FOGOS FLORESTAIS

UMA ABORDAGEM OPERACIONAL, TÉCNICA E POLÍTICA

O FOGO

UM BOM CRIADO, UM MAU PATRÃO

FOGO CONTROLADO

UMA FERRAMENTA ESSENCIAL NA PREVENÇÃO DE INCÊNDIOS FLORESTAIS

INCÊNDIOS FLORESTAIS

NÃO SE PODE PROTEGER ALGO QUE NÃO SE VALORIZA

FORMAÇÃO E PROFISSIONALISMO

É ESSENCIAL TRABALHAR COM O FOGO PARA ENTENDER O SEU COMPORTAMENTO NO COMBATE

segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

Evolução da distribuição dos meios durante a Fase Charlie de 2017

No dia 15 de dezembro foi anunciado pelo Governo da Nação o fim das fases de combate aos incêndios florestais, o que é de saudar. Esperemos que o chamado “Período Crítico” tenha o mesmo fim!

No final do verão lançaram-se inúmeras críticas em relação à redução do número de operacionais após o dia 30 de setembro. Recorde-se que a “fase mais crítica” dos incêndios compreendia o período entre 1 de julho e 30 de setembro, quando se concentram a larga maioria de meios e recursos para o combate aos incêndios florestais, sendo este período historicamente o que concentra, igualmente, o maior número de ocorrências e de área ardida.
Video 1 - Evolução do furacão Ophelia no dia 15 de outubro, onde se observa o fumo dos incêndios Portugal e da Galiza. Fonte: NASA

Neste sentido, procurou-se compreender ao nível nacional como evoluiu a distribuição dos meios e recursos, bem como do número de ocorrências e da área ardida, no período compreendido entre 1 de julho a 30 de setembro e de 1 a 17 de outubro de 2017, ou seja, respetivamente, a referida Fase Charlie e o prolongamento do Período Crítico que culminou com o fatídico dia 15 de outubro.

Se observarmos os dados dos valores totais acumulados, destaca-se, como é historicamente habitual, o mês de agosto, concentrando o maior valor de área ardida e o maior número de ocorrências, bem como a maior concentração de meios e recursos. Seguidamente, encontra-se o curto período correspondente à primeira quinzena de outubro, o qual concentra a maior área ardida, 239 182 hectares (dados provisórios) devido essencialmente às condições atípicas verificadas no dia 15 de outubro, com a aproximação do furação Ophelia.
Quadro 1 - Valores Totais durante a Fase Charlie e a 1ª Quinzena de Outubro. (clicar na imagem para aumentar)
No entanto, se compararmos os valores diários médios da Fase Charlie com a primeira quinzena de outubro, verifica-se neste último período que se registou um maior número de ocorrências quando comparado com a fase mais crítica, reduzindo-se apenas praticamente para metade o número de meios e operacionais aéreos. Se fizermos uma distribuição média diária por cada mês, destaca-se que a quinzena de outubro apresenta um valor médio diário da área ardida 8,5 vezes superior à média diária da Fase Charlie.
Quadro 2 - Valores Médios durante a Fase Charlie e a 1ª Quinzena de Outubro. (clicar na imagem para aumentar)
Gráfico 1 - Distribuição do  número de operacionais e número de ocorrências (valores acumulados) durante a Fase Charlie e a 1ª Quinzena de Outubro. (clicar na imagem para aumentar)
Um dado relevante é que o número médio diário de operacionais e meios terrestres na quinzena de outubro foi superior ao valor médio registado no mês de agosto, o que significa que na prática não se efetivou uma redução do efetivo terrestre.

Gráfico 2 - Distribuição do  número de operacionais e da área ardida (valores acumulados) durante a Fase Charlie e a 1ª Quinzena de Outubro. (clicar na imagem para aumentar)
Outro dado significativo é que em termos médios diários, a Fase Charlie registou um número médio diário de operacionais terrestres (em ocorrências) de cerca de 1 650 elementos, existindo picos que concentraram um maior número e corresponde igualmente, aos dias com maior área ardida acumulada (ver Gráfico 2). Salienta-se que no total do efetivo, consideram-se todas as unidades envolvidas no combate e 1ª intervenção, isto é bombeiros voluntários, bombeiros profissionais (FEB e Municipais), GIPS-GNR, AFOCELCA, sapadores florestais, militares e outros.

Se por um lado, estes dados refletem, de modo aproximado, a distribuição dos meios na fase mais crítica de 2017, por outro permitem-nos estimar de forma mais eficiente os meios e recursos necessários para as próximas campanhas de incêndios, considerando as piores condições registadas neste ano.

sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

Os Grandes Incêndios de 2017 em Portugal eram previsíveis de ocorrer?

Elaborado por: Emanuel Oliveira

Talvez o título seja algo provocatório quando um amplo setor da população acredita que os incêndios sejam incidentes ou riscos impossíveis de prever. Efetivamente, a previsão de incêndios não é tarefa fácil, visto que estes dependem praticamente da ação humana, pelo que importa analisar com rigor as causas e as motivações que estão por detrás das ocorrências. Nunca sabemos onde poderá “rebentar” um incêndio, mas podemos avaliar as condições a médio e a curto prazo para identificarmos as áreas mais críticas e suscetíveis.

Obviamente, esta é também, uma função do analista estratégico de incêndios florestais – recolher e analisar dados que apoiem a tomada de decisão com fins a determinar condições de maior risco e a definir a alocação atempada de meios de prevenção operacional (vigilância) e de meios de supressão (equipas de 1ª intervenção e combate). Note-se que não falo de Período Crítico, pois tal período, aos poucos deixará de fazer sentido face às consequências das Mudanças Climáticas.

Hoje, temos acesso a uma rica informação do histórico dos incêndios de Portugal que apesar de requerer o seu tratamento prévio, com recurso a ferramentas tecnológicas de análise, permite-nos estudar e analisar como se manifestam os incêndios florestais no território.

Com recurso a essa informação que o ICNF nos disponibiliza gratuitamente, procura-se analisar a escala espaço-temporal em que os grandes incêndios florestais (GIF) se propagam na paisagem.
Sendo assim, para além de procurar identificar-se padrões típicos de propagação associados à meteorologia, ao relevo e obviamente às condições vegetativas dos complexos de combustível florestal, procurou-se identificar como estes se manifestam no espaço e no tempo, ou seja quantas vezes se repetem na paisagem e quando esta está em condições de receber um novo incêndio.

Segundo o último Relatório do ICNF (10º relatório provisório: 1 de janeiro a 31 outubro), das 16.981 ocorrências que se deram no território, 3.653 foram incêndios florestais, dentre os quais 214 foram GIF’s (incêndios com mais de 100 hectares) que consumiram 412 781 hectares de espaços florestais, cerca de 93% do total da área ardida no território nacional.
Figura 1 - Mapa do último incêndio no período de 1990 a 2016. Elaboração Própria. Fontes: ICNF (clique na imagem para ampliar)
O que se tem verificado é que a larga maioria dos GIF’s são incêndios recorrentes, isto é, o espaço percorrido pelos incêndios de 2017 já tinha sofrido com incêndios anteriores. Através da cartografia das áreas ardidas disponível, entre o período de 1990 a 2016, algumas áreas em 27 anos foram afetadas por incêndio 11 vezes. Destaca-se que grande parte dos GIF’s durante a sua recorrência têm vindo a apresentar perímetros semelhantes, porém na última década apresentam uma tendência para um aumento considerável da sua extensão, ou seja, os GIF’s recorrentes têm aumentado de dimensão. E porquê?

Várias são as razões, contudo a mais determinante terá a ver com o estado dos combustíveis quanto à carga disponível e a sua cobertura na paisagem. Sublinhe-se que quanto mais arde uma paisagem, menos interesse existe em investir nesse território, logo incrementa-se o estado de abandono, o que por sua vez conduz a um aumento da continuidade do combustível. É um ciclo perigoso que alimenta futuros incêndios cada vez maiores.
Figura 2 - Mapa de Potencial de Retorno para 2017 com base no período de 1990 a 2016. Elaboração Própria. Fontes: ICNF  (clique na imagem para ampliar)
Então, sempre poderemos prever os Grandes Incêndios Florestais? 

  • Se os incêndios se repetem ciclicamente num dado território, então estes apresentam uma determinada frequência e recorrência que poderão ajudar a estimar o potencial para voltarem a ocorrer nesse mesmo território. 
  • A distribuição e carga dos combustíveis numa determinada paisagem dão-nos indicadores do potencial para alimentar um GIF. 
  • Se conhecemos as condições vegetativas dos combustíveis podemos determinar a suscetibilidade para a propagação do fogo.
  • Igualmente, conhecer a meteorologia associada e a forma como se propagam na paisagem, ajudam à tomada de decisão quer no planeamento da prevenção quer numa situação de emergência.
  • Se se monitorizar a distribuição e densidade de ignições, mediante o recurso à potente ferramenta HeatMap, poderemos monitorizar o risco derivado da piroatividade.

Considerando estes pontos, pode-se dizer que existem condições para ajudar-nos a decidir na hora de estabelecermos um plano de prevenção operacional.

Um Exemplo Prático – os GIF’s de 2017 em Portugal
Figura 3 - Mapa do Potencial de Retorno 2017 e o GIF de Mação (Várzea dos Cavaleiros) de 23|07|2017 que consumiu 34 992 hectares. Elaboração Própria. Fontes: ICNF  (clique na imagem para ampliar)
Para analisarmos a situação de 2017, estimou-se o período de retorno e interpolou-se com última vez que um determinado espaço ardeu e assim, podermos estimar o potencial dos incêndios recorrentes (históricos) voltarem a repetir-se num determinado ano num dado território. O resultado foi um mapa que procura identificar áreas com potencial de retorno, o qual foi classificado em 5 classes, tendo em linha de conta a última vez que ardeu e a recorrência. Por exemplo, se um território apresenta uma recorrência de 7 anos e ocorreu um incêndio no último ano, obviamente que no ano seguinte dificilmente voltará a arder, mas se pelo contrário, esse território já não arde há mais de 12 anos, então existe um incremento da carga de combustível, apresentando condições para voltar a arder.

Obviamente, uma ajuda crucial para a prevenção é cruzar o mapa de retorno potencial com o mapa de densidade de ignições do ICNF (de Rui Almeida) para se monitorizar o risco potencial de (rec)ocorrência. Igualmente, para que a análise seja mais rigorosa importa avaliar também o estado fenológico dos combustíveis. Entre os inúmeros casos de GIF's que ocorreram em 2017, as Figuras 4 e 5 referentes aos GIF's de Alijó e de Covilhã, procuram demonstrar o risco do território a incêndios recorrentes e como podemos monitorizar este risco.
Figura 4 - Mapa do Potencial de Retorno 2017 e o GIF de Alijó de 16|07|2017 que consumiu 4 684 hectares. Elaboração Própria. Fontes: ICNF; NOAA  (clique na imagem para ampliar)
Analisando na generalidade os incêndios de 2017, estes consumiram área de incêndios recorrentes com os 3 níveis mais altos, ou seja com um intervalo de recorrência entre 5, 10 e mais de 15 anos e cuja área ardida pela última vez ocorreu no mínimo entre 5 e 10 anos.

Dos 441 418 hectares da área ardida total, 66% ocorreu em espaços percorridos por incêndios passados (recorrentes). Do total da área ardida, 58% apresentava alto a máximo potencial de um incêndio voltar a ocorrer. A restante área (cerca de 34%) sem recorrência resultou da expansão da área ardida dos GIF’s, o que demonstra a tendência de crescimento dos GIF’s recorrentes.
Figura 5 - Mapa do Potencial de Retorno 2017 e o GIF de Covilhã (Rochoso - Seixo Amarelo) de 27|08|2017 que consumiu 10 836 hectares. Elaboração Própria. Fontes: ICNF; NOAA  (clique na imagem para ampliar)
Em termos gerais, em 2017, do total do território com potencial de recorrência apenas foram consumidos pelas chamas cerca de 16% dos espaços classificados com os níveis mais elevados (aproximadamente 1,5 milhões de hectares).
Figura 6 - Mapa de Potencial de Retorno para 2018 com base no período de 1990 a 2017. Elaboração Própria. Fontes: ICNF (com dados provisórios de 2017)  (clique na imagem para ampliar)
Para 2018 existe um potencial de retorno nos níveis mais altos (Alto, Muito Alto e Máximo) para cerca de 1,4 milhões de hectares do território nacional, incidindo sobretudo nas Serras Algarvias que apresentam um potencial alto a muito alto de voltarem a ser percorridas por GIF’s, bem como em várias zonas da Região Centro e de forma dispersa na Região Norte, muito particularmente nos distritos de Vila Real e Bragança. Mais uma vez recordo que a ocorrência de GIF’s recorrentes irá depender da meteorologia, do estado fenológico dos combustíveis e da densidade de ignições.

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Análise aos Grandes Incêndios Florestais - Pedem-se “Cabeças” e não Mudanças

Por: Emanuel de Oliveira

Desde o Grande Incêndio de Pedrógão Grande temos assistido através de vários intervenientes nos media para um sem fim de julgamentos públicos e de pedidos de “cabeças” e lançar suspeições sobre tudo e sobre todos, inclusive culpabilizar o eucalipto, o vento, o SIRESP, o raio, etc. Ao analisarmos esta posição e atitude logo ao início de uma campanha de incêndios se denota, por um lado, uma vontade precipitada envolvida em algum perigoso oportunismo, de julgar quem assume a difícil responsabilidade nos mais diversos patamares do sistema de resposta à emergência. No entanto, tais julgamentos públicos e apontar de dedos mais contribuem para a descredibilização do sistema e de todos os organismos e operacionais que o compõem e, colocam em causa a resposta pela desconfiança, pela desmotivação e perda de autoridade necessária em momentos tão críticos, principalmente em início de uma campanha que já se previa que seria muito difícil.
Foto 1 - Os jornais testemunham o "ambiente político" de fogo no início da campanha de incêndios
Fonte: Sapo24 de 29 de julho de 2017
Para agravar o conjunto de condições naturais que favorecem os grandes incêndios estão os comportamentos humanos e um clima de desconfiança nas autoridades e nas demais entidades, não abona para a melhoria da resposta. Imagine-se um país em guerra em que os políticos não apoiem as suas forças armadas e criem um clima de desconfiança entre as diversas forças envolvidas e os seus generais, dificilmente venceriam uma batalha. No sentido mais figurado, uma campanha de incêndios constitui uma “guerra” que se repete anualmente e, os Grandes Incêndios Florestais são batalhas que implicam um “exército” de combatentes devidamente formados, preparados, experientes, apetrechados e nas melhores condições físicas para o combate, bem como a exigência de uma coordenação experiente, com meios e recursos e alicerçada em bases de apoio à tomada de decisão.

Temos vindo a encarar os Grandes Incêndios Florestais com uma receita que se encontra completamente esgotada, a qual baseou-se nos últimos anos exclusivamente numa aposta de aquisição de meios e mais meios. Daí que não nos admiremos quando alguém coloca em causa a resposta da emergência porque considera que faltaram meios numa determinada ocorrência. Muitos são aqueles que atualmente julgam a coordenação dos últimos GIF’s pela falta de meios, porém quando olhamos aos inúmeros meios e recursos implicados nos teatros de operações, constata-se que face aos perímetros alcançados pelos incêndios, tais meios e recursos não impediram a extensão da propagação. Se compararmos os atuais GIF’s com os perímetros potenciais dos simuladores com fogo em propagação livre (sem combate) e com os incêndios passados (na maioria há 15 anos atrás) onde participaram menos meios e recursos, os perímetros atuais foram muito maiores, mesmo com a imensidão de recursos e melhores meios implicados no combate.

Mais do que pedir “cabeças” importa refletir ao final da campanha e avaliar a resposta do atual sistema em relação aos Grandes Incêndios Florestais e muito provavelmente mudar de rumo.

Convém salientar que o Sistema de Proteção Civil melhorou imenso nos últimos 15 anos, os agentes que o compõem e o sustentam formaram-se e apetrecharam-se, mas baseados numa “estratégia” onde historicamente a resposta aos incêndios florestais é reativa e, como tal, a atuação tem por base padrões de causa e efeito, logo sustenta-se no número de meios e recursos para o combate. No entanto, os padrões dos Grandes Incêndios Florestais implicam mudanças no sistema de combate, o que implica por sua vez mudanças radicais no Dispositivo de Extinção, pois este deve assumir-se como tal – Dispositivo Especial de Combate a Incêndios Florestais – ou seja, é essencial estar focado na extinção do fogo florestal, para além da proteção civil e das atuações nas zonas de interface urbano-florestal que deveriam ser assumidas por equipas distintas. No entanto, podemos constatar que enquanto o fogo lavra praticamente sem combate e se estende no espaço florestal, os meios de extinção se concentram nas zonas de interface, protegendo bens e vidas.
Foto 2 - Meios aéreos  pesados em ação
Fonte: M80 de 25 de julho de 2017
Fala-se e exige-se a necessidade de mais meios aéreos, mas os meios aéreos por si só não são eficientes sem o devido apoio em número suficiente de equipas devidamente preparadas para apoio à supressão do fogo durante as descargas, o que obriga a um aumento do efetivo de equipas helitransportadas e de equipas profissionais terrestres. Igualmente, seria importante integrar como foi no passado, as descargas aéreas com agentes retardantes (por ex. º biofosfato) em zonas de alto risco e estratégicas para o controlo.

Foto 3 - Podemos identificar nesta foto o correto e o incorreto no combate.
Fonte: Sapo24 de 25 de julho de 2017
Por outro lado, vários são aqueles que julgam a coordenação com base nos meios terrestres envolvidos, considerados poucos, mesmo que se encontrem perto de um milhar num único teatro de operações, como o caso de alguns GIF’s deste ano. No entanto, é preciso recordar que o nosso sistema de combate terrestre assenta sobretudo num modelo de extinção de reação fogo-água, apoiando-se em meios, até onde o veículo com água alcança. Na realidade o trabalho de combate florestal é muito residual, daí explicar-se a dimensão dos incêndios. Quando falo de trabalho de combate florestal, falo de, entre outras ações, de combate apeado com ferramentas, de uso de vias de comunicação como pontos de ancoragem para a execução de linhas de defesa e não como “vias de espera” ao fogo, execução de linhas de dois pés, eliminação de bolsas de combustível, manobras noturnas e ações antecipadas de combate nos pontos estratégicos de gestão (multipropagação).
Foto - Equipas Helitransportadas privadas da AFOCELCA. 
Fonte: Notícias ao Minuto/Global Imagens de 26 de julho de 2017
Enfim, mais do que exigir um “rolar de cabeças”, pois esse é o caminho mais fácil, os políticos locais e nacionais deveriam de exigir sim, uma mudança do sistema de combate e terem a coragem de produzir essa mudança. Esta mudança exige a profissionalização de equipas especializadas e dedicadas exclusivamente ao combate a incêndios florestais, à semelhança do que existe nos restantes Estados Membros da UE e nos países desenvolvidos onde os grandes incêndios são um risco presente. Recorde-se que sendo Portugal um país atlântico do Sul da Europa, com uma dimensão menor conseguiu, mais uma vez, apresentar este ano valores de área ardida superiores à soma dos totais de Espanha e de Itália, países muito maiores com características de despovoamento, assilvestramento e homogeneização de paisagens semelhantes às de Portugal, no entanto como um clima mais árido (essencialmente mediterrânico). Daí que poderemos dizer que o problema reside em todo o Sistema de Combate, nos seus diversos níveis, pois aqueles países à semelhança de muitos outros, profissionalizaram-se na área da extinção dos incêndios florestais e Portugal fez e mantém o caminho oposto.

quarta-feira, 12 de julho de 2017

Área Ardida e Danos Provocados pelos Incêndios de Pedrógão Grande e Góis

Seguidamente, apresenta-se um excelente e completo trabalho desenvolvido pelo colega Pedro Venâncio referente à severidade do Grande Incêndio Florestal de Pedrógão Grande e Góis. Dada a sua importância e rigor, considerou-se essencial a sua partilha pública. 

Por: Pedro Venâncio

À medida que os dados dos satélites de Observação da Terra de alta resolução (Landsat 7 e Landsat 8, ambos do consórcio NASA/USGS [0], e Sentinel-2, do consórcio ESA/Comissão Europeia [1]) têm vindo a ser disponibilizados, tem sido possível cartografar a área ardida nos incêndios de Pedrógão Grande e Góis, cada vez com mais detalhe e precisão.

Landsat 7 (NASA/USGS)


Os dados obtidos a partir do processamento digital das imagens do dia 23 de junho, do satélite Landsat 7, já deixavam transparecer que a área total ardida não iria atingir os 50 mil hectares, como inicialmente se pensou.
Fig. 1 - Imagem Landsat 7 de 2017-06-23. Composição RGB 743.

Fig. 2 - Classificação supervisionada da imagem Landsat 7 de 2017-06-23.
Fig. 3 - Área ardida, calculada a partir da imagem Landsat 7 de 2017-06-23,
sobre Série Cartográfica 1:200.000 da Direção-Geral do Território.

No entanto, como o sensor ETM+ do Landsat 7 possui um problema com o Scan Line Corrector (SLC), que introduz alguma incerteza/erro na classificação das zonas afetadas por essas falhas nas imagens, aguardou-se pela disponibilização de dados de outros satélites, para se conseguir tirar conclusões mais fiáveis.

Landsat 8 (NASA/USGS)

Assim, as imagens do satélite Landsat 8, do dia 1 de julho, permitiram, com maior rigor, cartografar a área atingida pelos incêndios.
Fig. 4 - Imagens Landsat 8 de 2017-07-01. Composições RGB 543.
Fig. 5 - Imagens Landsat 8 de 2017-07-01. Composições RGB 752.


Fig. 6 - Classificação supervisionada da imagem Landsat 8 de 2017-07-01.

Fig. 7 - Área ardida, calculada a partir da imagem Landsat 8 de 2017-07-01, por Concelho,
sobre Série Cartográfica 1:200.000 da Direção-Geral do Território.
Tabela 1 - Área ardida por Concelho, baseada nas imagens do Landsat 8, de 1 de julho de 2017.
Os concelhos mais atingidos foram Figueiró dos Vinhos (23,2% da área ardida), Pedrógão Grande (20,8%), Góis (19%), Pampilhosa da Serra (14,4%) e Sertã (9,5%).

A geometria da área ardida corrobora muita da informação já divulgada em análises e relatórios sobre estes incêndios. Sabe-se que foram intensificados, pelo menos duas vezes, por fenómenos de downburst, sendo o motor dos incêndios a forte atividade convectiva, tanto de origem meteorológica (instabilidade atmosférica), como gerada pela energia e radiação emitidas durante a combustão. Incêndios desta natureza ainda não são muito comuns em Portugal, mas caracterizam-se por envolver projeções de material incandescente, que é lançado a longas distâncias. Esta situação é percetível na cartografia da área ardida agora obtida, onde se observam limites muito irregulares e ilhas não ardidas no interior do perímetro, bem como pequenos núcleos ardidos, desligados da área ardida principal.

Para além da extensão da área ardida, os dados de satélite permitem determinar a severidade dos incêndios. Se a intensidade de um incêndio representa a energia que é libertada pela combustão da matéria orgânica durante o evento, a severidade traduz a forma como a intensidade afetou o funcionamento do ecossistema e, consequentemente, a gravidade das suas consequências. Os dados de severidade são um auxíliar importante na avaliação de impactos e no desenvolvimento de planos de restauro de emergência, de restauro ecológico e de restabelecimento do potencial florestal e produtivo das áreas afetadas. Para além disso, podem ser usados para estimar o risco de impactos subsequentes ao incêndio, nomeadamente, a ocorrência de cheias e inundações, movimentos de massa em vertentes e erosão do solo, que são intensificados pela remoção da cobertura de vegetação, potenciando a escorrência superficial e agravando os fatores condicionantes e desencadeadores daqueles processos danosos. 

Uma outra questão importante prende-se com a degradação da qualidade da água nos rios e albufeiras. Recorde-se que o flanco sul do incêndio de Góis parou no Rio Zêzere, tendo ardido uma parte significativa da área entre o Rio Unhais e o Zêzere, no setor a montante da Barragem do Cabril. Já o incêndio de Pedrógão atravessou o Rio Zêzere um pouco mais a justante, incluindo a zona da albufeira da Barragem de Bouçã, terminando sensivelmente a 35 quilómetros da Barragem de Castelo de Bode, uma barragem de abastecimento que representa, segundo dados da empresa EPAL, cerca de 75% da sua capacidade de produção. O único facto menos negativo neste cenário, é ainda faltarem alguns meses para o início do novo ano hidrológico, havendo algum tempo para serem adotadas medidas de estabilização das margens do Rio Zêzere afetadas pelos incêndios.

A determinação da severidade foi então feita com recurso a imagens do Landsat 8, dos dias 15 de Junho (pré-incêndio) e 1 de julho (pós-incêndio), através do cálculo do Normalized Burn Ratio (NBR) e do cálculo da diferença entre esses índices, antes e após os incêndios. Os intervalos utilizados para agrupar as áreas ardidas em classes de severidade foram os propostos pelos Serviços Geológicos dos Estados Unidos (USGS) [2].
Fig. 8 - Severidade calculada a partir de imagens Landsat 8, de 2017-06-15 e 2017-07-01,
através do cálculo do NBR e da metodologia proposta pelo USGS,
sobre Série Cartográfica 1:200.000 da Direção-Geral do Território.
Toda a área dos incêndios revela níveis de severidade alta e muito alta, bastante significativos.
Tabela 2 - Área ardida por classe de Severidade (Landsat 8).
A informação obtida foi cruzada com a Carta de Uso e Ocupação do Solo de 2010, recentemente publicada pela Direção-Geral do Território [3], no sentido de se perceber quais as classes de uso e ocupação mais afetadas.
Fig. 9 - Área ardida e Severidade obtidas com o Landsat 8, cruzadas com a Carta de Uso e Ocupação do Solo de 2010 (DGT), sobre Série Cartográfica 1:200.000 da Direção-Geral do Território.
Tabela 3 - Classes de Uso e Ocupação do Solo mais afetadas pelos incêndios (Landsat 8).
Dados detalhados, para todas as classes de uso e ocupação do solo afetadas pelos incêndios: https://docs.google.com/spreadsheets/d/1Y-yjNVs1E4UQu39bz-BAWM_owc9U-7cdVWhpZjfOn-0/edit?usp=sharing
Verifica-se que cerca de 70% da área ardida era constituída por florestas de eucalipto e pinheiro bravo, em diferentes etapas de desenvolvimento e com diferentes agregações. Significativos são também os níveis de severidade nestas classes, encontrando-se a maioria da área ardida em cada um desses usos e ocupações, com níveis de severidade alta e muito alta, depreendendo-se que a intensidade dos incêndios, nesses locais, foi muito elevada.

Analisando as áreas ardidas no período entre 2010 e 2015 (dados do ICNF), e no ano de 2016 (áreas ardidas obtidas por processamento de imagens de satélite), é possível identificar claramente a influência de alguns dos incêndios ocorridos nesses anos, no comportamento dos incêndios de Pedrógão e Góis do passado dia 17 de junho. A título de exemplo, veja-se o perímetro do incêndio de 2013, na zona de Roda Cimeira / Roda Fundeira, que encaixa de forma praticamente perfeita no limite do incêndio de 2017. 

Outros exemplos, na zona de fronteira entre os concelhos de Figueiró dos Vinhos e Pedrógão Grande, ou na zona de Obrais (Góis), ajudam a explicar algumas das ilhas não ardidas. Embora ainda não haja dados oficiais de áreas ardidas em 2016, analisando as imagens de satélite Sentinel-2 (18 agosto 2016), foi possível identificar um incêndio com uma área significativa (cerca de 600 hectares), que terá ocorrido algures entre os dias 8 e 18 de agosto de 2016, junto a Castanheira de Pêra (parque eólico), e que constitui, parcialmente, o limite norte do incêndio de Pedrógão.
Fig. 10 – Perímetro das áreas ardidas no período 2010 a 2015, de acordo com o ICNF, e 2016 levantado com imagem Sentinel-2, sobre Série Cartográfica 1:200.000 da Direção-Geral do Território.
Sentinel-2 (ESA/Comissão Europeia)

No dia 4 de julho, foi disponibilizada uma imagem do satélite Sentinel-2, sem cobertura de nuves. Esta imagem tem ainda maior resolução espacial que a do Landsat 8, pelo que se replicou a metodologia, no sentido de se compararem os resultados.
Fig. 11 - Imagens Sentinel-2 de 2017-07-04. Composição RGB 843
Fig. 12 - Imagens Sentinel-2 de 2017-07-04. Composição RGB 12 8 3.
Até ao momento, não se conseguiu encontrar nenhum artigo científico que proponha uma divisão do Normalized Burn Ratio (NBR) obtido com imagens Sentinel-2, em classes de severidade, existindo apenas alguns estudos preliminares. Por esse motivo, foi feita uma divisão com as mesmas classes usadas para o Landsat 8, apenas para efeitos comparativos. Alerta-se, no entanto, para o facto das classes de severidade não terem, neste caso, tanto suporte científico, sendo ainda mais necessária a validação de campo.
Fig. 13 - Normalized Burn Ratio (NBR) calculado a partir de imagens Sentinel-2, de 2017-06-14 e 2017-07-04.
Fig. 14 - Severidade calculada a partir da imagem Sentinel-2 de 2017-07-04, por Concelho,
sobre Série Cartográfica 1:200.000 da Direção-Geral do Território.

Os resultados globais são muito semelhantes, o que torna mais robusta a probabilidade de estaremos perante uma área ardida total, um pouco acima dos 45.000 hectares. 
Tabela 4 - Área ardida por classe de Severidade (Sentinel-2).
Os resultados por concelho são também muito semelhantes.
Fig. 15 - Área ardida, calculada a partir da imagem Sentinel-2 de 2017-07-04, por Concelho,
sobre Série Cartográfica 1:200.000 da Direção-Geral do Território.
Tabela 5 - Área ardida por Concelho, baseada nas imagens do Sentinel-2, de 4 de julho de 2017.
Os dados obtidos com o Sentinel-2 foram igualmente cruzados com a Carta de Uso e Ocupação do Solo de 2010 [3]. Os resultados vão no mesmo sentido, isto é, as áreas mais afetadas foram florestas de eucalipto e florestas de pinheiro bravo.
Fig. 16 - Área ardida e Severidade obtidas com o Sentinel-2, cruzadas com a Carta de Uso e Ocupação do Solo de 2010 (DGT), sobre Série Cartográfica 1:200.000 da Direção-Geral do Território.
Tabela 6 - Classes de Uso e Ocupação do Solo mais afetadas pelos incêndios (Sentinel-2).
Dados detalhados, para todas as classes de uso e ocupação do solo afetadas pelos incêndios: https://docs.google.com/spreadsheets/d/1HfMDL38axKOI05e79tl0TUxkpxmisXdsKeVsykKZEac/edit?usp=sharing
Note-se que a análise das imagens Landsat e Sentinel foi feita de forma isolada, não se tendo utilizado umas, para auxiliar na interpretação das outras, com o objetivo de obter resultados independentes e determinar se existiriam grandes disparidades, o que, de facto, não se confirmou. Ambos os conjuntos de dados revelaram resultados bastante semelhantes, com desvios globais na área ardida na ordem dos 0,8%.

Aguarda-se a publicação dos dados oficiais, os quais envolverão, naturalmente, trabalho de campo, para se fazer uma validação quantitativa dos resultados obtidos com dados de deteção remota, que estão à disposição de qualquer cidadão (Landsat e Sentinel).

A metodologia utilizada no cálculo da severidade poderá ser repetida nas próximas semanas, meses e anos, no intuito de avaliar o grau de regeneração das espécies afetadas e a evolução da própria paisagem, pelo que o trabalho desenvolvido deverá ter continuidade no futuro.


Nota importante
Os dados aqui apresentados não têm caráter oficial e correspondem a um estudo que pretende demonstrar as potencialidades dos dados abertos que se encontram à disposição das entidades e dos cidadãos em geral, nomeadamente no domínio da Observação da Terra. Por esse motivo, o autor não se responsabiliza por qualquer tipo de utilização que deles seja feita, para além da atrás exposta.

Referências

sábado, 1 de julho de 2017

A Propagação Inicial do Grande Incêndio Florestal de Pedrógão Grande

Por: Emanuel Oliveira

No último artigo publicado intitulado “A Origem do Grande Incêndio de Pedrógão Grande” pretendeu-se dar um ponto de partida a uma análise, o mais objetiva possível e fundamentada tecnicamente.
Não se pretende discutir, levantar suspeições, ou mesmo buscar bases para responsabilizações ou justificações de eventuais “oportunistas” que normalmente surgem em situações contaminadas de mediatismo. Muitas vezes tais atitudes acabam por denegrir a imagem dos nossos organismos, instituições e de todas entidades e operacionais envolvidos. Pretende-se sim, contribuir ao esclarecimento e à divulgação técnica.
Sendo assim, apenas vamos olhar este primeiro Grande Incêndio Convectivo, em Portugal, do ponto de vista técnico relacionado com o comportamento do fogo – o olhar do analista de incêndios.
Foto: Paulo Soares
Coluna Convectiva do GIF de Pedrógão Grande
Analisando os parâmetros físicos e baseando-nos em registos de dados públicos e oficiais, vamos tentar reconstruir a propagação inicial do fogo, com o apoio de ferramentas tecnológicas de análise para entender a complexidade deste tipo de incêndios e comprovar da importância e necessidade das análises e da construção de bases de dados referentes a GIF's.

Antes de partirmos para a interpretação dos dados e reconstrução da propagação inicial importa definir incêndio convectivo ou também conhecido por incêndio de combustível.

Ao nível técnico procuramos classificar os incêndios pelo principal factor que domina e conduz a propagação do fogo, de modo a definir qual a melhor estratégia e táctica de controlo e supressão adequada para cada incêndio tipo. Sendo assim, genericamente definimos 3 grandes tipos: os incêndios do tipo vento quando é o vento que conduz e domina a propagação, produzindo perímetros mais alongados e lançando faúlhas e criando focos secundários (novas ignições) para onde sopra; incêndios do tipo topográfico quando a propagação é conduzida e dominada pelas características físicas do terreno, tais como o declive, a exposição e a rugosidade do relevo (sendo estes de mais fácil predição da propagação)
GIF's ocorridos na zona de Pedrógão Grande e Figueiró dos Vinhos.
Imagem publicada no dia do incêndio para se verificar os últimos anos em que os GIF's percorreram o território.
Os incêndios convectivos têm uma propagação conduzida pelos combustíveis, pela carga e disponibilidade, pelo tipo/modelo de combustível, pela sua distribuição espacial e pelo seu estado fenológico. Temos que recordar que a área em causa já não era percorrida por Grandes Incêndios Florestais, parte desde 1991 e outra parte desde 2005 (ver imagem), o que conduziu a um acumular de combustível com poucas diferenças, numa paisagem que se tornou muito homogénea. Sendo assim, uma elevada quantidade de combustível disponível para arder pode produzir a libertação de uma imensa quantidade energia e calor, de tal forma que pode gerar o seu próprio ambiente, com as manifestações que se puderam observar no GIF de Pedrógão Grande, tais como coluna convectiva com formação de pirocúmulus, com propagação por projeções e novos focos secundários, ventos erráticos e remoinhos de fogo, radiação elevada ao ponto de derreter as proteções das estradas, etc..

Para além do estado e da disponibilidade dos combustíveis, bem como da homogeneização da paisagem rural e florestal, existem parâmetros meteorológicos que são determinantes para potenciar o desenvolvimento de incêndio convectivo.

Previsão Sinótica


Tal como se previa nos diversos modelos meteorológicos, formou-se um quadro sinóptico típico desta época: uma baixa térmica no centro peninsular, formada pelo aquecimento à superfície devido à entrada de ar muito quente e seco do Norte de África e ao mesmo tempo por força das altas pressões deu-se a entrada de ar frio nas camadas altas da atmosfera.
Baixa Térmica no centro peninsular. Mapa 500hPa de 17.06.2017 12UTC
Advecção de Sul que mostra a temperatura a 1 600 metros. Mapa 850hPa de 17.06.2017 18UTC
Esta situação leva a um aumento do potencial convectivo, pelo que a ocorrência de um incêndio num espaço com elevada carga de combustível e muito suscetível, conduziria facilmente à formação de coluna convectiva e ao domínio da propagação do incêndio, sendo que seria tão destrutivo quanto a quantidade de combustível disponível e suscetível para alimentar o fogo.
Situação da atmosfera instável sobre o território às 18UTC. Fonte: EUMETSAT

Registo de queda de raios entre as 1330UTC e as 1815UTC. Fonte: EUMETSAT

Como já fora referido anteriormente, a instabilidade atmosférica condicionou marcadamente o desenvolvimento do Grande Incêndio Florestal de Pedrógão Grande, desde a pré-ignição (antes do incêndio) até a situação sinóptica mudar.

Situação meteorológica no início da propagação

Segundo a hora do Alerta, 14:43 horas locais, o vento não estaria muito forte no local, contudo o panorama iria mudar nas horas seguintes.

As estações meteorológicas mais próximas indicavam os seguintes valores:

T - Temperatura; HR - Humidade Relativa; V - Velocidade do Vento; FFMC (Fine Fuel Moisture Code) - Índice de humidade dos combustíveis finos; ISI (Initial Spread Index) - Índice de Propagação Inicial; DMC (Duff Moisture Code) - Índice de húmus; DC (Drought Code) - Índice de seca; BUI (Buildup Index) - Índice de combustível disponível; FWI (Fire Weather Index) - Índice Meteorológico de Risco de Incêndio

Como se pode comprovar no mapa (GFS) de temperatura extrema no dia do incêndio, pelas 18 UTC, indicava máximos de 40 ºC, o que coincide com os dados registados, bem como os previstos pelo IPMA.
Mapa da temperatura máxima às 18 UTC do dia 17.06.2017
Como já se referiu esta instabilidade atmosférica potencia o desenvolvimento de incêndios severos conduzidos pelo movimento vertical do ar, promovendo a propagação e um elevado aumento da intensidade do fogo. Prevendo-se estas condições, espera-se então o seguinte comportamento:
Remoinho de Fogo do GIF de Pedrógão Grande
Fonte: Desconhecida (retirada do Facebook)
  • Formação de coluna de fumo densa que contêm grandes quantidades de humidade resultante da combustão, ascendendo facilmente sob a influência de uma atmosfera instável, tais como as nuvens. Sendo de natureza convectiva, assemelham-se a trovoadas, gerando fortes correntes de ar e incrementando a velocidade do vento, bem como arrastando mais oxigénio do ambiente circundante e intensificando a ação do fogo. Neste tipo de incêndios (convectivos) é normal que a coluna de fumo se endireite e ascenda de forma potente até à atmosfera para posteriormente inclinar-se quando perde força e cuja inclinação segue a direção do vento geral em altura.
  • Elevação de matéria incandescente e lançamento de faúlhas para fora do perímetro do incêndio principal, originando focos secundários e novos incêndios que vão interagir e potenciando o fogo. Pode-se assistir ao efeito de helicidade em que a coluna carregada de cinza, muito escura gira sobre si própria, favorecendo o lançamento de faúlhas à medida que vai girando.
  • Desenvolvimento de remoinhos de fogo e de cinza que se movem para fora do perímetro principal, originando novos incêndios.
  • Formação de ventos convectivos à superfície muito intensos e de direção variável.
  • Nos casos mais graves o pirocúmulus formado pela coluna de fumo ao arrefecer nas camadas altas da atmosfera, condensa a humidade, podendo colapsar sobre a superfície e fazendo com que o incêndio se propague em diversas direções.
Diagrama Termodinâmico SKEW-T usado para estimar a instabilidade e potencial convectivo

Observando o Diagrama Termodinâmico SKEW-T para as 15 UTC do dia 17.06.2017 verifica-se a existência do potencial convectivo e da instabilidade atmosférica nesse momento que vem confirmar as previsões dos modelos meteorológicos. Através do diagrama podemos estimar o Índice de Haines que nos indica o potencial de crescimento deste incêndio, cujo cálculo indicou valores máximos de instabilidade e de potencial para um GIF (6, na escala de 2 a 6). Adotando o Índice Contínuo de Haines (C-Haines, sendo uma derivação do Índice de Haines) muito usado na Austrália para determinação do alerta para incêndios convectivos, o valor estimado encontrava-se dentro do intervalo máximo (12, na escala de 0 a 13), indicando-nos que o incêndio seria incontrolável e extremamente difícil de extinguir. 

Desenvolvimento da propagação inicial

Independentemente da causa, o local de início de incêndio é um pequeno vale do Ribeiro dos Frades, numa paisagem muito recortada e muito homogénea ao nível dos modelos de combustível, predominando numa grande extensão o modelo 7 que corresponde a um combustível composto por povoamento de pinheiro-bravo e de eucalipto com sub-bosque arbustivo, o que explica a facilidade da propagação e a transição do fogo em combustíveis de escada, bem como um comportamento praticamente uniforme dada a homogeneidade do combustível. Recorde-se que parte da área não era afetada por incêndios há mais de uma década, tendo os últimos GIF’s afetado parte do território em 2005 e 1991. Durante este período não existiram grandes ações de gestão silvícola ou de prevenção de escala que permitissem uma efetiva compartimentação do espaço e/ou alterações dos modelos de combustível, tendo os antigos campos de cultivo, hoje cobertos por matos sustentado uma rápida propagação, para além da carente gestão da floresta.

Simulação do GIF de Pedrógão Grande para as primeiras horas.
Um incêndio convectivo é de difícil modelação dada as alterações que ocorrem durante o seu desenvolvimento, o que implica que a informação seja precisa, mais rigorosa e atual possível para se poder apoiar ações de combate por antecipação. No entanto, o seu início é possível modelar e simular/reconstruir com base nos boletins e dados recolhidos das estações meteorológicas mais próximas.
Aquilo que percebemos é que o vento devido à instabilidade e à localização da ignição, teria uma intensidade maior devido ao efeito do vale do Ribeiro dos Frades e numa zona orientada a sudeste-sul e com um declive entre 5 e 10 graus, no pico da inflamabilidade horária. Supõe-se que dado o arranque inicial que coincidiu num ponto de abertura, tudo indica que estaria em pleno alinhamento (3/3).

Recorrendo ao simulador do comportamento do fogo e colocando os inputs com base nos dados reais, tais como uma temperatura média de 39 ºC, a humidade relativa de 14% e considerando um vento médio estimado de cerca de 27 km/h (podendo ter sido superior, de acordo com os testemunhos locais e devido à instabilidade que se seguiu, registada nas imagens), a velocidade estimada de propagação seria inicialmente entre 1500 e 2500 m/h. Porém, dado o incremento da instabilidade e o aumento da velocidade do vento, a propagação poderá ter alcançado velocidades superiores a 5 000 m/h e em alguns momentos poderá mesmo ter sido superior.

A par desta situação, como vemos na imagem onde consta uma simulação dos principais eixos de propagação e a distância máxima de projeções, com ventos superiores a 30 km/h, as quais poderão ter ocorrido em intervalos de distância entre 100 e 1 000 metros, criando inúmeros focos secundários que interagiam. Como se pode verificar, os focos ativos detetados pelo sensor VIIRS sobrepõem-se sobre os principais eixos de propagação (onde se encontram as povoações de Coelhal, Sarzeada do Vasco, Alagôa, Pobrais entre outras que ficam nestes eixos de propagação e sendo afetadas pela passagem do fogo) e sobre as zonas de multipropagação.

Distância do ponto provável de início à EN236-1.
Note-se como o incêndio se ramifica em vários eixos de propagação potencial.
A predição da propagação deste tipo de incêndios é muito complexa, pois este incêndio propaga-se a grande velocidade com uma intensidade elevada, ramificando-se pela paisagem segundo eixos de propagação (caminhos do fogo) determinados pelo terreno e ocupação do solo, sendo uma dificuldade acrescida para o combate dado o potencial de projeções a longas distâncias que originam novos incêndios, para além dos ventos erráticos que dificultam o controlo e a segurança dos operacionais em combate.

Dificuldade da Supressão


Hoje critica-se imenso o dispositivo de combate, mas na realidade a grande maioria desconhece este tipo de incêndios que pouco ou nada têm a ver com os grandes incêndios passados, quer o ao nível do seu desenvolvimento quer ao nível do comportamento extremo do fogo. Não confundir comportamentos convectivos isolados (que muitos combatentes já puderam assistir) com incêndios dominados pela convecção. Sem dúvida alguma, o grande inconveniente dos incêndios convectivos reside em que normalmente encontram-se fora de um limite máximo que permite a extinção, daí que dizemos que se encontra fora da capacidade de extinção. O ataque convencional suportado ou a chamada intervenção musculada pouco ou nada podem fazer para travar esta enorme manifestação de energia, cuja radiação não permite a proximidade à chama a dezenas de metros, bem como os grandes comprimentos de chama superiores a 15 metros, como se pode assistir no GIF de Pedrógão. Estes incêndios não se propagam de forma linear com frentes definidas que avançam, mas antes se propagam por impulsos, por saltos, alternando entre fases mais calmas e fases muito críticas, com propagação por projeções. Sendo muito complexo o seu controlo e este só ocorre nos momentos de inflexão do incêndio e de alteração sinóptica ou de mudança considerável do combustível e com base em método indireto rigorosamente planeado para um período avançado.

sábado, 24 de junho de 2017

A Origem do Grande Incêndio Florestal de Pedrógão Grande

Por: Emanuel de Oliveira

Muito se tem falado e especulado sobre a origem da ignição e a propagação inicial do Grande Incêndio Florestal de Pedrógão Grande. Uns procuram buscar respostas às inúmeras questões sobre o acontecido e, se de algum modo seria evitável o triste desfecho que vitimou mortalmente 64 pessoas e mais de duas centenas de feridos. Outros, porém, alimentados pelo mediatismo procuram fazer justiça na praça pública e inflamar a opinião dos cidadãos e, na maioria dos casos com um profundo desconhecimento do comportamento do fogo, em geral e, sobretudo sobre incêndios convectivos.

Aos olhos do analista, este incêndio tratou-se sem dúvida alguma de um incêndio inédito, dado o domínio de um comportamento convectivo, ou seja, um incêndio conduzido pelo estado fenológico e carga disponível do combustível, e associado a uma instabilidade atmosférica previsível que favorecia e sustentaria a coluna convectiva em caso de incêndio. Este tipo de incêndios, de comportamento extremo do fogo, origina consequentemente elevada complexidade nas operações de controlo e extinção. Não existem grandes receitas, a não ser a proteção de aglomerados. Por alguma razão, os analistas de incêndios americanos denominam de “Hungry Fires”, uma vez que terminam quando acabam com o combustível que os alimenta ou então a situação sinóptica muda e permite que os meios de combate possam exercer manobras eficazes e seguras.

Associado a este tipo de incêndio, ocorrem fenómenos meteorológicos que aumentam a complexidade do controlo, tais como a geração de ventos erráticos, normalmente soprando com intervalos de elevada intensidade e de direção variável. A coluna de fumo (pluma) rapidamente eleva-se verticalmente, sendo tridimensional e muito densa e escura, transportando material incandescente que não se apaga dada a temperatura dentro da coluna, permitindo o lançamento de projeções a longas distâncias e produzindo inúmeros focos secundários em várias direções no raio do incêndio.

ORIGEM PROVÁVEL

O Semanário Expresso de 23 de junho destaca a seguinte manchete «Daniel viu o fogo começar. Ligou para o 112 às 14h38. Tirou-lhe a primeira fotografia. “E não havia trovoada no ar”» e descreve o seguinte: «Daniel Saúde tirou a primeira fotografia ao incêndio 39 minutos depois de ligar para o 112. Diz que esteve uma semana à espera de ser contactado pela PJ - “afinal fui eu que liguei para o 112” - e que por isso vai ser ele agora a ligar à polícia. A história do momento zero do fogo em Pedrógão».

Fonte: http://www.weatherimagery.com
A partir daqui podemos começar a tentar explicar, fundamentando nos dados meteorológicos recolhidos.
Antes de mais importa referir que existem dois tipos de raios – raios negativos e raios positivos.
Normalmente, entre 90 a 95% dos raios são do tipo negativo.
Os raios negativos produzem-se quando a base da nuvem (parte mais escura) está carregada negativamente e a superfície do solo por baixo da nuvem tem uma carga positiva. Neste caso vai produzir-se uma descarga da base da nuvem para o solo.

Alguns raios – os positivos – formam-se no topo da nuvem, na parte branca do cúmulonimbos, onde se concentram as cargas positivas. Nesta situação ocorre uma transferência do topo da nuvem que alcança uma elevada altitude (14 kms) para o solo, sendo os mais perigosos uma vez que podem alcançar uma zona da superfície terrestre a longas distâncias do local da trovoada (10 - 16 kms) e, uma vez que a camada de atmosfera que atravessam é maior, a descarga elétrica pode ser até 10 vezes superior aos raios negativos. Igualmente, importa referir que o fenómeno de queda de raio sem se ouvir o trovão é definido como relâmpago térmico e ocorre com maior frequência no verão.

Fonte: http://teemss2.concord.org
Segundo a agência americana para a observação da atmosfera – NOAA – os raios positivos são considerados responsáveis por uma grande percentagem de incêndios florestais.
Logo, a afirmação de que não se ouviu qualquer trovão não significa que não tenha ocorrido uma descarga de raio positivo, pois a distância entre a trovoada e o local da descarga é de dezenas de quilómetros.

A imagem abaixo do Meteosat mostra a instabilidade às 14:00 UTC do dia 17 de junho, onde se pode verificar a formação de nuvens de evolução que dão origem a trovoadas na proximidade da zona do GIF de Pedrógão Grande.
Fonte: EUMETSAT
Considerando os registos meteorológicos do Meteosat referente à queda de raios, observamos que no dia 17 de junho de 2017, ocorreu precisamente na zona do incêndio, por volta das 1345 UTC, uma descarga de raio positivo. O horário registado pelo popular entrevistado pelo Semanário Expresso refere-se às 14:38, isto é 13:38 UTC +1, ou seja, muito próximo dos registos da agência EUMETSAT através do satélite Meteosat.
Fonte: https://www.lightningmaps.org

Fonte: https://www.lightningmaps.org

Sendo assim, a afirmação do Diretor da Polícia Judiciária com base em evidências físicas encontra-se bem fundamentada: «“A PJ, em perfeita articulação com a GNR, conseguiu determinar a origem do incêndio e tudo aponta muito claramente para que sejam causas naturais. Inclusivamente encontrámos a árvore que foi atingida por um raio”, disse Almeida Rodrigues.». Sendo um raio positivo, muito provavelmente não se tenha ouvido o trovão dada a distância à nuvem.

HORA DO ALERTA

Igualmente, segundo fontes oficiais e já divulgadas nos media pela ANPC, o Alerta foi dado às 14:43 (13:43 UTC +1), um tempo muito aproximado ao referido na informação relatada na referida notícia. Se observarmos os dados do sensor VIIRS a bordo do satélite Suomi-National Polar-orbiting Partnership (S-NPP), o qual permite a deteção de focos ativos a 375 metros de resolução espacial, este detetou às 13:42 UTC do dia 17 de junho um foco ativo muito próximo do local do ponto provável de início do incêndio.

Dado o estado fenológico e a disponibilidade de combustível, bem como as condições meteorológicas nesse período, o fogo facilmente se propagou, alcançando uma elevada intensidade e alta velocidade de propagação. Pelo que foi possível em poucos minutos ser detetado pelo sensor VIIRS. Importa referir que o desvio mais a norte do local do início provável de incêndio deve-se ao calor emanado na cabeça do incêndio e da própria coluna de fumo.

Considerando os dados de registos espaciais, estes permitem fundamentar as declarações das entidades oficiais, pelo que existem fortes evidências para a «tese meteorológica».