FOGOS FLORESTAIS

UMA ABORDAGEM OPERACIONAL, TÉCNICA E POLÍTICA

O FOGO

UM BOM CRIADO, UM MAU PATRÃO

FOGO CONTROLADO

UMA FERRAMENTA ESSENCIAL NA PREVENÇÃO DE INCÊNDIOS FLORESTAIS

INCÊNDIOS FLORESTAIS

NÃO SE PODE PROTEGER ALGO QUE NÃO SE VALORIZA

FORMAÇÃO E PROFISSIONALISMO

É ESSENCIAL TRABALHAR COM O FOGO PARA ENTENDER O SEU COMPORTAMENTO NO COMBATE

sábado, 16 de fevereiro de 2019

A prescrição no uso do fogo

Por: Emanuel Oliveira

A prescrição no uso do fogo é como a prescrição médica. Fazendo a analogia entre ambas, o técnico à semelhança do médico, de acordo com as condições do paciente, neste caso a paisagem, observa e analisa um conjunto de sintomas apresentados pelo paciente/paisagem o qual se traduzirá num diagnóstico. Depois da fase de diagnóstico é prescrito um tratamento onde se detalha num documento oficial – o Plano de Fogo Controlado (a nossa “receita médica”) - a forma como deve ser aplicado, ou seja, as condições, as “doses” e o período do nosso tratamento. Dado o estado de vulnerabilidade do nosso paciente – a paisagem – poderá ser aplicado um tratamento preventivo, afim de aumentar a resiliência da paisagem e reduzir a perturbação provocada por um potencial incêndio.

O fogo prescrito, sendo um fogo que procura reproduzir um fogo de origem natural, funciona como uma vacina para uma paisagem com um sistema imunitário cada mais debilitado (pelo despovoamento, pelo envelhecimento da população, pela perda de usos do solo), com elevada carga de combustível disponível e vulnerável no quadro das mudanças climáticas. Obviamente que existem outros tratamentos, tais como a roça de matos, seja ela moto-manual ou mecânica, ou mesmo tratamentos mais invasivos como os químicos. Eu prefiro, um programa de “vacinação” dada a sua eficácia e eficiência, porém dependendo das condições do nosso “paciente”.  Entenda-se por isso que o Programa Nacional de Fogo Controlado promovido pelo Estado Português, através do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas é um importante programa nacional de vacinação para as nossas paisagens.
Figura 1 - The Grass Fire, Frederic Remington 1908, Amon Carter Museum, Fort Worth, Texas
Ainda que de forma empírica e muito antes de existirem os “médicos” de hoje, durante várias gerações, o Homem observando o efeito do fogo natural, apercebeu-se da importância do seu uso no tratamento da paisagem e como “curandeiros” foram cuidando desta ao longo dos séculos. É notável, ver o tratamento comum dos “curandeiros” dispersos pelo globo, nas comunidades rurais do velho continente (os nossos pastores) e nas populações indígenas de África, América do Norte, América do Sul ou Austrália, atribuindo a “mezinha” do fogo para as diversas maleitas.

Então, qual a prescrição mais adequada para o uso do fogo no tratamento das nossas paisagens?

Cada caso é um caso! Não podemos fazer prescrições transversais em paisagens diversificadas ou em subunidades paisagísticas ou igual para todos os ecossistemas e biomas. Antes de usar o fogo, temos que responder previamente a algumas questões:

  • Porque vamos usar o fogo num determinado espaço? Para quê? Para quem?
  • Quando vamos usar o fogo?
  • Como vamos usar o fogo?
  • O que esperar após o fogo?

Existe alguma confusão quanto à prescrição. É comum sobrevalorizar a prescrição meteorológica a qual permite manter o fogo sob determinadas condições de controlo e apoiada em recursos humanos e meios – isto é, mais fogo controlado do que fogo prescrito! Como já referi no artigo anterior, não simpatizo com o conceito de fogo controlado quando se trata de fogo prescrito, pelas razões já enfatizadas.
Figura 2 - As condições de prescrição a observar no uso do fogo prescrito
O fogo prescrito vai muito mais além da prescrição meteorológica, pois deve considerar outras condições de prescrição:

Prescrição Ecológica – considerando os ecossistemas e sua recuperação pós-fogo, de acordo com o estado fenológico dos complexos de combustível. Igualmente, devem ser consideradas as condições edafológicas, pois o solo é o suporte de vida dos ecossistemas.

Prescrição Socioeconómica – considerando as necessidades das populações locais, tais como renovação de pastagens ou a cinegética. No caso da renovação das pastagens, a queima deve ter em conta o tipo de gado a as formações vegetais que constituem o alimento deste, pois a técnica, o consumo pelo fogo e estação do ano são importantes para obter os melhores resultados de acordo com as necessidade de cada espécie pecuária (bovinos, ovinos, caprinos e equinos) ou cinegética (coelhos, perdizes, corços, etc.).

Prescrição Técnica – a técnica e método de ignição e condução da queima são essenciais no alcance dos objetivos, procurando reduzir os impactes do fogo no solo e a redução da carga de combustível. Por exemplo, em solos mais pobres e esqueléticos, devemos optar por um fogo rápido, isto é, com um menor tempo de residência, ainda que aparentemente se manifeste como um fogo de alta intensidade, porém o impacte no solo é baixo. Por outro lado, no caso de proteção de zonas de interface ou de outros objetivos de defesa da floresta contra incêndios, é preferível uma efetiva redução da carga de combustível, pelo que o fogo deverá cumprir um objetivo de elevado consumo nas formações vegetais, logo mais tempo de residência.
Figura 3 - Apesar da aparente intensidade do fogo, o curto tempo de residência permite um baixo impacte no suporte dos ecossistemas - o solo
Prescrição Sanitária – bastante comum em países a sul do Equador, onde a queima pode ter um objetivo de controlo de pragas e doenças derivadas, no que respeita à saúde pública e à sanidade animal na produção pecuária, tais como o controlo de carraças (carrapatos). Igualmente, a queima pode ser um recurso eficaz na higienização de pastos para a atividade pecuária e cinegética (em Portugal está pouco estudado o impacto do fogo prescrito no controlo da febre hemorrágica dos coelhos bravos).

Prescrição Estacional – a prescrição estacional está relacionada com a prescrição, socioeconómica e sanitária, pois a época em que usamos o fogo determinará os resultados pretendidos.

Quanto à Prescrição Meteorológica esta é importante para estimar a disponibilidade dos combustíveis em relação ao fogo, para reduzir os impactes, para o controlo da propagação, redução de riscos de piroescape, segurança e para os trabalhos de consolidação da queima.
Figura 4 - O fogo quando é mal entendido é visto como o fim da vida, no entanto a Natureza insiste em mostrar-nos a sua necessidade.
É dever técnico procurar cumprir estas condições de prescrição de acordo com a análise, avaliação e diagnóstico da área onde se pretende proceder a um tratamento com fogo. A par deste trabalho interno, é importante divulgar os objetivos para que a sociedade em geral entenda o seu uso e não se inventem mitos sem qualquer fundamentação. Igualmente, importa registar as condições em que executamos o tratamento, tal como um médico regista no historial do seu paciente. 
O fogo antes de ser entendido pelo comum cidadão, deve ser bem entendido por todos nós, técnicos que usamos o fogo prescrito!

domingo, 10 de fevereiro de 2019

Fogo Prescrito ou Fogo Proscrito

Elaborado por: Emanuel Oliveira

Ultimamente, temos vindo a assistir a várias manifestações fundamentalistas de uma emergente cultura ecourbana cada vez mais presente, inclusive nas decisões políticas, ao ponto de assumir-se como uma ideologia. Esta situação é transversal na larga maioria dos países desenvolvidos, onde o despovoamento do meio rural é cada vez maior, concentrando-se a maior parte da população nos grandes centros urbanos. Por outro lado, assistimos à instalação de indivíduos provenientes dos meios urbanos nas comunidades rurais, porém estes “neorrurais” não têm contacto com o meio, ou melhor não dependem de atividades económicas relacionadas com o espaço, as mesmas atividades que há várias gerações vêm modelando a paisagem, apresentando um profundo desconhecimento das funcionalidades e práticas rurais. Igualmente, constatamos que o espaço comunitário do debate, antes realizado ao nível local nas tascas, tabernas, nas “lojas”, à saída das missas dominicais, transferiu-se atualmente para um nível virtual e no espaço das redes sociais, as quais transpiram de falácias e onde tudo é permitido, mesmo dizendo as maiores asneiras, sem qualquer fundamento científico ou de conhecimento do mundo real, ou porque não dizer do mundo rural. A larga maioria não pretende ouvir ou entender as práticas rurais, mas antes, alçando uma fantasiosa bandeira ecoglobal e impondo de forma invasiva as suas ideias individualistas e deturpadas, num espaço que foi criado durante gerações em comunidade.
Figura 1 - Densidade populacional (INE, 2017). Como se pode verificar, grande parte do país apresenta um território despovoado e uma maior concentração de habitantes no litoral e ao redor das áreas metropolitanas do Porto e Lisboa. 
É neste novo contexto dominado por uma sociedade mais virtual, mais conhecedora das tecnologias de informação, mas mais afastada do mundo rural que, o uso do fogo é atualmente alvo de discussões e de debate, por aqueles que não o conhecem, não o usam, nem entendem a sua ancestral prática e a sua relação com os ecossistemas.

O fogo quando não é bem conhecido não é entendido! Logo o seu uso (ainda que tradicional e uma prática milenar) se converte num crime ambiental e os seus utilizadores, aqueles que durante gerações usaram o fogo para manter a paisagem, são hoje vistos como criminosos. Confunde-se o fogo tradicional, as queimadas pastoris, as queimas de amontoados (fogueiras) com incêndios florestais. Inventam-se motivos e interrelações, exageram-se os impactes do uso tradicional do fogo, criam-se opiniões pouco fundamentadas sobre os impactes do fumo na saúde pública e inclusive no seu contributo para o aquecimento global, assim como os impactes no solo, na vegetação e na fauna silvestre. Saliento que estas práticas são cada vez mais reduzidas quando comparadas com as gerações anteriores, pois a população rural está em declínio há várias décadas e o seu território cada vez mais abandonado.

Seria interessante verificar igual nível de preocupação com o problema da extinção de incêndios de baixa intensidade (que muitas vezes poderiam acabar autoextinguindo-se), alguns de causa natural, porém o que se constata é que todo o fogo deve ser apagado!

Na visão ecourbana o chamado fogo controlado, ou melhor fogo prescrito é também assumido como um fogo proscrito.
Figura 2 - O Ciclo que conduz ao Fogo Proscrito ou Fogo Ilegal
Como técnicos de queima prescrita, devemos ficar apreensivos quanto ao futuro do uso do fogo, se o exagero vier a limitar esta técnica. Não seria obviamente a primeira vez no mundo nem um caso isolado do nosso país. Tal já aconteceu em outros países, cujos resultados da eliminação do fogo prescrito e das queimadas pastoris apenas conduziram a incêndios catastróficos, o que levou mais tarde a reverter esta proibição após comprovarem os benefícios do seu uso e os nefastos efeitos da sua ausência na conservação da natureza e nos ecossistemas dependentes do fogo e da atividade humana.

Não gosto de usar o termo fogo controlado, ainda que seja uma definição legal e com os mesmos critérios e objetivos técnicos que o termo mais indicado – Fogo Prescrito. No entanto, pode levar a interpretações erradas e a facilitismos no uso do fogo, pois este pode ser controlado ou dirigido (como designam os franceses - «brûlage dirigé») e não cumprir prescrições. O fogo prescrito ou queima prescrita segue um conjunto de critérios estabelecidos e experimentados há várias décadas com base em inúmeras investigações, procurando reduzir os impactes do fogo e contribuir para o equilíbrio dos ecossistemas. O fogo é assumido como um processo natural que frequentemente atua como uma parte integrante do ecossistema no qual ocorre. A queima prescrita procura reproduzir os efeitos do fogo natural, sob condições meteorológicas e ecológicas que permitam efeitos que reduzam os impactes e inclusive beneficiem os ecossistemas adaptados ao fogo. Esta é a base da piroecologia!
Figura 3 - Queima prescrita para proteção de povoamentos florestais e renovação de pastagens em zona com pressão pecuária. Parada - Paredes de Coura, janeiro de 2019
Como técnicos de queima prescrita, interessa-nos mais cumprir as prescrições ecológicas e meteorológicas e alcançar os objetivos sociais, económicos e de defesa da floresta contra incêndios, do que apenas controlar o fogo. Aqui reside a grande diferença, controlar o fogo ou cumprir a prescrição, pelo que, como técnicos devemos de monitorizar as nossas queimas, divulgar junto da população as condições e a prescrição, assim como os resultados.

A visão ecourbana de que o fogo deve ser erradicado da paisagem não está alinhada com as recomendações das grandes organizações ecologistas, como a WWF (World Wild Fund), a Greenpeace ou a The Nature Conservancy, onde o uso tradicional do fogo pelas populações rurais e indígenas (devidamente regulamentado) e a queima prescrita executada por técnicos, são assumidas como instrumentos fundamentais para a conservação da natureza e para a redução dos impactes dos grandes incêndios florestais.

Algumas Recomendações:

WWF recomenda:
«In fire-dependent ecosystems, the accumulation of fuel can be reduced by controlled natural and prescribed burning, thus maintaining natural ecological cycles.» Fonte: FORESTS ABLAZE. Causes and effects of global forest fires

Greenpeace recomenda:
«En las zonas de montaña y tradición ganadera, las quemas controladas y los desbroces mecánicos, pactados previamente con los sectores implicados, deben sustituir a los fuegos provocados para regenerar pastos o detener el avance del matorral.» Fonte: IncendiosForestalesPropuestas paraacabar con losincendios

« Aprender a convivir con el fuego: Revisar el modelo vigente de lucha contra los incêndios y recoger las recomendaciones de los expertos y la comunidad científica, para evolucionar hacia una mayor gestión global del combustible, potenciando la actividad silvícola, el aprovechamiento energético de la biomassa forestal, el fomento de la ganadería extensiva, las quemas controladas y la gestión de incendios de baja intensidad, como herramientas y alternativas a la hora de reducir la carga de biomasa forestal.» Fonte: El verano que no queremos que ocurra

The Nature Conservancy recomenda:
«For decades, fire suppression policies and land management practices removed nearly all fire from the landscape, preventing it from conducting its natural role in the environment. This has led to the failing health of many natural habitats and the buildup of thick brush and undergrowth that can lead to dangerous and unnaturally intense wildfires. But now, land managers are working with scientists to use prescribed fires – intentionally ignited and carefully managed– to mimic natural, low-intensity fire.   The correct use of fire can save money, protect lives and improve wildlife habitat.» Fonte: Returning Controlled Fire to the Landscape - Low-intensity prescribed fires protect lives, homes and wildlife habitat.

domingo, 3 de fevereiro de 2019

As queimas e queimadas. Serão a principal causa de incêndios florestais?

Elaborado por: Emanuel Oliveira


Existe uma percepção generalizada, principalmente de uma população cada vez mais urbana que não entende o uso tradicional e ancestral do fogo. Uma população urbana afastada geograficamente e proporcionalmente da realidade rural, dos seus modos de vida e práticas, dos seus costumes e tradições, do modo de ocupação e uso do solo e, normalmente, entende esse uso como algo prejudicial e o grande responsável pelos incêndios florestais e os seus impactos no meio ambiente. Esta visão é mais uma manifestação da cultura “ecourbana” que prolifera nos crescentes grandes centros urbanos e onde se tomam as decisões para um meio rural cada vez mais despovoado e envelhecido. Decisões estas que se tomam para e pelas populações rurais, sem estas serem ouvidas e integradas nos processos. Decisões estas que com força de lei, normalmente alteram negativamente o modo de vida rural, pois não são acompanhadas de medidas e ações práticas e materializáveis no terreno com vista a dar resposta às necessidades das populações rurais. Decisões estas que são tomadas e estabelecidas por aqueles que, na larga maioria, não vivem no meio rural, não são proprietários florestais ou agrícolas e não dependem economicamente e financeiramente de atividades desenvolvidas nesse meio.

O uso tradicional do fogo é, pois, também visto sem qualquer base sustentável como o grande mal dos incêndios florestais. É certo que face às atuais mudanças no meio rural, o envelhecimento da sua população, o despovoamento e consequentemente, o assilvestramento do território, associado a um quadro de mudanças climáticas, aumentam o risco de incêndios florestais e de incidentes, pelo que o uso do fogo implica condicionantes e respostas operacionais às necessidades da sua população. No entanto, as limitações e o forte condicionamento do uso do fogo, a “perseguição” legal para quem faz queimas de amontoados, queimas de sobrantes, ou as fogueiras de toda a vida, assim como as queimadas pastoris, podem estar a contribuir para um adiamento de um problema maior.

O uso tradicional do fogo para eliminação de combustível cortado e amontoado (restos de podas, resíduos das culturas agrícolas e florestais - queimas), bem como o uso do fogo para a renovação de pastagens (queimadas) é praticado pelas comunidades rurais há várias gerações, desde a origem do Homem. Este uso permitiu ao longo do tempo gerir a paisagem e proceder à governança do risco, de acordo com as necessidades das populações. A perda de população e o seu envelhecimento, levou a uma redução do seu papel como gestores e modeladores da paisagem. Para uma população cada vez menor e quase a desaparecer em vários pontos do país, com inúmeras condicionantes, mais limitações às práticas tradicionais apenas vão conduzir para fomentar o abandono do território e aumentar o uso ilegal do fogo e consequente incremento risco.

Afinal, são as queimas de amontoados e as queimadas as principais causas pelo elevado número de incêndios florestais e pelo aumento da área ardida em Portugal?
Gráfico 1 - Média anual da área ardida por uso tradicional do fogo entre 2001 - 2017. Fonte: ICNF


Analisando os dados do Sistema de Gestão de Informação de Incêndios Florestais (SGIF) entre o período de 2001 e 2017 e centrando-nos apenas nos registos referentes ao uso do fogo tradicional verifica-se que 10,3 % do total do número de ocorrências (mais de 420 mil ocorrências entre 2001 e 2017) estão associadas a causas como fogueiras (queimas de amontoados/queimas de sobrantes) e queimadas. O uso tradicional do fogo é responsável por 10,8 % da área total ardida em 17 anos (o que corresponde a cerca de 290 mil hectares dos mais de 2,5 milhões de hectares de área total ardida).
Se diferenciarmos as causas de uso tradicional do fogo, verifica-se que as queimas de amontoados (fogueiras) apenas representam 1,3% do total de ocorrências do período de análise, contribuindo para uma média anual de 620 hectares, o que corresponde a cerca de 0,4% do total da área ardida acumulada. Enquanto que as queimadas representam 9,0% do total de ocorrências e contribuem para uma média anual de 16 438 hectares, correspondendo a cerca de 10,4% do total da área ardida acumulada.

Se atendermos à época de maior concentração do número de ocorrências e de área ardida, coincidente com o definido Período Crítico, isto é, entre 01 de julho e 30 de setembro, verifica-se que apenas 0,8% das ocorrências tiveram origem em queimas de amontoados ou sobrantes e 3,3% do total de ocorrências tiveram origem em queimadas. Quanto ao contributo destas causas para a área ardida total verificada entre 2001 e 2017, a área ardida resultante de queimas/fogueiras foi de 0,3% e de 6,7% a área ardida resultante de queimadas durante aqueles 3 meses de verão.
Gráfico 2 - Distribuição média mensal do número de ocorrências e de área ardidas por uso tradicional do fogo entre 2001 e 2017. Fonte: ICNF

Estes dados permitem perceber que focar exclusivamente nas queimas de amontoados e sobrantes e nas queimadas, poderá subvalorizar as demais causas, tais como aquelas com origem:
  • Incendiarismo que correspondem a 7,9% do total de ocorrências e que contribuem para cerca de 24% da área ardida;
  • Reacendimentos que correspondem a 4,3% do total de ocorrências e contribuem para mais de 5% da área total ardida;
  • Acidental (rede elétrica, maquinaria, linha férrea, etc.) que correspondem a cerca de 2,1% do total de ocorrências, mas são responsáveis por cerca de 9% da área ardida total.
Legislar sobre as queimas de amontoados e sobrantes é fácil, no entanto as fogueiras de toda a vida não são efetivamente a causa principal de incêndios florestais, porém devem ser condicionadas nos períodos de maior risco e de acordo com a distância ao espaço florestal.

Quanto às queimadas, há que entender que a limitação já existe há várias décadas, no entanto as limitações, a fiscalização cada vez mais rigorosa e a falta de resposta da administração pública às necessidades das populações tem conduzido às seguintes situações:
  1. Abandono total do uso do fogo e aumento da carga de combustível;
  2. Utilização ilegal do fogo nos períodos de menor risco (outono-inverno-primavera) e não acompanhamento da queimada, deixando-a autoextinguir-se. Note-se que estas queimadas normalmente apresentam baixa severidade e o fogo tem uma intensidade baixa.
  3. Recurso ao fogo ilegal em pleno período de risco para rápidas propagações e aumento de áreas, confiando que o dispositivo de extinção responderá e controlará a propagação.
Legislar excessivamente e burocratizar o uso do fogo tradicional, sem uma resposta prática às necessidades das comunidades rurais ou afastada da realidade local, poderá levar a que o risco de incêndios seja cada vez maior.
Figura 1 - Diário de Viseu com destaque a um incidente referente a uma queima no concelho de Carregal do Sal
Por outro lado, importa perceber que a principal razão, como já foi referida é o envelhecimento da população rural, sem a esperança de sucessão para uma geração mais jovem do conhecimento, dos usos e práticas que moldaram e cuidaram da paisagem.
O número de incidentes com o uso do fogo tradicional entre 01 de janeiro de 2018 e 31 de janeiro de 2019 ( tendo unicamente por base a recolha de informação de jornais locais e nacionais) permitem comprovar que as queimas de sobrantes resultaram num total de 25 incidentes, dos quais 16 mortes, 5 feridos e 4 pequenos incêndios (fogachos), maioritariamente, cerca de 80% de indivíduos com idades superiores a 70 anos e em localidades com baixa densidade populacional e elevados índices de envelhecimento.
Figura 2 - Mapa com a localização aproximada de incidentes com queimas de amontoados. Fonte: Informação recolhida de jornais locais e nacionais; INE (Censos 2011); DGT
O futuro panorama dos territórios rurais está distante de uma recuperação, tão distante quanto as medidas para contribuir para uma mudança positiva. Na próxima década o envelhecimento da população, a reduzida taxa de natalidade, o despovoamento vão incrementar-se, logo os poucos "velhos" que hoje cuidam da paisagem já não estarão, pelo que o território estará destinado ao assilvestramento sem controlo, num quadro de mudanças climáticas para que os incêndios sejam extremamente intensos e complexos.

Os grandes incêndios florestais não se resolvem apenas com legislação com atuação à microescala, à escala do cidadão, quer na limitação do uso do fogo tradicional quer nas medidas de autodefesa (as faixas de gestão de combustível ao redor dos edifícios).

quarta-feira, 29 de agosto de 2018

Curso Técnico Superior Profissional em Riscos e Proteção Civil

A Escola Superior Agrária do Instituto Politécnico de Viana do Castelo (ESA-IPVC) vai abrir no ano letivo 2018/2019 a segunda edição do Curso Técnico Superior Profissional em Riscos e Proteção Civil que visa dotar os Técnicos Superiores de competências gerais para i) a avaliação e gestão de riscos naturais e tecnológicos; e ii) a intervenção em situações de crise, emergência e segurança pública.

As competências específicas a adquirir no âmbito da avaliação de riscos naturais e tecnológicos, do planeamento de emergência, proteção civil e segurança pública são assegurados por metodologias de ensino eminentemente práticas e de aplicação em contexto de trabalho de acordo com o plano de estudos (em Anexo), um corpo docente academicamente qualificado que inclui profissionais experientes em diversas áreas dos riscos e proteção civil, e pelo alargado leque de parcerias com entidades de relevância regional e nacional nestes domínios, permitem uma formação de natureza profissionalizante numa área de trabalho com interesse e saídas profissionais crescentes, destacando-se:

  • Agentes de proteção civil (ANPC, PSP, GNR_SEPNA, Cruz Vermelha, ONG, IPSS); 
  • Departamentos de segurança de empresas privadas; 
  • Forças e agências de segurança, 
  • Companhias de seguros ambientais (peritos de avaliação de danos, valoração de prémios), 
  • Associações florestais (sapadores florestais), 
  • Empresas de projeto e desenvolvimento, produção e comercialização de equipamentos de segurança (indústria e comércio de produtos de segurança),
  • Serviços do estado (administração central e local, ANPC/CDOS e organismos públicos de investigação criminal), Autarquias e gabinetes/serviços municipais de proteção civil, ao nível local, regional e nacional,
  • Associações humanitárias de bombeiros/corpos de bombeiros profissionais e voluntários, 
  • Empresas que operem nas áreas da proteção civil (produção e comercialização de equipamentos e soluções tecnológicas) e Empresas que operem na área da higiene e segurança no trabalho (elaboração de medidas de autoproteção paraempresas/entidades),
  • Técnicos de proteção civil em agências e missões internacionais e 
  • Gabinetes de planeamento e gestão territorial (atividade no domínio do planeamento e ordenamento territorial, nas vertentes de prevenção de riscos e planos de emergência, planos distritais, planos municipais de emergência e proteção civil, planos externos deemergência, plano de ordenamento da orla costeira, entre outros). 

Este Curso Superior permite a inserção de jovens e a requalificação profissional de ativos e ainda, o ingresso dos diplomados nas licenciaturas do IPVC com dispensa de prova de ingresso sob um regime de equivalências de Unidades Curriculares previamente estabelecidos.

Para mais informação:

http://www.ipvc.pt/ctespcandidaturas

segunda-feira, 30 de julho de 2018

Vem aí a Primeira Onda de Calor de 2018

Elaborado por: Emanuel Oliveira

Nas últimas semanas vimos como o Norte da Europa atingia valores extremos, com temperaturas muito acima do normal para aquelas latitudes tão afastadas do Equador e tão próximas ao Ártico.

No dia 21 de julho a agência aeroespacial americana NASA publicava um artigo fazendo referência ao recorde de temperaturas registadas nos países do Círculo Polar Ártico, destacando-se 14 localidades da Noruega e do Norte da Finlândia com temperaturas de 33 ºC no dia 18 de julho. Devido às condições quentes e secas o risco de incêndio naqueles países aumentou drasticamente e atipicamente. Segundo o Serviço de Gestão de Emergências Copernycus, no dia 20 de julho a Suécia já registava mais de 10 mil hectares de área ardida, 24 vezes superior à área ardida acumulada entre 2008 e 2017.
Imagem 1 - Anomalia da Temperatura  na Superfície Terrestre. Fonte: NASA
Tal como nestes países, em outras regiões do globo, os termómetros dispararam, tais como o Canadá e na Sibéria onde a temperatura atingiu 8 ºC acima do normal da verificada em anteriores.
No dia 20 de julho a agência meteorológica europeia publicava no seu Twitter um mapa com a identificação de anomalias meteorológicas (Extreme Forecast Index - EFI) registadas entre 1 de junho e 18 de julho de 2018, onde se destaca as temperaturas excessivamente elevadas nos países escandinavos e no Reino Unido, Irlanda e França. Pelo contrário, os países ibéricos registavam temperaturas muito baixas para a época, principalmente no sul da Península.
Imagem 2 - Anomalias meteorológicas extremas (EFI). Fonte: ECMWF
No Japão, a cidade de Kumagaya, a norte de Tóquio atingiu no passado dia 23 de julho 41,1 ºC, a temperatura mais alta registada naquele país, derivado de um sistema anticiclónico persistente que dura há mais de 8 dias e, cujas temperaturas têm sido a causa de mais de 40 mortes e afetando milhares de pessoas que foram hospitalizadas com sintomas de insolação.

Segundo a NASA e a Agência Espacial Europeia estas ondas de calor desencadearam diversos grandes incêndios florestais nas regiões remotas do círculo polar ártico com consequências alarmantes. Segundo o meteorologista norte-americano Nicholas Humphrey em entrevista ao jornal espanhol El País, estes grandes incêndios provocaram o degelo no mar Laptev e do permafrost, o que levará a um incremento da libertação de CO2 para atmosfera.

Como pude afirmar na rede social Facebook no dia 22 de julho: «Não pensem que estas temperaturas tão elevadas nos países do círculo polar ártico não vão trazer consequências ao resto do mundo. É o "Efeito Borboleta" onde no planeta ninguém escapa!». Há uma semana que andamos a acompanhar a evolução sinóptica, no entanto sabemos que a dinâmica atmosférica que caracteriza o nosso país deixa-nos muitas vezes na incerteza das previsões.

Contudo, os vários modelos meteorológicos começam a ter cada vez mais uma maior solidez face à aproximação dos eventos atmosféricos previstos há 8 dias atrás, o que apontam para uma mudança repentina no verão que estavamos até agora a viver. Todos os modelos (o que é muitas vezes raro) coincidem para um aumento das temperaturas máximas e mínimas nos próximos dias, a partir do dia 1 de agosto, para todo o território ibérico, podendo-se prolongar por vários dias. O território será afetado por uma intensa advecção de sul, entrando ar muito quente e seco do Norte de África.
Imagem 3 - Carta de 850 hPa dos Modelos ARPEGE, ECMWF, GFS, GEM e JMA para o dia 01 de agosto, coincidindo com a entrada de ar quente sobre o território, cujas temperaturas a cerca de 1450 metros de altura (atmosfera) serão próximas a 30 ºC, o que siginifica que a temperatura à superfície será muito mais elevada, podendo ultrapassar os 45 ºC em algumas regiões da Península.
Muitas zonas da Península Ibérica, principalmente a Sul do Tejo, poderão registar temperaturas máximas superiores a 40 ºC e temperaturas mínimas entre 20 e 25 ºC, por outro lado teremos uma quebra acentuada da humidade relativa do ar para valores que rondarão no dia 2 de agosto 10% em grande parte do território nacional. Ao nível de incêndios, dadas as condições de humidade relativa e temperatura, o vento na região do Algarve apresentará valores superiores a 30 kph, podendo incrementar o risco de incêndios nesta região do país que se encontra dentro do potencial de retorno de grandes incêndios florestais.
Imagem 4 - Temperatura prevista para 2 de agosto segundo os principais modelos meteorológicos.
Imagem 5 - O Modelo ARPEGE descreve-nos para o dia 2 de agosto de 2018 uma quebra na HR para valores inferiores a 10% às 15 horas e ventos intensos na região do Algarve, podendo ultrapassar os 30 kph.
Com certeza, será a primeira onda de calor de 2018 a afetar grande parte do país, o que ainda não sabemos com total certeza neste momento é a sua duração. O modelo GFS aponta para um prolongamento da situação extrema até ao dia 7 de julho. O modelo ECMWF indica temperaturas a 850 hPa que podem ser superiores em 12 ºC no Noroeste Peninsular, o que na superfície terá os seus duros efeitos.
Imagem 6 - Evolução da temperatura a 850 hPa nos próximos dias. Modelo GFS
Imagem 7- Evolução da temperatura anómala a 850 hPa nos próximos dias. Modelo ECMWF HRES 0.1º
Não nos podemos esquecer, que apesar deste verão em Portugal, ser mais frio e mais húmido, na realidade não existiram precipitações significativas. Esta condição anómala, deveu-se sobretudo à deslocalização do anticiclone dos Açores para fora da sua região habitual neste período, permitindo a entrada de ar frio nas camadas altas da atmosfera e interferência das baixas pressões sobre o território, com particular incidência nas regiões do litoral e no Norte do país.
Imagem 8 - Gráfico dos dados de precipitação registados diariamente entre o dia 30 de junho e o 30 de julho na Estação Meteorológica do Monte Aloia - Tui (Galiza). Fonte: MeteoGalicia.
Note-se, em 30 dias a precipitação acumulada foi de 36 mm e os últimos dias registaram valores inferiores a 1 mm, tendo passados 24 dias desde a última precipitação.
Sendo assim, ainda que se registe nos primeiros dias de agosto um tempo mais seco e temperaturas extremas, os seus efeitos ao nível dos incêndios florestais, serão mais determinantes na generalidade do território nacional após alguns dias, caso a situação se mantenha ou não se registe precipitação (tal como se prevê e caso ocorra, poderá ser associada a episódios de trovoada). Isto significa que os primeiros dias serão para "preparar" os combustíveis de 1h, 10h e 100 h que ficarão muito mais suscetíveis ao fogo.

Saliento ainda que os combustíveis finos que predominam nas faixas de gestão de combustível executadas entre março e maio, serão os que se encontrarão mais disponíveis ao fogo, incrementando-se precisamente nessas zonas (junto à rede viária, aglomerados e edificações) o risco de ignição. Obviamente, face a estas condições para os próximos dias, o nível operacional de Alerta deverá elevar-se, não só pelo risco de incêndio mas também pela onda de calor que afectará a saúde pública na população mais vulnerável (crianças e idosos).

domingo, 18 de março de 2018

Um Reflexão sobre os Analistas de Incêndios Florestais

Elaborado por: Emanuel Oliveira

Os Grandes Incêndios Florestais (GIF’s) que afetaram em 2017 uma grande parte do território nacional, queimando cerca de 500 mil hectares, colocaram a nu o colapso de um sistema de extinção que se baseia quase exclusivamente na soma de meios e na baixa eficiência e onde a prevenção operacional (não confundir com estrutural) falhou rotundamente.
Foto 1 - Elemento do GAUF. Foto: E. Oliveira, 2010
O fatídico GIF de Pedrógão Grande e de Góis, dada a gravidade pela morte de civis levou à constituição da Comissão Técnica Independente. Sou obrigado a relembrar que as mortes por incêndios florestais não são um caso circunscrito a 2017, infelizmente tem sido recorrente, tal como os GIF’s e, envolvendo principalmente operacionais em combate. Sem querer reduzir a importância das diversas e essenciais recomendações da CTI, centremo-nos naquela que está relacionada com os analistas:

«As previsões meteorológicas a curto e médio prazo são bastante fiáveis, permitindo uma elevada antecipação da sua influência no comportamento do fogo. Os sistemas de informação geográfica e as facilidades de caraterização da ocupação do solo e de caraterização de risco estrutural permitem compreender e antecipar rapidamente a influência da orografia e dos combustíveis no comportamento do fogo. Existe tecnologia (de simulação espacial do fogo) que pode contribuir para aferir e predizer o comportamento do fogo e a propagação dos incêndios.

Adaptar a organização do Sistema e as intervenções às condições previstas e ao comportamento esperado do fogo, garantindo que:

O Sistema deverá ter a contribuição de colaboradores internos e/ou externos capazes de analisar as previsões e as condições presentes e futuras com influência na probabilidade e no comportamento do fogo;» Fonte: Relatório do Incêndio de Pedrógão Grande e de Góis; CTI 2017, pág. 158

É preciso recordar, aquilo que já referi em artigos anteriores, o combate aos incêndios florestais em Portugal é um combate tipicamente reativo, carecendo de análise prévia e de estratégias baseadas no comportamento do fogo presente e previsto, pelo que não é de admirar que os resultados, ano após ano, sejam mais graves, com áreas mais extensas e maior probabilidade de acidentes, apesar de mais meios e de encargos cada vez mais avultados com o dispositivo de combate.

Foto 2 - Reunião Nacional do Grupo de Análise e Uso do Fogo. Foto: E. Oliveira, 2010
Em relação à mediática defesa da CTI e de vários técnicos, onde me incluo, sobre a necessidade urgente de colocar analistas ao sistema, sou obrigado novamente a recordar que por volta do ano 2007, na sequência dos GIF’s de 2003 a 2005, em que o país se viu uma vez mais envolvido em chamas, se tentou integrar um grupo de técnicos para dar apoio à análise e ao uso do fogo nos grandes incêndios florestais. Foi criado o Grupo de Análise e Uso do Fogo (GAUF) sob a tutela da então Autoridade Florestal Nacional, porém não atuou mais do que 3 anos, devido à dificuldade de se integrar num sistema onde a análise era subvalorizada (ao contrário do amplo uso do fogo). Talvez, também tenha contribuído para o insucesso, o facto do GAUF ter sido criado num organismo que em Portugal não tem competências no combate desde a década de 80, pelo que terá sido assumido pelo "setor do combate" como um corpo estranho, logo os “anticorpos” da época não permitiram que o grupo de técnicos se mantivesse e nem souberam aproveitar o seu know-how e a possibilidade da sua integração na estrutura com competências na extinção dos incêndios florestais.

Agora, parece ter tido um déjà-vus e, voltamos novamente, a falar de analistas. Voltamos a querer integrar analistas num sistema que não tem entendido que o combate aos grandes incêndios não tem nada a ver com as pequenas ocorrências e que o combate reativo não se aplica nestas grandes ocorrências ou quando existe um elevado potencial destas ocorrerem. O ano 2017, só demonstrou o que tem vindo a ocorrer em anos anteriores (2016, 2013, 2010 e 2005, 2004 e 2003). Como dizem os colegas da Galiza: “os grandes incêndios florestais requerem mais intervenção com a cabeça do que músculo”, isto referindo-se à necessidade de análise! Por cá, caimos na ilusão do combate musculado!
Foto 3 - Helicóptero de Coordenação e Análise ao serviço da Xunta de Galicia com sistema de gravação de video e partilha em tempo real com o Posto de Comando. Foto: E. Oliveira 2017
Há muito que sabemos da importância do papel do analista no Teatro de Operações. Sim, sublinho e destaco o papel e missão e não um cargo ou lugar de analista, pois muitos acham que ser analista é mais um cargo dentro do vasto sistema hierárquico da maioria das unidades de combate. Se for um cargo, apenas incrementará maior entropia ao sistema.
Nesta altura do ano e após o que se passou em 2017, já deveríamos ter analistas a trabalhar para a campanha de incêndios que se avizinha. Note-se que não é com ações de formação e cursos à pressão que se produzem analistas de incêndios florestais e muito menos com nomeações para cargos, nem o papel do analista se resume ao uso de simuladores.
Foto 4 - Vista interior do Helicóptero, onde o Analista faz a recolha e tratamento da informação do incêndio em tempo real. Na Galiza dá-se uma destacada importância ao papel do analista de incêndios e às forças helitransportadas para um aumento da eficiência. Foto: E. Oliveira, 2017
Como já referi: Analista não constitui um cargo mas uma missão no apoio à tomada de decisão.

Em Portugal tem-se confundido a função do Analista de Incêndios Florestais e o próprio Despacho n.º 7511/2014, de 9 de junho, mesclando o papel de analista com o papel do uso do fogo de supressão, ou seja junta-se a análise com a manobra.

É preciso entender que existem dois níveis de análise e, como tal, dois papéis de analista:
  • Analista Estratégico
  • Analista Táctico ou Operacional
O Analista Estratégico trabalha, normalmente, fora do Teatro de Operações. A sua principal função centra-se no seguimento e monitorização diária antes, durante e pós-campanha de incêndios, desenvolvendo um conjunto de ações que vão desde a revisão meteorológica, monitorização das ocorrências, avaliação, simulação e modelação do comportamento e propagação do fogo, elaboração de relatórios e formação de operacionais, entre outras.
Foto 5 - Analistas Estratégicos do Departamento de Incêndios de Los Angeles (EUA). Fonte: US San Diego News Center
Por sua vez, o Analista Táctico ou Operacional tem um papel junto do Comando no Teatro de Operações, acompanhando e assessorando o COS, no desenho e implementação da estratégia, executando ações que vão desde a interpretação da informação do Analista Estratégico, recolha rigorosa de informação no terreno, elaboração do plano de ação tático e avaliação de manobras complexas de extinção, entre outras.
Foto 6 - Analista Tático obtendo dados meteorológicos no Teatro de Operações. Fonte: International Fire Fighter
O trabalho de análise requer total libertação de outras tarefas de direção do dispositivo de extinção e o tempo necessário para observação e avaliação da propagação dos incêndios ou na pré-ignição (prevenção estratégica). O analista deve ter experiência no terreno quer em incêndios quer no uso do fogo, ser um bom observador de incêndios, deve dominar as ferramentas de SIG, de detecção remota, de meteorologia de incêndios e obviamente, dominar o uso de simuladores. Os analistas não se produzem em cursos, fazem-se com experiência e formação contínua. É importante que o sistema de combate em Portugal integre analistas e aproveite a campanha que se avizinha para capacitar técnico-operacionais e se uniformizem conceitos e técnicas, bem como protocolos de atuação.

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segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

Reflexão II sobre as Faixas de Gestão de Combustível nas Edificações e Aglomerados Populacionais

Elaborado por: Emanuel Oliveira


Como já foi referido no artigo anterior, muitas são as dúvidas e controvérsias que marcam o início de uma Campanha de Prevenção de Incêndios, promovida pelo MAI, que se deseja exequível, operacional e eficiente.

O próprio sloganPortugal Sem Fogos” está algo desfasado da atualidade, quando existe em simultâneo a promoção do Programa Nacional de Fogo Controlado promovido pelo Governo e que visa a gestão de combustível com recurso ao fogo controlado. O slogan deveria de aludir a um “Portugal Sem Incêndios
Gestão de combustíveis num aglomerado com recurso a fogo controlado. Fonte: desconhecida
Afastando-nos destas questões técnicas mais específicas, devemos debruçar-nos novamente nas faixas de gestão de combustível ao redor dos aglomerados e das edificações, visto que se levantam inúmeras questões devido ao enfoque e abordagem da Campanha, principalmente na sua aplicação no terreno e na sua eficácia. Muitos proprietários estão a cortar tudo, inclusive espécies protegidas, como o sobreiro, a azinheira, bem como árvores frutais.
O ponto que levanta maior controvérsia é aplicação da alínea a) do ponto I do Decreto-Lei nº 10/2018 de 14 de fevereiro:

«a) No estrato arbóreo a distância entre as copas das árvores deve ser no mínimo de 10 m nos povoamentos de pinheiro bravo e eucalipto, devendo estar desramadas em 50 % da sua altura até que esta atinja os 8 m, altura a partir da qual a desramação deve alcançar no mínimo 4 m acima do solo;»
Edificado em espaço rural. Fonte: Jornal de Leiria
Na verdade, o pinheiro-bravo e o eucalipto são as espécies mais abundantes dos nossos povoamentos florestais produtivos, principalmente em monocultura, mas estas não constituem o modelo de combustível mais perigoso junto aos aglomerados e edificações. Normalmente, povoamentos produtivos geridos apresentam cargas de combustível muito menores quando comparados com modelos do grupo matos ou povoamentos regenerados sem gestão ou de reduzida gestão.
Por outro lado, quanto maior for a abertura de clareiras pela redução da densidade de copas, maior será a dificuldade de manutenção da faixa de gestão, onde passarão a dominar as herbáceas e os arbustos, os quais antes se encontravam limitados pelas sombras mais densas. No que respeita ao eucalipto, cuja copa está muito mais alta que o pinheiro e normalmente mais densa, dificilmente existe uma passagem para fogo de copas (no pinheiro é muito mais propensa). A abertura de clareiras poderá aumentar o risco de propagação por combustíveis de escada. Igualmente, o cumprimento à risca e cego destes critérios na faixa da rede vária, pela abertura de maiores clareiras, incrementará o risco de ignição devido a um aumento do combustível fino (que seca mais rápido) e a um aumento da velocidade de propagação dos incêndios, com um comportamento de fogo semelhante ao verificado nas faixas da rede elétrica em zonas de matos.
Faixa de gestão de combustível num aglomerado. Fonte: E. Oliveira, 2017
Recordo que a execução eficiente (custo vs benefício) das faixas de gestão de combustível deveria obedecer a um rigoroso trabalho de planeamento em complementaridade com outras ações orientadas à propagação de Grandes Incêndios Florestais, segundo o período de retorno (dos GIF’s), área ardida do último incêndio, média do número de ignições e causalidade e modelos de combustível. Igualmente, deveriam ser identificados nos aglomerados pontos de risco, tais como acumulação de combustível (lenhas, depósitos de gás e de gasóleo, fardos para alimentação do gado, etc) edificações em zonas de propagação de incêndios recorrentes, construções ilegais e/ou irregulares ou em zonas classificadas de perigosidade alta e muito alta e edificações isoladas em espaço florestal. Como já referi no artigo anterior, estas faixas não evitarão que as edificações sejam atingidas, quando a larga maioria das edificações afetadas em 2017 foi por efeito de projeções e não por impacto das chamas.

Esta opinião é meramente técnica e, vai ao encontro do identificado e descrito no Estudo “O GIF de Pedrógão Grande e concelhos limítrofes (2017)”, encomendado pelo Governo à equipa do CEIF-ADAI: «sobre as condições de ocorrência, início e propagação do incêndio, com particular enfase no estudo da sua propagação e na análise dos acidentes mortais, com o objetivo de suportar a tomada de decisões por parte das autoridades para se retirarem ensinamentos e se melhorar o sistema para o futuro». Sendo assim, destaco alguns factos bem detalhados pela equipa dirigida pelo Prof. Xavier Viegas:
Tipo de estrutura danificada por concelho.
Fonte: CEIF-ADAI; "O GIF de Pedrógão Grande e concelhos limítrofes (2017)"; pag. 170
«Apenas cerca 13% eram usadas como primeira habitação (130), sendo a maioria delas no concelho de Pedrógão Grande. Como habitação secundária identificámos 124 estruturas atingidas (11,9%). As estruturas mais danificadas foram sobretudo estruturas de apoio como barracões e arrumos (38,6%).» (pag. 170)
Grau de afetação em função do tipo de ignição da estrutura.
Fonte: CEIF-ADAI; "O GIF de Pedrógão Grande e concelhos limítrofes (2017)"; pag. 181
«Cerca de 61% das estruturas que foram danificadas pela passagem do incêndio foram-no devido à projeção de partículas incandescentes (fagulhas) oriundas do incêndio. Esta observação confirma o que foi dito anteriormente acerca destes mecanismos de ignição. As categorias “materiais a arder na imediação” e “estrutura contígua” podiam ainda acrescentar a este número, pois observámos que, na maioria dos casos, estes materiais e estas estruturas contíguas se incendiaram também por partículas. No entanto, a causa de ignição não foi diretamente a fagulha, mas sim o material que essa fagulha incendiou, que por sua vez fez incendiar a estrutura analisada. O impacto direto do fogo nas estruturas representou 21,3% do total.» (pag. 181)

Opção tomada perante o incêndio.
Fonte: CEIF-ADAI; "O GIF de Pedrógão Grande e concelhos limítrofes (2017)"; pag. 192
«Os dados obtidos comprovam que o desfecho foi muito pior no caso em que as pessoas tentaram fugir do incêndio. No total das seis aldeias, 97,6% das vítimas, correspondente a 41 pessoas, morreram ao tentar fugir de casa. Apenas uma (2,4%) morreu em casa, com as dificuldades já abordadas. Na realidade, no total das vítimas relacionadas com este incêndio, morreram mais 3 pessoas dentro de casa, conforme descrito no capítulo dos acidentes. Também elas tinham condicionantes à sua mobilidade e destreza.» (pag.192)

Neste sentido, resta-nos adequar a legislação e consequentemente a aplicação de medidas de prevenção e de resposta, de acordo com os estudos técnicos e relatórios elaborados, pois a partir destes documentos devemos de retirar lições que por sua vez, devem estar aprendidas, para que quadros semelhantes não voltem a repetir-se no nosso país num futuro próximo. Reitero, as faixas de gestão de combustível e estas regras não são solução para um problema que se agrava, fruto da desruralização e da renaturalização/assilvestramento.