidade Federal do Maranhão, foi possível o financiamento para um projeto de investigação em ecologia, monitoramento e manejo integrado do fogo, onde pude estrear-me como investigador no outro lado do Atlântico (pesquisador no Brasil).

As últimas mudanças políticas nesse país e os anúncios de desinvestimento nas áreas de investigação deixavam pairar no ar que o projeto apresentado no início de 2018 não viesse a avançar. Contudo, no meio da turbulência política, debaixo de um céu encoberto e maus presságios, eis que uma réstia de luz afastou as nuvens negras. O projeto apresentado obteve luz verde e foi considerado ter  interesse para avançar.

Em abril, tinha a certeza de que no final do mês seguinte iniciaríamos o trabalho no Maranhão.
Gravura 1 - O roteiro das viagens aéreas, mais  de 25 000 km realizados, sem contar os cerca de 1000 km realizados por meio terrestre. 
A par deste projeto surgiram outros, não menos importantes, que me levaram a prolongar a minha estadia no Brasil, podendo visitar o Estado de Santa Catarina e o Estado de Mato Grosso. Durante esta estadia, passei pelas 5 macrorregiões do Brasil: Norte, Nordeste, Centro-Oeste, Sudeste e Sul, tendo percorrido mais 25 300 km  de avião, mais de 1 000 km de carro e umas quantas dezenas a pé.

Foram dias incríveis que procurarei descrever nos posts seguintes, sob o título genérico de “Crónicas do Fogo em Terra de Vera Cruz”.

sábado, 16 de fevereiro de 2019

A prescrição no uso do fogo

Por: Emanuel Oliveira

A prescrição no uso do fogo é como a prescrição médica. Fazendo a analogia entre ambas, o técnico à semelhança do médico, de acordo com as condições do paciente, neste caso a paisagem, observa e analisa um conjunto de sintomas apresentados pelo paciente/paisagem o qual se traduzirá num diagnóstico. Depois da fase de diagnóstico é prescrito um tratamento onde se detalha num documento oficial – o Plano de Fogo Controlado (a nossa “receita médica”) - a forma como deve ser aplicado, ou seja, as condições, as “doses” e o período do nosso tratamento. Dado o estado de vulnerabilidade do nosso paciente – a paisagem – poderá ser aplicado um tratamento preventivo, afim de aumentar a resiliência da paisagem e reduzir a perturbação provocada por um potencial incêndio.

O fogo prescrito, sendo um fogo que procura reproduzir um fogo de origem natural, funciona como uma vacina para uma paisagem com um sistema imunitário cada mais debilitado (pelo despovoamento, pelo envelhecimento da população, pela perda de usos do solo), com elevada carga de combustível disponível e vulnerável no quadro das mudanças climáticas. Obviamente que existem outros tratamentos, tais como a roça de matos, seja ela moto-manual ou mecânica, ou mesmo tratamentos mais invasivos como os químicos. Eu prefiro, um programa de “vacinação” dada a sua eficácia e eficiência, porém dependendo das condições do nosso “paciente”.  Entenda-se por isso que o Programa Nacional de Fogo Controlado promovido pelo Estado Português, através do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas é um importante programa nacional de vacinação para as nossas paisagens.
Figura 1 - The Grass Fire, Frederic Remington 1908, Amon Carter Museum, Fort Worth, Texas
Ainda que de forma empírica e muito antes de existirem os “médicos” de hoje, durante várias gerações, o Homem observando o efeito do fogo natural, apercebeu-se da importância do seu uso no tratamento da paisagem e como “curandeiros” foram cuidando desta ao longo dos séculos. É notável, ver o tratamento comum dos “curandeiros” dispersos pelo globo, nas comunidades rurais do velho continente (os nossos pastores) e nas populações indígenas de África, América do Norte, América do Sul ou Austrália, atribuindo a “mezinha” do fogo para as diversas maleitas.

Então, qual a prescrição mais adequada para o uso do fogo no tratamento das nossas paisagens?

Cada caso é um caso! Não podemos fazer prescrições transversais em paisagens diversificadas ou em subunidades paisagísticas ou igual para todos os ecossistemas e biomas. Antes de usar o fogo, temos que responder previamente a algumas questões:

  • Porque vamos usar o fogo num determinado espaço? Para quê? Para quem?
  • Quando vamos usar o fogo?
  • Como vamos usar o fogo?
  • O que esperar após o fogo?

Existe alguma confusão quanto à prescrição. É comum sobrevalorizar a prescrição meteorológica a qual permite manter o fogo sob determinadas condições de controlo e apoiada em recursos humanos e meios – isto é, mais fogo controlado do que fogo prescrito! Como já referi no artigo anterior, não simpatizo com o conceito de fogo controlado quando se trata de fogo prescrito, pelas razões já enfatizadas.
Figura 2 - As condições de prescrição a observar no uso do fogo prescrito
O fogo prescrito vai muito mais além da prescrição meteorológica, pois deve considerar outras condições de prescrição:

Prescrição Ecológica – considerando os ecossistemas e sua recuperação pós-fogo, de acordo com o estado fenológico dos complexos de combustível. Igualmente, devem ser consideradas as condições edafológicas, pois o solo é o suporte de vida dos ecossistemas.

Prescrição Socioeconómica – considerando as necessidades das populações locais, tais como renovação de pastagens ou a cinegética. No caso da renovação das pastagens, a queima deve ter em conta o tipo de gado a as formações vegetais que constituem o alimento deste, pois a técnica, o consumo pelo fogo e estação do ano são importantes para obter os melhores resultados de acordo com as necessidade de cada espécie pecuária (bovinos, ovinos, caprinos e equinos) ou cinegética (coelhos, perdizes, corços, etc.).

Prescrição Técnica – a técnica e método de ignição e condução da queima são essenciais no alcance dos objetivos, procurando reduzir os impactes do fogo no solo e a redução da carga de combustível. Por exemplo, em solos mais pobres e esqueléticos, devemos optar por um fogo rápido, isto é, com um menor tempo de residência, ainda que aparentemente se manifeste como um fogo de alta intensidade, porém o impacte no solo é baixo. Por outro lado, no caso de proteção de zonas de interface ou de outros objetivos de defesa da floresta contra incêndios, é preferível uma efetiva redução da carga de combustível, pelo que o fogo deverá cumprir um objetivo de elevado consumo nas formações vegetais, logo mais tempo de residência.
Figura 3 - Apesar da aparente intensidade do fogo, o curto tempo de residência permite um baixo impacte no suporte dos ecossistemas - o solo
Prescrição Sanitária – bastante comum em países a sul do Equador, onde a queima pode ter um objetivo de controlo de pragas e doenças derivadas, no que respeita à saúde pública e à sanidade animal na produção pecuária, tais como o controlo de carraças (carrapatos). Igualmente, a queima pode ser um recurso eficaz na higienização de pastos para a atividade pecuária e cinegética (em Portugal está pouco estudado o impacto do fogo prescrito no controlo da febre hemorrágica dos coelhos bravos).

Prescrição Estacional – a prescrição estacional está relacionada com a prescrição, socioeconómica e sanitária, pois a época em que usamos o fogo determinará os resultados pretendidos.

Quanto à Prescrição Meteorológica esta é importante para estimar a disponibilidade dos combustíveis em relação ao fogo, para reduzir os impactes, para o controlo da propagação, redução de riscos de piroescape, segurança e para os trabalhos de consolidação da queima.
Figura 4 - O fogo quando é mal entendido é visto como o fim da vida, no entanto a Natureza insiste em mostrar-nos a sua necessidade.
É dever técnico procurar cumprir estas condições de prescrição de acordo com a análise, avaliação e diagnóstico da área onde se pretende proceder a um tratamento com fogo. A par deste trabalho interno, é importante divulgar os objetivos para que a sociedade em geral entenda o seu uso e não se inventem mitos sem qualquer fundamentação. Igualmente, importa registar as condições em que executamos o tratamento, tal como um médico regista no historial do seu paciente. 
O fogo antes de ser entendido pelo comum cidadão, deve ser bem entendido por todos nós, técnicos que usamos o fogo prescrito!

domingo, 10 de fevereiro de 2019

Fogo Prescrito ou Fogo Proscrito

Elaborado por: Emanuel Oliveira

Ultimamente, temos vindo a assistir a várias manifestações fundamentalistas de uma emergente cultura ecourbana cada vez mais presente, inclusive nas decisões políticas, ao ponto de assumir-se como uma ideologia. Esta situação é transversal na larga maioria dos países desenvolvidos, onde o despovoamento do meio rural é cada vez maior, concentrando-se a maior parte da população nos grandes centros urbanos. Por outro lado, assistimos à instalação de indivíduos provenientes dos meios urbanos nas comunidades rurais, porém estes “neorrurais” não têm contacto com o meio, ou melhor não dependem de atividades económicas relacionadas com o espaço, as mesmas atividades que há várias gerações vêm modelando a paisagem, apresentando um profundo desconhecimento das funcionalidades e práticas rurais. Igualmente, constatamos que o espaço comunitário do debate, antes realizado ao nível local nas tascas, tabernas, nas “lojas”, à saída das missas dominicais, transferiu-se atualmente para um nível virtual e no espaço das redes sociais, as quais transpiram de falácias e onde tudo é permitido, mesmo dizendo as maiores asneiras, sem qualquer fundamento científico ou de conhecimento do mundo real, ou porque não dizer do mundo rural. A larga maioria não pretende ouvir ou entender as práticas rurais, mas antes, alçando uma fantasiosa bandeira ecoglobal e impondo de forma invasiva as suas ideias individualistas e deturpadas, num espaço que foi criado durante gerações em comunidade.
Figura 1 - Densidade populacional (INE, 2017). Como se pode verificar, grande parte do país apresenta um território despovoado e uma maior concentração de habitantes no litoral e ao redor das áreas metropolitanas do Porto e Lisboa. 
É neste novo contexto dominado por uma sociedade mais virtual, mais conhecedora das tecnologias de informação, mas mais afastada do mundo rural que, o uso do fogo é atualmente alvo de discussões e de debate, por aqueles que não o conhecem, não o usam, nem entendem a sua ancestral prática e a sua relação com os ecossistemas.

O fogo quando não é bem conhecido não é entendido! Logo o seu uso (ainda que tradicional e uma prática milenar) se converte num crime ambiental e os seus utilizadores, aqueles que durante gerações usaram o fogo para manter a paisagem, são hoje vistos como criminosos. Confunde-se o fogo tradicional, as queimadas pastoris, as queimas de amontoados (fogueiras) com incêndios florestais. Inventam-se motivos e interrelações, exageram-se os impactes do uso tradicional do fogo, criam-se opiniões pouco fundamentadas sobre os impactes do fumo na saúde pública e inclusive no seu contributo para o aquecimento global, assim como os impactes no solo, na vegetação e na fauna silvestre. Saliento que estas práticas são cada vez mais reduzidas quando comparadas com as gerações anteriores, pois a população rural está em declínio há várias décadas e o seu território cada vez mais abandonado.

Seria interessante verificar igual nível de preocupação com o problema da extinção de incêndios de baixa intensidade (que muitas vezes poderiam acabar autoextinguindo-se), alguns de causa natural, porém o que se constata é que todo o fogo deve ser apagado!

Na visão ecourbana o chamado fogo controlado, ou melhor fogo prescrito é também assumido como um fogo proscrito.
Figura 2 - O Ciclo que conduz ao Fogo Proscrito ou Fogo Ilegal
Como técnicos de queima prescrita, devemos ficar apreensivos quanto ao futuro do uso do fogo, se o exagero vier a limitar esta técnica. Não seria obviamente a primeira vez no mundo nem um caso isolado do nosso país. Tal já aconteceu em outros países, cujos resultados da eliminação do fogo prescrito e das queimadas pastoris apenas conduziram a incêndios catastróficos, o que levou mais tarde a reverter esta proibição após comprovarem os benefícios do seu uso e os nefastos efeitos da sua ausência na conservação da natureza e nos ecossistemas dependentes do fogo e da atividade humana.

Não gosto de usar o termo fogo controlado, ainda que seja uma definição legal e com os mesmos critérios e objetivos técnicos que o termo mais indicado – Fogo Prescrito. No entanto, pode levar a interpretações erradas e a facilitismos no uso do fogo, pois este pode ser controlado ou dirigido (como designam os franceses - «brûlage dirigé») e não cumprir prescrições. O fogo prescrito ou queima prescrita segue um conjunto de critérios estabelecidos e experimentados há várias décadas com base em inúmeras investigações, procurando reduzir os impactes do fogo e contribuir para o equilíbrio dos ecossistemas. O fogo é assumido como um processo natural que frequentemente atua como uma parte integrante do ecossistema no qual ocorre. A queima prescrita procura reproduzir os efeitos do fogo natural, sob condições meteorológicas e ecológicas que permitam efeitos que reduzam os impactes e inclusive beneficiem os ecossistemas adaptados ao fogo. Esta é a base da piroecologia!
Figura 3 - Queima prescrita para proteção de povoamentos florestais e renovação de pastagens em zona com pressão pecuária. Parada - Paredes de Coura, janeiro de 2019
Como técnicos de queima prescrita, interessa-nos mais cumprir as prescrições ecológicas e meteorológicas e alcançar os objetivos sociais, económicos e de defesa da floresta contra incêndios, do que apenas controlar o fogo. Aqui reside a grande diferença, controlar o fogo ou cumprir a prescrição, pelo que, como técnicos devemos de monitorizar as nossas queimas, divulgar junto da população as condições e a prescrição, assim como os resultados.

A visão ecourbana de que o fogo deve ser erradicado da paisagem não está alinhada com as recomendações das grandes organizações ecologistas, como a WWF (World Wild Fund), a Greenpeace ou a The Nature Conservancy, onde o uso tradicional do fogo pelas populações rurais e indígenas (devidamente regulamentado) e a queima prescrita executada por técnicos, são assumidas como instrumentos fundamentais para a conservação da natureza e para a redução dos impactes dos grandes incêndios florestais.

Algumas Recomendações:

WWF recomenda:
«In fire-dependent ecosystems, the accumulation of fuel can be reduced by controlled natural and prescribed burning, thus maintaining natural ecological cycles.» Fonte: FORESTS ABLAZE. Causes and effects of global forest fires

Greenpeace recomenda:
«En las zonas de montaña y tradición ganadera, las quemas controladas y los desbroces mecánicos, pactados previamente con los sectores implicados, deben sustituir a los fuegos provocados para regenerar pastos o detener el avance del matorral.» Fonte: IncendiosForestalesPropuestas paraacabar con losincendios

« Aprender a convivir con el fuego: Revisar el modelo vigente de lucha contra los incêndios y recoger las recomendaciones de los expertos y la comunidad científica, para evolucionar hacia una mayor gestión global del combustible, potenciando la actividad silvícola, el aprovechamiento energético de la biomassa forestal, el fomento de la ganadería extensiva, las quemas controladas y la gestión de incendios de baja intensidad, como herramientas y alternativas a la hora de reducir la carga de biomasa forestal.» Fonte: El verano que no queremos que ocurra

The Nature Conservancy recomenda:
«For decades, fire suppression policies and land management practices removed nearly all fire from the landscape, preventing it from conducting its natural role in the environment. This has led to the failing health of many natural habitats and the buildup of thick brush and undergrowth that can lead to dangerous and unnaturally intense wildfires. But now, land managers are working with scientists to use prescribed fires – intentionally ignited and carefully managed– to mimic natural, low-intensity fire.   The correct use of fire can save money, protect lives and improve wildlife habitat.» Fonte: Returning Controlled Fire to the Landscape - Low-intensity prescribed fires protect lives, homes and wildlife habitat.

domingo, 3 de fevereiro de 2019

As queimas e queimadas. Serão a principal causa de incêndios florestais?

Elaborado por: Emanuel Oliveira


Existe uma percepção generalizada, principalmente de uma população cada vez mais urbana que não entende o uso tradicional e ancestral do fogo. Uma população urbana afastada geograficamente e proporcionalmente da realidade rural, dos seus modos de vida e práticas, dos seus costumes e tradições, do modo de ocupação e uso do solo e, normalmente, entende esse uso como algo prejudicial e o grande responsável pelos incêndios florestais e os seus impactos no meio ambiente. Esta visão é mais uma manifestação da cultura “ecourbana” que prolifera nos crescentes grandes centros urbanos e onde se tomam as decisões para um meio rural cada vez mais despovoado e envelhecido. Decisões estas que se tomam para e pelas populações rurais, sem estas serem ouvidas e integradas nos processos. Decisões estas que com força de lei, normalmente alteram negativamente o modo de vida rural, pois não são acompanhadas de medidas e ações práticas e materializáveis no terreno com vista a dar resposta às necessidades das populações rurais. Decisões estas que são tomadas e estabelecidas por aqueles que, na larga maioria, não vivem no meio rural, não são proprietários florestais ou agrícolas e não dependem economicamente e financeiramente de atividades desenvolvidas nesse meio.

O uso tradicional do fogo é, pois, também visto sem qualquer base sustentável como o grande mal dos incêndios florestais. É certo que face às atuais mudanças no meio rural, o envelhecimento da sua população, o despovoamento e consequentemente, o assilvestramento do território, associado a um quadro de mudanças climáticas, aumentam o risco de incêndios florestais e de incidentes, pelo que o uso do fogo implica condicionantes e respostas operacionais às necessidades da sua população. No entanto, as limitações e o forte condicionamento do uso do fogo, a “perseguição” legal para quem faz queimas de amontoados, queimas de sobrantes, ou as fogueiras de toda a vida, assim como as queimadas pastoris, podem estar a contribuir para um adiamento de um problema maior.

O uso tradicional do fogo para eliminação de combustível cortado e amontoado (restos de podas, resíduos das culturas agrícolas e florestais - queimas), bem como o uso do fogo para a renovação de pastagens (queimadas) é praticado pelas comunidades rurais há várias gerações, desde a origem do Homem. Este uso permitiu ao longo do tempo gerir a paisagem e proceder à governança do risco, de acordo com as necessidades das populações. A perda de população e o seu envelhecimento, levou a uma redução do seu papel como gestores e modeladores da paisagem. Para uma população cada vez menor e quase a desaparecer em vários pontos do país, com inúmeras condicionantes, mais limitações às práticas tradicionais apenas vão conduzir para fomentar o abandono do território e aumentar o uso ilegal do fogo e consequente incremento risco.

Afinal, são as queimas de amontoados e as queimadas as principais causas pelo elevado número de incêndios florestais e pelo aumento da área ardida em Portugal?
Gráfico 1 - Média anual da área ardida por uso tradicional do fogo entre 2001 - 2017. Fonte: ICNF


Analisando os dados do Sistema de Gestão de Informação de Incêndios Florestais (SGIF) entre o período de 2001 e 2017 e centrando-nos apenas nos registos referentes ao uso do fogo tradicional verifica-se que 10,3 % do total do número de ocorrências (mais de 420 mil ocorrências entre 2001 e 2017) estão associadas a causas como fogueiras (queimas de amontoados/queimas de sobrantes) e queimadas. O uso tradicional do fogo é responsável por 10,8 % da área total ardida em 17 anos (o que corresponde a cerca de 290 mil hectares dos mais de 2,5 milhões de hectares de área total ardida).
Se diferenciarmos as causas de uso tradicional do fogo, verifica-se que as queimas de amontoados (fogueiras) apenas representam 1,3% do total de ocorrências do período de análise, contribuindo para uma média anual de 620 hectares, o que corresponde a cerca de 0,4% do total da área ardida acumulada. Enquanto que as queimadas representam 9,0% do total de ocorrências e contribuem para uma média anual de 16 438 hectares, correspondendo a cerca de 10,4% do total da área ardida acumulada.

Se atendermos à época de maior concentração do número de ocorrências e de área ardida, coincidente com o definido Período Crítico, isto é, entre 01 de julho e 30 de setembro, verifica-se que apenas 0,8% das ocorrências tiveram origem em queimas de amontoados ou sobrantes e 3,3% do total de ocorrências tiveram origem em queimadas. Quanto ao contributo destas causas para a área ardida total verificada entre 2001 e 2017, a área ardida resultante de queimas/fogueiras foi de 0,3% e de 6,7% a área ardida resultante de queimadas durante aqueles 3 meses de verão.
Gráfico 2 - Distribuição média mensal do número de ocorrências e de área ardidas por uso tradicional do fogo entre 2001 e 2017. Fonte: ICNF

Estes dados permitem perceber que focar exclusivamente nas queimas de amontoados e sobrantes e nas queimadas, poderá subvalorizar as demais causas, tais como aquelas com origem:
  • Incendiarismo que correspondem a 7,9% do total de ocorrências e que contribuem para cerca de 24% da área ardida;
  • Reacendimentos que correspondem a 4,3% do total de ocorrências e contribuem para mais de 5% da área total ardida;
  • Acidental (rede elétrica, maquinaria, linha férrea, etc.) que correspondem a cerca de 2,1% do total de ocorrências, mas são responsáveis por cerca de 9% da área ardida total.
Legislar sobre as queimas de amontoados e sobrantes é fácil, no entanto as fogueiras de toda a vida não são efetivamente a causa principal de incêndios florestais, porém devem ser condicionadas nos períodos de maior risco e de acordo com a distância ao espaço florestal.

Quanto às queimadas, há que entender que a limitação já existe há várias décadas, no entanto as limitações, a fiscalização cada vez mais rigorosa e a falta de resposta da administração pública às necessidades das populações tem conduzido às seguintes situações:
  1. Abandono total do uso do fogo e aumento da carga de combustível;
  2. Utilização ilegal do fogo nos períodos de menor risco (outono-inverno-primavera) e não acompanhamento da queimada, deixando-a autoextinguir-se. Note-se que estas queimadas normalmente apresentam baixa severidade e o fogo tem uma intensidade baixa.
  3. Recurso ao fogo ilegal em pleno período de risco para rápidas propagações e aumento de áreas, confiando que o dispositivo de extinção responderá e controlará a propagação.
Legislar excessivamente e burocratizar o uso do fogo tradicional, sem uma resposta prática às necessidades das comunidades rurais ou afastada da realidade local, poderá levar a que o risco de incêndios seja cada vez maior.
Figura 1 - Diário de Viseu com destaque a um incidente referente a uma queima no concelho de Carregal do Sal
Por outro lado, importa perceber que a principal razão, como já foi referida é o envelhecimento da população rural, sem a esperança de sucessão para uma geração mais jovem do conhecimento, dos usos e práticas que moldaram e cuidaram da paisagem.
O número de incidentes com o uso do fogo tradicional entre 01 de janeiro de 2018 e 31 de janeiro de 2019 ( tendo unicamente por base a recolha de informação de jornais locais e nacionais) permitem comprovar que as queimas de sobrantes resultaram num total de 25 incidentes, dos quais 16 mortes, 5 feridos e 4 pequenos incêndios (fogachos), maioritariamente, cerca de 80% de indivíduos com idades superiores a 70 anos e em localidades com baixa densidade populacional e elevados índices de envelhecimento.
Figura 2 - Mapa com a localização aproximada de incidentes com queimas de amontoados. Fonte: Informação recolhida de jornais locais e nacionais; INE (Censos 2011); DGT
O futuro panorama dos territórios rurais está distante de uma recuperação, tão distante quanto as medidas para contribuir para uma mudança positiva. Na próxima década o envelhecimento da população, a reduzida taxa de natalidade, o despovoamento vão incrementar-se, logo os poucos "velhos" que hoje cuidam da paisagem já não estarão, pelo que o território estará destinado ao assilvestramento sem controlo, num quadro de mudanças climáticas para que os incêndios sejam extremamente intensos e complexos.

Os grandes incêndios florestais não se resolvem apenas com legislação com atuação à microescala, à escala do cidadão, quer na limitação do uso do fogo tradicional quer nas medidas de autodefesa (as faixas de gestão de combustível ao redor dos edifícios).

quarta-feira, 29 de agosto de 2018

Curso Técnico Superior Profissional em Riscos e Proteção Civil

A Escola Superior Agrária do Instituto Politécnico de Viana do Castelo (ESA-IPVC) vai abrir no ano letivo 2018/2019 a segunda edição do Curso Técnico Superior Profissional em Riscos e Proteção Civil que visa dotar os Técnicos Superiores de competências gerais para i) a avaliação e gestão de riscos naturais e tecnológicos; e ii) a intervenção em situações de crise, emergência e segurança pública.

As competências específicas a adquirir no âmbito da avaliação de riscos naturais e tecnológicos, do planeamento de emergência, proteção civil e segurança pública são assegurados por metodologias de ensino eminentemente práticas e de aplicação em contexto de trabalho de acordo com o plano de estudos (em Anexo), um corpo docente academicamente qualificado que inclui profissionais experientes em diversas áreas dos riscos e proteção civil, e pelo alargado leque de parcerias com entidades de relevância regional e nacional nestes domínios, permitem uma formação de natureza profissionalizante numa área de trabalho com interesse e saídas profissionais crescentes, destacando-se:

  • Agentes de proteção civil (ANPC, PSP, GNR_SEPNA, Cruz Vermelha, ONG, IPSS); 
  • Departamentos de segurança de empresas privadas; 
  • Forças e agências de segurança, 
  • Companhias de seguros ambientais (peritos de avaliação de danos, valoração de prémios), 
  • Associações florestais (sapadores florestais), 
  • Empresas de projeto e desenvolvimento, produção e comercialização de equipamentos de segurança (indústria e comércio de produtos de segurança),
  • Serviços do estado (administração central e local, ANPC/CDOS e organismos públicos de investigação criminal), Autarquias e gabinetes/serviços municipais de proteção civil, ao nível local, regional e nacional,
  • Associações humanitárias de bombeiros/corpos de bombeiros profissionais e voluntários, 
  • Empresas que operem nas áreas da proteção civil (produção e comercialização de equipamentos e soluções tecnológicas) e Empresas que operem na área da higiene e segurança no trabalho (elaboração de medidas de autoproteção paraempresas/entidades),
  • Técnicos de proteção civil em agências e missões internacionais e 
  • Gabinetes de planeamento e gestão territorial (atividade no domínio do planeamento e ordenamento territorial, nas vertentes de prevenção de riscos e planos de emergência, planos distritais, planos municipais de emergência e proteção civil, planos externos deemergência, plano de ordenamento da orla costeira, entre outros). 

Este Curso Superior permite a inserção de jovens e a requalificação profissional de ativos e ainda, o ingresso dos diplomados nas licenciaturas do IPVC com dispensa de prova de ingresso sob um regime de equivalências de Unidades Curriculares previamente estabelecidos.

Para mais informação:

http://www.ipvc.pt/ctespcandidaturas