FOGOS FLORESTAIS

UMA ABORDAGEM OPERACIONAL, TÉCNICA E POLÍTICA

O FOGO

UM BOM CRIADO, UM MAU PATRÃO

FOGO CONTROLADO

UMA FERRAMENTA ESSENCIAL NA PREVENÇÃO DE INCÊNDIOS FLORESTAIS

INCÊNDIOS FLORESTAIS

NÃO SE PODE PROTEGER ALGO QUE NÃO SE VALORIZA

FORMAÇÃO E PROFISSIONALISMO

É ESSENCIAL TRABALHAR COM O FOGO PARA ENTENDER O SEU COMPORTAMENTO NO COMBATE

segunda-feira, 30 de julho de 2018

Vem aí a Primeira Onda de Calor de 2018

Elaborado por: Emanuel Oliveira

Nas últimas semanas vimos como o Norte da Europa atingia valores extremos, com temperaturas muito acima do normal para aquelas latitudes tão afastadas do Equador e tão próximas ao Ártico.

No dia 21 de julho a agência aeroespacial americana NASA publicava um artigo fazendo referência ao recorde de temperaturas registadas nos países do Círculo Polar Ártico, destacando-se 14 localidades da Noruega e do Norte da Finlândia com temperaturas de 33 ºC no dia 18 de julho. Devido às condições quentes e secas o risco de incêndio naqueles países aumentou drasticamente e atipicamente. Segundo o Serviço de Gestão de Emergências Copernycus, no dia 20 de julho a Suécia já registava mais de 10 mil hectares de área ardida, 24 vezes superior à área ardida acumulada entre 2008 e 2017.
Imagem 1 - Anomalia da Temperatura  na Superfície Terrestre. Fonte: NASA
Tal como nestes países, em outras regiões do globo, os termómetros dispararam, tais como o Canadá e na Sibéria onde a temperatura atingiu 8 ºC acima do normal da verificada em anteriores.
No dia 20 de julho a agência meteorológica europeia publicava no seu Twitter um mapa com a identificação de anomalias meteorológicas (Extreme Forecast Index - EFI) registadas entre 1 de junho e 18 de julho de 2018, onde se destaca as temperaturas excessivamente elevadas nos países escandinavos e no Reino Unido, Irlanda e França. Pelo contrário, os países ibéricos registavam temperaturas muito baixas para a época, principalmente no sul da Península.
Imagem 2 - Anomalias meteorológicas extremas (EFI). Fonte: ECMWF
No Japão, a cidade de Kumagaya, a norte de Tóquio atingiu no passado dia 23 de julho 41,1 ºC, a temperatura mais alta registada naquele país, derivado de um sistema anticiclónico persistente que dura há mais de 8 dias e, cujas temperaturas têm sido a causa de mais de 40 mortes e afetando milhares de pessoas que foram hospitalizadas com sintomas de insolação.

Segundo a NASA e a Agência Espacial Europeia estas ondas de calor desencadearam diversos grandes incêndios florestais nas regiões remotas do círculo polar ártico com consequências alarmantes. Segundo o meteorologista norte-americano Nicholas Humphrey em entrevista ao jornal espanhol El País, estes grandes incêndios provocaram o degelo no mar Laptev e do permafrost, o que levará a um incremento da libertação de CO2 para atmosfera.

Como pude afirmar na rede social Facebook no dia 22 de julho: «Não pensem que estas temperaturas tão elevadas nos países do círculo polar ártico não vão trazer consequências ao resto do mundo. É o "Efeito Borboleta" onde no planeta ninguém escapa!». Há uma semana que andamos a acompanhar a evolução sinóptica, no entanto sabemos que a dinâmica atmosférica que caracteriza o nosso país deixa-nos muitas vezes na incerteza das previsões.

Contudo, os vários modelos meteorológicos começam a ter cada vez mais uma maior solidez face à aproximação dos eventos atmosféricos previstos há 8 dias atrás, o que apontam para uma mudança repentina no verão que estavamos até agora a viver. Todos os modelos (o que é muitas vezes raro) coincidem para um aumento das temperaturas máximas e mínimas nos próximos dias, a partir do dia 1 de agosto, para todo o território ibérico, podendo-se prolongar por vários dias. O território será afetado por uma intensa advecção de sul, entrando ar muito quente e seco do Norte de África.
Imagem 3 - Carta de 850 hPa dos Modelos ARPEGE, ECMWF, GFS, GEM e JMA para o dia 01 de agosto, coincidindo com a entrada de ar quente sobre o território, cujas temperaturas a cerca de 1450 metros de altura (atmosfera) serão próximas a 30 ºC, o que siginifica que a temperatura à superfície será muito mais elevada, podendo ultrapassar os 45 ºC em algumas regiões da Península.
Muitas zonas da Península Ibérica, principalmente a Sul do Tejo, poderão registar temperaturas máximas superiores a 40 ºC e temperaturas mínimas entre 20 e 25 ºC, por outro lado teremos uma quebra acentuada da humidade relativa do ar para valores que rondarão no dia 2 de agosto 10% em grande parte do território nacional. Ao nível de incêndios, dadas as condições de humidade relativa e temperatura, o vento na região do Algarve apresentará valores superiores a 30 kph, podendo incrementar o risco de incêndios nesta região do país que se encontra dentro do potencial de retorno de grandes incêndios florestais.
Imagem 4 - Temperatura prevista para 2 de agosto segundo os principais modelos meteorológicos.
Imagem 5 - O Modelo ARPEGE descreve-nos para o dia 2 de agosto de 2018 uma quebra na HR para valores inferiores a 10% às 15 horas e ventos intensos na região do Algarve, podendo ultrapassar os 30 kph.
Com certeza, será a primeira onda de calor de 2018 a afetar grande parte do país, o que ainda não sabemos com total certeza neste momento é a sua duração. O modelo GFS aponta para um prolongamento da situação extrema até ao dia 7 de julho. O modelo ECMWF indica temperaturas a 850 hPa que podem ser superiores em 12 ºC no Noroeste Peninsular, o que na superfície terá os seus duros efeitos.
Imagem 6 - Evolução da temperatura a 850 hPa nos próximos dias. Modelo GFS
Imagem 7- Evolução da temperatura anómala a 850 hPa nos próximos dias. Modelo ECMWF HRES 0.1º
Não nos podemos esquecer, que apesar deste verão em Portugal, ser mais frio e mais húmido, na realidade não existiram precipitações significativas. Esta condição anómala, deveu-se sobretudo à deslocalização do anticiclone dos Açores para fora da sua região habitual neste período, permitindo a entrada de ar frio nas camadas altas da atmosfera e interferência das baixas pressões sobre o território, com particular incidência nas regiões do litoral e no Norte do país.
Imagem 8 - Gráfico dos dados de precipitação registados diariamente entre o dia 30 de junho e o 30 de julho na Estação Meteorológica do Monte Aloia - Tui (Galiza). Fonte: MeteoGalicia.
Note-se, em 30 dias a precipitação acumulada foi de 36 mm e os últimos dias registaram valores inferiores a 1 mm, tendo passados 24 dias desde a última precipitação.
Sendo assim, ainda que se registe nos primeiros dias de agosto um tempo mais seco e temperaturas extremas, os seus efeitos ao nível dos incêndios florestais, serão mais determinantes na generalidade do território nacional após alguns dias, caso a situação se mantenha ou não se registe precipitação (tal como se prevê e caso ocorra, poderá ser associada a episódios de trovoada). Isto significa que os primeiros dias serão para "preparar" os combustíveis de 1h, 10h e 100 h que ficarão muito mais suscetíveis ao fogo.

Saliento ainda que os combustíveis finos que predominam nas faixas de gestão de combustível executadas entre março e maio, serão os que se encontrarão mais disponíveis ao fogo, incrementando-se precisamente nessas zonas (junto à rede viária, aglomerados e edificações) o risco de ignição. Obviamente, face a estas condições para os próximos dias, o nível operacional de Alerta deverá elevar-se, não só pelo risco de incêndio mas também pela onda de calor que afectará a saúde pública na população mais vulnerável (crianças e idosos).

domingo, 18 de março de 2018

Um Reflexão sobre os Analistas de Incêndios Florestais

Elaborado por: Emanuel Oliveira

Os Grandes Incêndios Florestais (GIF’s) que afetaram em 2017 uma grande parte do território nacional, queimando cerca de 500 mil hectares, colocaram a nu o colapso de um sistema de extinção que se baseia quase exclusivamente na soma de meios e na baixa eficiência e onde a prevenção operacional (não confundir com estrutural) falhou rotundamente.
Foto 1 - Elemento do GAUF. Foto: E. Oliveira, 2010
O fatídico GIF de Pedrógão Grande e de Góis, dada a gravidade pela morte de civis levou à constituição da Comissão Técnica Independente. Sou obrigado a relembrar que as mortes por incêndios florestais não são um caso circunscrito a 2017, infelizmente tem sido recorrente, tal como os GIF’s e, envolvendo principalmente operacionais em combate. Sem querer reduzir a importância das diversas e essenciais recomendações da CTI, centremo-nos naquela que está relacionada com os analistas:

«As previsões meteorológicas a curto e médio prazo são bastante fiáveis, permitindo uma elevada antecipação da sua influência no comportamento do fogo. Os sistemas de informação geográfica e as facilidades de caraterização da ocupação do solo e de caraterização de risco estrutural permitem compreender e antecipar rapidamente a influência da orografia e dos combustíveis no comportamento do fogo. Existe tecnologia (de simulação espacial do fogo) que pode contribuir para aferir e predizer o comportamento do fogo e a propagação dos incêndios.

Adaptar a organização do Sistema e as intervenções às condições previstas e ao comportamento esperado do fogo, garantindo que:

O Sistema deverá ter a contribuição de colaboradores internos e/ou externos capazes de analisar as previsões e as condições presentes e futuras com influência na probabilidade e no comportamento do fogo;» Fonte: Relatório do Incêndio de Pedrógão Grande e de Góis; CTI 2017, pág. 158

É preciso recordar, aquilo que já referi em artigos anteriores, o combate aos incêndios florestais em Portugal é um combate tipicamente reativo, carecendo de análise prévia e de estratégias baseadas no comportamento do fogo presente e previsto, pelo que não é de admirar que os resultados, ano após ano, sejam mais graves, com áreas mais extensas e maior probabilidade de acidentes, apesar de mais meios e de encargos cada vez mais avultados com o dispositivo de combate.

Foto 2 - Reunião Nacional do Grupo de Análise e Uso do Fogo. Foto: E. Oliveira, 2010
Em relação à mediática defesa da CTI e de vários técnicos, onde me incluo, sobre a necessidade urgente de colocar analistas ao sistema, sou obrigado novamente a recordar que por volta do ano 2007, na sequência dos GIF’s de 2003 a 2005, em que o país se viu uma vez mais envolvido em chamas, se tentou integrar um grupo de técnicos para dar apoio à análise e ao uso do fogo nos grandes incêndios florestais. Foi criado o Grupo de Análise e Uso do Fogo (GAUF) sob a tutela da então Autoridade Florestal Nacional, porém não atuou mais do que 3 anos, devido à dificuldade de se integrar num sistema onde a análise era subvalorizada (ao contrário do amplo uso do fogo). Talvez, também tenha contribuído para o insucesso, o facto do GAUF ter sido criado num organismo que em Portugal não tem competências no combate desde a década de 80, pelo que terá sido assumido pelo "setor do combate" como um corpo estranho, logo os “anticorpos” da época não permitiram que o grupo de técnicos se mantivesse e nem souberam aproveitar o seu know-how e a possibilidade da sua integração na estrutura com competências na extinção dos incêndios florestais.

Agora, parece ter tido um déjà-vus e, voltamos novamente, a falar de analistas. Voltamos a querer integrar analistas num sistema que não tem entendido que o combate aos grandes incêndios não tem nada a ver com as pequenas ocorrências e que o combate reativo não se aplica nestas grandes ocorrências ou quando existe um elevado potencial destas ocorrerem. O ano 2017, só demonstrou o que tem vindo a ocorrer em anos anteriores (2016, 2013, 2010 e 2005, 2004 e 2003). Como dizem os colegas da Galiza: “os grandes incêndios florestais requerem mais intervenção com a cabeça do que músculo”, isto referindo-se à necessidade de análise! Por cá, caimos na ilusão do combate musculado!
Foto 3 - Helicóptero de Coordenação e Análise ao serviço da Xunta de Galicia com sistema de gravação de video e partilha em tempo real com o Posto de Comando. Foto: E. Oliveira 2017
Há muito que sabemos da importância do papel do analista no Teatro de Operações. Sim, sublinho e destaco o papel e missão e não um cargo ou lugar de analista, pois muitos acham que ser analista é mais um cargo dentro do vasto sistema hierárquico da maioria das unidades de combate. Se for um cargo, apenas incrementará maior entropia ao sistema.
Nesta altura do ano e após o que se passou em 2017, já deveríamos ter analistas a trabalhar para a campanha de incêndios que se avizinha. Note-se que não é com ações de formação e cursos à pressão que se produzem analistas de incêndios florestais e muito menos com nomeações para cargos, nem o papel do analista se resume ao uso de simuladores.
Foto 4 - Vista interior do Helicóptero, onde o Analista faz a recolha e tratamento da informação do incêndio em tempo real. Na Galiza dá-se uma destacada importância ao papel do analista de incêndios e às forças helitransportadas para um aumento da eficiência. Foto: E. Oliveira, 2017
Como já referi: Analista não constitui um cargo mas uma missão no apoio à tomada de decisão.

Em Portugal tem-se confundido a função do Analista de Incêndios Florestais e o próprio Despacho n.º 7511/2014, de 9 de junho, mesclando o papel de analista com o papel do uso do fogo de supressão, ou seja junta-se a análise com a manobra.

É preciso entender que existem dois níveis de análise e, como tal, dois papéis de analista:
  • Analista Estratégico
  • Analista Táctico ou Operacional
O Analista Estratégico trabalha, normalmente, fora do Teatro de Operações. A sua principal função centra-se no seguimento e monitorização diária antes, durante e pós-campanha de incêndios, desenvolvendo um conjunto de ações que vão desde a revisão meteorológica, monitorização das ocorrências, avaliação, simulação e modelação do comportamento e propagação do fogo, elaboração de relatórios e formação de operacionais, entre outras.
Foto 5 - Analistas Estratégicos do Departamento de Incêndios de Los Angeles (EUA). Fonte: US San Diego News Center
Por sua vez, o Analista Táctico ou Operacional tem um papel junto do Comando no Teatro de Operações, acompanhando e assessorando o COS, no desenho e implementação da estratégia, executando ações que vão desde a interpretação da informação do Analista Estratégico, recolha rigorosa de informação no terreno, elaboração do plano de ação tático e avaliação de manobras complexas de extinção, entre outras.
Foto 6 - Analista Tático obtendo dados meteorológicos no Teatro de Operações. Fonte: International Fire Fighter
O trabalho de análise requer total libertação de outras tarefas de direção do dispositivo de extinção e o tempo necessário para observação e avaliação da propagação dos incêndios ou na pré-ignição (prevenção estratégica). O analista deve ter experiência no terreno quer em incêndios quer no uso do fogo, ser um bom observador de incêndios, deve dominar as ferramentas de SIG, de detecção remota, de meteorologia de incêndios e obviamente, dominar o uso de simuladores. Os analistas não se produzem em cursos, fazem-se com experiência e formação contínua. É importante que o sistema de combate em Portugal integre analistas e aproveite a campanha que se avizinha para capacitar técnico-operacionais e se uniformizem conceitos e técnicas, bem como protocolos de atuação.

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segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

Reflexão II sobre as Faixas de Gestão de Combustível nas Edificações e Aglomerados Populacionais

Elaborado por: Emanuel Oliveira


Como já foi referido no artigo anterior, muitas são as dúvidas e controvérsias que marcam o início de uma Campanha de Prevenção de Incêndios, promovida pelo MAI, que se deseja exequível, operacional e eficiente.

O próprio sloganPortugal Sem Fogos” está algo desfasado da atualidade, quando existe em simultâneo a promoção do Programa Nacional de Fogo Controlado promovido pelo Governo e que visa a gestão de combustível com recurso ao fogo controlado. O slogan deveria de aludir a um “Portugal Sem Incêndios
Gestão de combustíveis num aglomerado com recurso a fogo controlado. Fonte: desconhecida
Afastando-nos destas questões técnicas mais específicas, devemos debruçar-nos novamente nas faixas de gestão de combustível ao redor dos aglomerados e das edificações, visto que se levantam inúmeras questões devido ao enfoque e abordagem da Campanha, principalmente na sua aplicação no terreno e na sua eficácia. Muitos proprietários estão a cortar tudo, inclusive espécies protegidas, como o sobreiro, a azinheira, bem como árvores frutais.
O ponto que levanta maior controvérsia é aplicação da alínea a) do ponto I do Decreto-Lei nº 10/2018 de 14 de fevereiro:

«a) No estrato arbóreo a distância entre as copas das árvores deve ser no mínimo de 10 m nos povoamentos de pinheiro bravo e eucalipto, devendo estar desramadas em 50 % da sua altura até que esta atinja os 8 m, altura a partir da qual a desramação deve alcançar no mínimo 4 m acima do solo;»
Edificado em espaço rural. Fonte: Jornal de Leiria
Na verdade, o pinheiro-bravo e o eucalipto são as espécies mais abundantes dos nossos povoamentos florestais produtivos, principalmente em monocultura, mas estas não constituem o modelo de combustível mais perigoso junto aos aglomerados e edificações. Normalmente, povoamentos produtivos geridos apresentam cargas de combustível muito menores quando comparados com modelos do grupo matos ou povoamentos regenerados sem gestão ou de reduzida gestão.
Por outro lado, quanto maior for a abertura de clareiras pela redução da densidade de copas, maior será a dificuldade de manutenção da faixa de gestão, onde passarão a dominar as herbáceas e os arbustos, os quais antes se encontravam limitados pelas sombras mais densas. No que respeita ao eucalipto, cuja copa está muito mais alta que o pinheiro e normalmente mais densa, dificilmente existe uma passagem para fogo de copas (no pinheiro é muito mais propensa). A abertura de clareiras poderá aumentar o risco de propagação por combustíveis de escada. Igualmente, o cumprimento à risca e cego destes critérios na faixa da rede vária, pela abertura de maiores clareiras, incrementará o risco de ignição devido a um aumento do combustível fino (que seca mais rápido) e a um aumento da velocidade de propagação dos incêndios, com um comportamento de fogo semelhante ao verificado nas faixas da rede elétrica em zonas de matos.
Faixa de gestão de combustível num aglomerado. Fonte: E. Oliveira, 2017
Recordo que a execução eficiente (custo vs benefício) das faixas de gestão de combustível deveria obedecer a um rigoroso trabalho de planeamento em complementaridade com outras ações orientadas à propagação de Grandes Incêndios Florestais, segundo o período de retorno (dos GIF’s), área ardida do último incêndio, média do número de ignições e causalidade e modelos de combustível. Igualmente, deveriam ser identificados nos aglomerados pontos de risco, tais como acumulação de combustível (lenhas, depósitos de gás e de gasóleo, fardos para alimentação do gado, etc) edificações em zonas de propagação de incêndios recorrentes, construções ilegais e/ou irregulares ou em zonas classificadas de perigosidade alta e muito alta e edificações isoladas em espaço florestal. Como já referi no artigo anterior, estas faixas não evitarão que as edificações sejam atingidas, quando a larga maioria das edificações afetadas em 2017 foi por efeito de projeções e não por impacto das chamas.

Esta opinião é meramente técnica e, vai ao encontro do identificado e descrito no Estudo “O GIF de Pedrógão Grande e concelhos limítrofes (2017)”, encomendado pelo Governo à equipa do CEIF-ADAI: «sobre as condições de ocorrência, início e propagação do incêndio, com particular enfase no estudo da sua propagação e na análise dos acidentes mortais, com o objetivo de suportar a tomada de decisões por parte das autoridades para se retirarem ensinamentos e se melhorar o sistema para o futuro». Sendo assim, destaco alguns factos bem detalhados pela equipa dirigida pelo Prof. Xavier Viegas:
Tipo de estrutura danificada por concelho.
Fonte: CEIF-ADAI; "O GIF de Pedrógão Grande e concelhos limítrofes (2017)"; pag. 170
«Apenas cerca 13% eram usadas como primeira habitação (130), sendo a maioria delas no concelho de Pedrógão Grande. Como habitação secundária identificámos 124 estruturas atingidas (11,9%). As estruturas mais danificadas foram sobretudo estruturas de apoio como barracões e arrumos (38,6%).» (pag. 170)
Grau de afetação em função do tipo de ignição da estrutura.
Fonte: CEIF-ADAI; "O GIF de Pedrógão Grande e concelhos limítrofes (2017)"; pag. 181
«Cerca de 61% das estruturas que foram danificadas pela passagem do incêndio foram-no devido à projeção de partículas incandescentes (fagulhas) oriundas do incêndio. Esta observação confirma o que foi dito anteriormente acerca destes mecanismos de ignição. As categorias “materiais a arder na imediação” e “estrutura contígua” podiam ainda acrescentar a este número, pois observámos que, na maioria dos casos, estes materiais e estas estruturas contíguas se incendiaram também por partículas. No entanto, a causa de ignição não foi diretamente a fagulha, mas sim o material que essa fagulha incendiou, que por sua vez fez incendiar a estrutura analisada. O impacto direto do fogo nas estruturas representou 21,3% do total.» (pag. 181)

Opção tomada perante o incêndio.
Fonte: CEIF-ADAI; "O GIF de Pedrógão Grande e concelhos limítrofes (2017)"; pag. 192
«Os dados obtidos comprovam que o desfecho foi muito pior no caso em que as pessoas tentaram fugir do incêndio. No total das seis aldeias, 97,6% das vítimas, correspondente a 41 pessoas, morreram ao tentar fugir de casa. Apenas uma (2,4%) morreu em casa, com as dificuldades já abordadas. Na realidade, no total das vítimas relacionadas com este incêndio, morreram mais 3 pessoas dentro de casa, conforme descrito no capítulo dos acidentes. Também elas tinham condicionantes à sua mobilidade e destreza.» (pag.192)

Neste sentido, resta-nos adequar a legislação e consequentemente a aplicação de medidas de prevenção e de resposta, de acordo com os estudos técnicos e relatórios elaborados, pois a partir destes documentos devemos de retirar lições que por sua vez, devem estar aprendidas, para que quadros semelhantes não voltem a repetir-se no nosso país num futuro próximo. Reitero, as faixas de gestão de combustível e estas regras não são solução para um problema que se agrava, fruto da desruralização e da renaturalização/assilvestramento.

sábado, 17 de fevereiro de 2018

Reflexão sobre as Faixas de Gestão de Combustível nas Edificações e Aglomerados Populacionais

Elaborado por: Emanuel Oliveira

Decorrente da Campanha de Prevenção de Incêndios promovida pelos Ministérios da Administração Interna e da Agricultura sobre a limpeza de terreno, muitas dúvidas e controvérsias se têm levantado.


Um facto novo é o MAI chamar para a sua tutela a prevenção estrutural, historicamente da competência dos Serviços Florestais integrados no Ministério da Agricultura. 

Igualmente, por iniciativa do MAI foram definidas zonas prioritárias de intervenção e de fiscalização, no que respeita à execução de faixas de gestão de combustível ao redor dos aglomerados populacionais e nas edificações integradas em espaços rurais.

Se por um lado, a Campanha suscita confusão, dando a entender que os proprietários dos terrenos confinantes a edificações ou dentro de faixas de proteção de aglomerados fiquem obrigados a eliminar todas as árvores. Por outro lado, no alvo da polémica, está a divergência de critérios para a gestão de combustíveis divulgados na referida Campanha, visto que na Lei n.º 76/2017 de 17 de agosto que altera o Sistema Nacional de Defesa da Floresta contra Incêndios, procedendo à quinta alteração ao Decreto-Lei n.º 124/2006, de 28 de junho, a distância entre copas das árvores, independentemente da espécie, deverá ser de 4 metros. No entanto, no entendimento do MAI, esta distância de 4 m parece ser escassa, pelo que seguidamente ao arranque da Campanha mandou publicar o Decreto-Lei nº 10/2018 de 14 de fevereiro que altera a distância entre copas das árvores para 10 metros, no caso de povoamentos de eucalipto e de pinheiro-bravo, mantendo-se 4 metros para as demais espécies. Ainda assim, o próprio folheto divulgativo da Campanha mantém a distância de 4 metros entre copas. 
Folheto divulgativo da campanha.
Parece que a diferenciação de distância entre copas segundo as espécies, com particular incidência sobre o eucalipto e o pinheiro-bravo, está envolvida de um certo receio em se repetir o sucedido nos incêndios de 2017 que levaram à destruição pelas chamas de centenas de habitações.

Tecnicamente dever-se-ia ter em conta o modelo de combustível ao redor das habitações e não a espécie ou espécies existentes. Será que as sebes de cupressus nos jardins ao redor das habitações são menos inflamáveis e menos perigosas para uma habitação que um povoamento de eucalipto e/ou pinheiro-bravo?
Edificação com a sebe totalmente queimada, assim como o jardim.
Incêndio Florestal de Ganfei (Valença) de 15 de outubro de 2017
Importa também referir que a maioria das habitações afetadas pelas chamas em 2017 resultaram de projeções dos inúmeros incêndios.

A execução das faixas ao redor das edificações e dos aglomerados reduz o risco de serem afetadas diretamente pelas chamas, mas não exclui a possibilidade de serem atingidas por projeções e, por consequência, arderem. É caso para se repensar nas regulamentos de construção e licenciamento de edificações em espaço rural, pois não basta salvaguardar medidas de gestão de combustível e de distanciamentos ao espaço florestal, quando as próprias casas foram construídas ou reabilitadas com materiais muito inflamáveis, muitas vezes para cumprir as normas de eficiência energética. Daí que hoje vemos casas nos espaços rurais com fachadas revestidas de capoto (revestimento em poliestireno), com placas de cobertura aligeiradas (com esferovite), coberturas ou isolamento subtelha de tela asfáltica, alpendres e inclusive construções em madeira e ostentosas sebes de cupressus, etc.. Levamos os processos construtivos tipicamente urbanos/citadinos para o meio rural com o objetivo de aumentar a comodidade, a estética e a eficiência energética, reduzindo assim a resistência das construções no meio rural em relação aos incêndios florestais.

Pormenor da propagação do Incêndio de Ganfei de 15 de outubro de 2017.
Fonte: Autor desconhecido/enviado por mensagem
O MAI definiu zonas prioritárias para a gestão dos combustíveis, vulgo “limpeza de terrenos”, tendo como alvo de atuação e fiscalização 1 049 freguesias. Cruzando a informação sobre a classificação das freguesias prioritárias para 2018 publicada pelo ICNF com os aglomerados classificados pela Carta de Ocupação do Solo de 2010 da Direção Geral do Território, serão objeto de intervenção e de fiscalização cerca de 18 155 aglomerados populacionais (11 737 com Prioridade I e 6 418 com Prioridade 2), destes 12 812 aglomerados distam cerca de 100 metros de povoamentos de eucalipto e de pinheiro-bravo.
Freguesias Prioritárias de acordo com o MAI (clique na imagem para aumentar)
Se analisarmos o potencial de retorno de incêndios florestais, considerando o período de análise de 1990 a 2017 (inclusive), podemos identificar que 6 361 aglomerados encontram-se em zonas com um alto potencial de sofrerem novamente, em 2018, a passagem de incêndios florestais históricos.
Se se proceder à execução das faixas de gestão de combustível, apenas ao redor dos aglomerados, a área total de intervenção é de 218 440 hectares, destes 4 370 hectares, correspondendo a 965 aglomerados, estão submetidos ao Regime Florestal, cuja execução é competência do Estado. De forma grosseira, considerando a execução de uma faixa de 100 metros, estamos a falar de um investimento próximo a 200 milhões de euros.
Freguesias Prioritárias de acordo com o MAI e Potencial de Retorno para 2018 (clique na imagem para aumentar)
Face ao descrito é impossível cumprir as metas estabelecidas pelo MAI (até ao dia 15 de março, no caso das faixas ao redor das edificações e até 30 de abril, no caso das faixas ao redor dos aglomerados), pelo que os municípios ver-se-ão forçados a substituírem os proprietários e gestores florestais, inclusive ao próprio Estado (como co-gestor dos baldios submetidos ao Regime Florestal) e sendo penalizados por não conseguirem executar as ditas faixas, da responsabilidade de outrem.
Aglomerados Prioritários de acordo com a classificação das Freguesias Prioritárias (clique na imagem para aumentar)
As faixas de gestão ao redor das edificações e dos aglomerados constituem uma medida importante com o objetivo de reduzir o impacto da propagação dos incêndios florestais, no entanto não serão suficientes. Uma paisagem cada vez mais homogénea ao nível dos modelos de combustível alimentará incêndios tão extensos e tão intensos de acordo com a extensão e o modelo de combustível dominante, independentemente da espécie florestal, pelo que as faixas secundárias de 50 ou 100 metros não evitarão que futuramente, as edificações sejam atingidas.


GIF de Monção (Portugal) - As Neves (Galiza) de 15 de outubro de 2017. Este incêndio teve uma propagação por projeções, tendo atravessado o rio Minho para o território da Galiza, pelo que nem o rio serviu de barreira de proteção e as inúmeras faúlhas originaram diversos focos secundários e tendo queimado no seu percurso cerca de duas dezenas de casasFonte: autor desconhecido



segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

Evolução da distribuição dos meios durante a Fase Charlie de 2017

No dia 15 de dezembro foi anunciado pelo Governo da Nação o fim das fases de combate aos incêndios florestais, o que é de saudar. Esperemos que o chamado “Período Crítico” tenha o mesmo fim!

No final do verão lançaram-se inúmeras críticas em relação à redução do número de operacionais após o dia 30 de setembro. Recorde-se que a “fase mais crítica” dos incêndios compreendia o período entre 1 de julho e 30 de setembro, quando se concentram a larga maioria de meios e recursos para o combate aos incêndios florestais, sendo este período historicamente o que concentra, igualmente, o maior número de ocorrências e de área ardida.
Video 1 - Evolução do furacão Ophelia no dia 15 de outubro, onde se observa o fumo dos incêndios Portugal e da Galiza. Fonte: NASA

Neste sentido, procurou-se compreender ao nível nacional como evoluiu a distribuição dos meios e recursos, bem como do número de ocorrências e da área ardida, no período compreendido entre 1 de julho a 30 de setembro e de 1 a 17 de outubro de 2017, ou seja, respetivamente, a referida Fase Charlie e o prolongamento do Período Crítico que culminou com o fatídico dia 15 de outubro.

Se observarmos os dados dos valores totais acumulados, destaca-se, como é historicamente habitual, o mês de agosto, concentrando o maior valor de área ardida e o maior número de ocorrências, bem como a maior concentração de meios e recursos. Seguidamente, encontra-se o curto período correspondente à primeira quinzena de outubro, o qual concentra a maior área ardida, 239 182 hectares (dados provisórios) devido essencialmente às condições atípicas verificadas no dia 15 de outubro, com a aproximação do furação Ophelia.
Quadro 1 - Valores Totais durante a Fase Charlie e a 1ª Quinzena de Outubro. (clicar na imagem para aumentar)
No entanto, se compararmos os valores diários médios da Fase Charlie com a primeira quinzena de outubro, verifica-se neste último período que se registou um maior número de ocorrências quando comparado com a fase mais crítica, reduzindo-se apenas praticamente para metade o número de meios e operacionais aéreos. Se fizermos uma distribuição média diária por cada mês, destaca-se que a quinzena de outubro apresenta um valor médio diário da área ardida 8,5 vezes superior à média diária da Fase Charlie.
Quadro 2 - Valores Médios durante a Fase Charlie e a 1ª Quinzena de Outubro. (clicar na imagem para aumentar)
Gráfico 1 - Distribuição do  número de operacionais e número de ocorrências (valores acumulados) durante a Fase Charlie e a 1ª Quinzena de Outubro. (clicar na imagem para aumentar)
Um dado relevante é que o número médio diário de operacionais e meios terrestres na quinzena de outubro foi superior ao valor médio registado no mês de agosto, o que significa que na prática não se efetivou uma redução do efetivo terrestre.

Gráfico 2 - Distribuição do  número de operacionais e da área ardida (valores acumulados) durante a Fase Charlie e a 1ª Quinzena de Outubro. (clicar na imagem para aumentar)
Outro dado significativo é que em termos médios diários, a Fase Charlie registou um número médio diário de operacionais terrestres (em ocorrências) de cerca de 1 650 elementos, existindo picos que concentraram um maior número e corresponde igualmente, aos dias com maior área ardida acumulada (ver Gráfico 2). Salienta-se que no total do efetivo, consideram-se todas as unidades envolvidas no combate e 1ª intervenção, isto é bombeiros voluntários, bombeiros profissionais (FEB e Municipais), GIPS-GNR, AFOCELCA, sapadores florestais, militares e outros.

Se por um lado, estes dados refletem, de modo aproximado, a distribuição dos meios na fase mais crítica de 2017, por outro permitem-nos estimar de forma mais eficiente os meios e recursos necessários para as próximas campanhas de incêndios, considerando as piores condições registadas neste ano.

sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

Os Grandes Incêndios de 2017 em Portugal eram previsíveis de ocorrer?

Elaborado por: Emanuel Oliveira

Talvez o título seja algo provocatório quando um amplo setor da população acredita que os incêndios sejam incidentes ou riscos impossíveis de prever. Efetivamente, a previsão de incêndios não é tarefa fácil, visto que estes dependem praticamente da ação humana, pelo que importa analisar com rigor as causas e as motivações que estão por detrás das ocorrências. Nunca sabemos onde poderá “rebentar” um incêndio, mas podemos avaliar as condições a médio e a curto prazo para identificarmos as áreas mais críticas e suscetíveis.

Obviamente, esta é também, uma função do analista estratégico de incêndios florestais – recolher e analisar dados que apoiem a tomada de decisão com fins a determinar condições de maior risco e a definir a alocação atempada de meios de prevenção operacional (vigilância) e de meios de supressão (equipas de 1ª intervenção e combate). Note-se que não falo de Período Crítico, pois tal período, aos poucos deixará de fazer sentido face às consequências das Mudanças Climáticas.

Hoje, temos acesso a uma rica informação do histórico dos incêndios de Portugal que apesar de requerer o seu tratamento prévio, com recurso a ferramentas tecnológicas de análise, permite-nos estudar e analisar como se manifestam os incêndios florestais no território.

Com recurso a essa informação que o ICNF nos disponibiliza gratuitamente, procura-se analisar a escala espaço-temporal em que os grandes incêndios florestais (GIF) se propagam na paisagem.
Sendo assim, para além de procurar identificar-se padrões típicos de propagação associados à meteorologia, ao relevo e obviamente às condições vegetativas dos complexos de combustível florestal, procurou-se identificar como estes se manifestam no espaço e no tempo, ou seja quantas vezes se repetem na paisagem e quando esta está em condições de receber um novo incêndio.

Segundo o último Relatório do ICNF (10º relatório provisório: 1 de janeiro a 31 outubro), das 16.981 ocorrências que se deram no território, 3.653 foram incêndios florestais, dentre os quais 214 foram GIF’s (incêndios com mais de 100 hectares) que consumiram 412 781 hectares de espaços florestais, cerca de 93% do total da área ardida no território nacional.
Figura 1 - Mapa do último incêndio no período de 1990 a 2016. Elaboração Própria. Fontes: ICNF (clique na imagem para ampliar)
O que se tem verificado é que a larga maioria dos GIF’s são incêndios recorrentes, isto é, o espaço percorrido pelos incêndios de 2017 já tinha sofrido com incêndios anteriores. Através da cartografia das áreas ardidas disponível, entre o período de 1990 a 2016, algumas áreas em 27 anos foram afetadas por incêndio 11 vezes. Destaca-se que grande parte dos GIF’s durante a sua recorrência têm vindo a apresentar perímetros semelhantes, porém na última década apresentam uma tendência para um aumento considerável da sua extensão, ou seja, os GIF’s recorrentes têm aumentado de dimensão. E porquê?

Várias são as razões, contudo a mais determinante terá a ver com o estado dos combustíveis quanto à carga disponível e a sua cobertura na paisagem. Sublinhe-se que quanto mais arde uma paisagem, menos interesse existe em investir nesse território, logo incrementa-se o estado de abandono, o que por sua vez conduz a um aumento da continuidade do combustível. É um ciclo perigoso que alimenta futuros incêndios cada vez maiores.
Figura 2 - Mapa de Potencial de Retorno para 2017 com base no período de 1990 a 2016. Elaboração Própria. Fontes: ICNF  (clique na imagem para ampliar)
Então, sempre poderemos prever os Grandes Incêndios Florestais? 

  • Se os incêndios se repetem ciclicamente num dado território, então estes apresentam uma determinada frequência e recorrência que poderão ajudar a estimar o potencial para voltarem a ocorrer nesse mesmo território. 
  • A distribuição e carga dos combustíveis numa determinada paisagem dão-nos indicadores do potencial para alimentar um GIF. 
  • Se conhecemos as condições vegetativas dos combustíveis podemos determinar a suscetibilidade para a propagação do fogo.
  • Igualmente, conhecer a meteorologia associada e a forma como se propagam na paisagem, ajudam à tomada de decisão quer no planeamento da prevenção quer numa situação de emergência.
  • Se se monitorizar a distribuição e densidade de ignições, mediante o recurso à potente ferramenta HeatMap, poderemos monitorizar o risco derivado da piroatividade.

Considerando estes pontos, pode-se dizer que existem condições para ajudar-nos a decidir na hora de estabelecermos um plano de prevenção operacional.

Um Exemplo Prático – os GIF’s de 2017 em Portugal
Figura 3 - Mapa do Potencial de Retorno 2017 e o GIF de Mação (Várzea dos Cavaleiros) de 23|07|2017 que consumiu 34 992 hectares. Elaboração Própria. Fontes: ICNF  (clique na imagem para ampliar)
Para analisarmos a situação de 2017, estimou-se o período de retorno e interpolou-se com última vez que um determinado espaço ardeu e assim, podermos estimar o potencial dos incêndios recorrentes (históricos) voltarem a repetir-se num determinado ano num dado território. O resultado foi um mapa que procura identificar áreas com potencial de retorno, o qual foi classificado em 5 classes, tendo em linha de conta a última vez que ardeu e a recorrência. Por exemplo, se um território apresenta uma recorrência de 7 anos e ocorreu um incêndio no último ano, obviamente que no ano seguinte dificilmente voltará a arder, mas se pelo contrário, esse território já não arde há mais de 12 anos, então existe um incremento da carga de combustível, apresentando condições para voltar a arder.

Obviamente, uma ajuda crucial para a prevenção é cruzar o mapa de retorno potencial com o mapa de densidade de ignições do ICNF (de Rui Almeida) para se monitorizar o risco potencial de (rec)ocorrência. Igualmente, para que a análise seja mais rigorosa importa avaliar também o estado fenológico dos combustíveis. Entre os inúmeros casos de GIF's que ocorreram em 2017, as Figuras 4 e 5 referentes aos GIF's de Alijó e de Covilhã, procuram demonstrar o risco do território a incêndios recorrentes e como podemos monitorizar este risco.
Figura 4 - Mapa do Potencial de Retorno 2017 e o GIF de Alijó de 16|07|2017 que consumiu 4 684 hectares. Elaboração Própria. Fontes: ICNF; NOAA  (clique na imagem para ampliar)
Analisando na generalidade os incêndios de 2017, estes consumiram área de incêndios recorrentes com os 3 níveis mais altos, ou seja com um intervalo de recorrência entre 5, 10 e mais de 15 anos e cuja área ardida pela última vez ocorreu no mínimo entre 5 e 10 anos.

Dos 441 418 hectares da área ardida total, 66% ocorreu em espaços percorridos por incêndios passados (recorrentes). Do total da área ardida, 58% apresentava alto a máximo potencial de um incêndio voltar a ocorrer. A restante área (cerca de 34%) sem recorrência resultou da expansão da área ardida dos GIF’s, o que demonstra a tendência de crescimento dos GIF’s recorrentes.
Figura 5 - Mapa do Potencial de Retorno 2017 e o GIF de Covilhã (Rochoso - Seixo Amarelo) de 27|08|2017 que consumiu 10 836 hectares. Elaboração Própria. Fontes: ICNF; NOAA  (clique na imagem para ampliar)
Em termos gerais, em 2017, do total do território com potencial de recorrência apenas foram consumidos pelas chamas cerca de 16% dos espaços classificados com os níveis mais elevados (aproximadamente 1,5 milhões de hectares).
Figura 6 - Mapa de Potencial de Retorno para 2018 com base no período de 1990 a 2017. Elaboração Própria. Fontes: ICNF (com dados provisórios de 2017)  (clique na imagem para ampliar)
Para 2018 existe um potencial de retorno nos níveis mais altos (Alto, Muito Alto e Máximo) para cerca de 1,4 milhões de hectares do território nacional, incidindo sobretudo nas Serras Algarvias que apresentam um potencial alto a muito alto de voltarem a ser percorridas por GIF’s, bem como em várias zonas da Região Centro e de forma dispersa na Região Norte, muito particularmente nos distritos de Vila Real e Bragança. Mais uma vez recordo que a ocorrência de GIF’s recorrentes irá depender da meteorologia, do estado fenológico dos combustíveis e da densidade de ignições.

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Análise aos Grandes Incêndios Florestais - Pedem-se “Cabeças” e não Mudanças

Por: Emanuel de Oliveira

Desde o Grande Incêndio de Pedrógão Grande temos assistido através de vários intervenientes nos media para um sem fim de julgamentos públicos e de pedidos de “cabeças” e lançar suspeições sobre tudo e sobre todos, inclusive culpabilizar o eucalipto, o vento, o SIRESP, o raio, etc. Ao analisarmos esta posição e atitude logo ao início de uma campanha de incêndios se denota, por um lado, uma vontade precipitada envolvida em algum perigoso oportunismo, de julgar quem assume a difícil responsabilidade nos mais diversos patamares do sistema de resposta à emergência. No entanto, tais julgamentos públicos e apontar de dedos mais contribuem para a descredibilização do sistema e de todos os organismos e operacionais que o compõem e, colocam em causa a resposta pela desconfiança, pela desmotivação e perda de autoridade necessária em momentos tão críticos, principalmente em início de uma campanha que já se previa que seria muito difícil.
Foto 1 - Os jornais testemunham o "ambiente político" de fogo no início da campanha de incêndios
Fonte: Sapo24 de 29 de julho de 2017
Para agravar o conjunto de condições naturais que favorecem os grandes incêndios estão os comportamentos humanos e um clima de desconfiança nas autoridades e nas demais entidades, não abona para a melhoria da resposta. Imagine-se um país em guerra em que os políticos não apoiem as suas forças armadas e criem um clima de desconfiança entre as diversas forças envolvidas e os seus generais, dificilmente venceriam uma batalha. No sentido mais figurado, uma campanha de incêndios constitui uma “guerra” que se repete anualmente e, os Grandes Incêndios Florestais são batalhas que implicam um “exército” de combatentes devidamente formados, preparados, experientes, apetrechados e nas melhores condições físicas para o combate, bem como a exigência de uma coordenação experiente, com meios e recursos e alicerçada em bases de apoio à tomada de decisão.

Temos vindo a encarar os Grandes Incêndios Florestais com uma receita que se encontra completamente esgotada, a qual baseou-se nos últimos anos exclusivamente numa aposta de aquisição de meios e mais meios. Daí que não nos admiremos quando alguém coloca em causa a resposta da emergência porque considera que faltaram meios numa determinada ocorrência. Muitos são aqueles que atualmente julgam a coordenação dos últimos GIF’s pela falta de meios, porém quando olhamos aos inúmeros meios e recursos implicados nos teatros de operações, constata-se que face aos perímetros alcançados pelos incêndios, tais meios e recursos não impediram a extensão da propagação. Se compararmos os atuais GIF’s com os perímetros potenciais dos simuladores com fogo em propagação livre (sem combate) e com os incêndios passados (na maioria há 15 anos atrás) onde participaram menos meios e recursos, os perímetros atuais foram muito maiores, mesmo com a imensidão de recursos e melhores meios implicados no combate.

Mais do que pedir “cabeças” importa refletir ao final da campanha e avaliar a resposta do atual sistema em relação aos Grandes Incêndios Florestais e muito provavelmente mudar de rumo.

Convém salientar que o Sistema de Proteção Civil melhorou imenso nos últimos 15 anos, os agentes que o compõem e o sustentam formaram-se e apetrecharam-se, mas baseados numa “estratégia” onde historicamente a resposta aos incêndios florestais é reativa e, como tal, a atuação tem por base padrões de causa e efeito, logo sustenta-se no número de meios e recursos para o combate. No entanto, os padrões dos Grandes Incêndios Florestais implicam mudanças no sistema de combate, o que implica por sua vez mudanças radicais no Dispositivo de Extinção, pois este deve assumir-se como tal – Dispositivo Especial de Combate a Incêndios Florestais – ou seja, é essencial estar focado na extinção do fogo florestal, para além da proteção civil e das atuações nas zonas de interface urbano-florestal que deveriam ser assumidas por equipas distintas. No entanto, podemos constatar que enquanto o fogo lavra praticamente sem combate e se estende no espaço florestal, os meios de extinção se concentram nas zonas de interface, protegendo bens e vidas.
Foto 2 - Meios aéreos  pesados em ação
Fonte: M80 de 25 de julho de 2017
Fala-se e exige-se a necessidade de mais meios aéreos, mas os meios aéreos por si só não são eficientes sem o devido apoio em número suficiente de equipas devidamente preparadas para apoio à supressão do fogo durante as descargas, o que obriga a um aumento do efetivo de equipas helitransportadas e de equipas profissionais terrestres. Igualmente, seria importante integrar como foi no passado, as descargas aéreas com agentes retardantes (por ex. º biofosfato) em zonas de alto risco e estratégicas para o controlo.

Foto 3 - Podemos identificar nesta foto o correto e o incorreto no combate.
Fonte: Sapo24 de 25 de julho de 2017
Por outro lado, vários são aqueles que julgam a coordenação com base nos meios terrestres envolvidos, considerados poucos, mesmo que se encontrem perto de um milhar num único teatro de operações, como o caso de alguns GIF’s deste ano. No entanto, é preciso recordar que o nosso sistema de combate terrestre assenta sobretudo num modelo de extinção de reação fogo-água, apoiando-se em meios, até onde o veículo com água alcança. Na realidade o trabalho de combate florestal é muito residual, daí explicar-se a dimensão dos incêndios. Quando falo de trabalho de combate florestal, falo de, entre outras ações, de combate apeado com ferramentas, de uso de vias de comunicação como pontos de ancoragem para a execução de linhas de defesa e não como “vias de espera” ao fogo, execução de linhas de dois pés, eliminação de bolsas de combustível, manobras noturnas e ações antecipadas de combate nos pontos estratégicos de gestão (multipropagação).
Foto - Equipas Helitransportadas privadas da AFOCELCA. 
Fonte: Notícias ao Minuto/Global Imagens de 26 de julho de 2017
Enfim, mais do que exigir um “rolar de cabeças”, pois esse é o caminho mais fácil, os políticos locais e nacionais deveriam de exigir sim, uma mudança do sistema de combate e terem a coragem de produzir essa mudança. Esta mudança exige a profissionalização de equipas especializadas e dedicadas exclusivamente ao combate a incêndios florestais, à semelhança do que existe nos restantes Estados Membros da UE e nos países desenvolvidos onde os grandes incêndios são um risco presente. Recorde-se que sendo Portugal um país atlântico do Sul da Europa, com uma dimensão menor conseguiu, mais uma vez, apresentar este ano valores de área ardida superiores à soma dos totais de Espanha e de Itália, países muito maiores com características de despovoamento, assilvestramento e homogeneização de paisagens semelhantes às de Portugal, no entanto como um clima mais árido (essencialmente mediterrânico). Daí que poderemos dizer que o problema reside em todo o Sistema de Combate, nos seus diversos níveis, pois aqueles países à semelhança de muitos outros, profissionalizaram-se na área da extinção dos incêndios florestais e Portugal fez e mantém o caminho oposto.