As queimas e queimadas. Serão a principal causa de incêndios florestais?

Elaborado por: Emanuel Oliveira Existe uma percepção generalizada, principalmente de uma população cada vez mais urbana que não ente...

Elaborado por: Emanuel Oliveira


Existe uma percepção generalizada, principalmente de uma população cada vez mais urbana que não entende o uso tradicional e ancestral do fogo. Uma população urbana afastada geograficamente e proporcionalmente da realidade rural, dos seus modos de vida e práticas, dos seus costumes e tradições, do modo de ocupação e uso do solo e, normalmente, entende esse uso como algo prejudicial e o grande responsável pelos incêndios florestais e os seus impactos no meio ambiente. Esta visão é mais uma manifestação da cultura “ecourbana” que prolifera nos crescentes grandes centros urbanos e onde se tomam as decisões para um meio rural cada vez mais despovoado e envelhecido. Decisões estas que se tomam para e pelas populações rurais, sem estas serem ouvidas e integradas nos processos. Decisões estas que com força de lei, normalmente alteram negativamente o modo de vida rural, pois não são acompanhadas de medidas e ações práticas e materializáveis no terreno com vista a dar resposta às necessidades das populações rurais. Decisões estas que são tomadas e estabelecidas por aqueles que, na larga maioria, não vivem no meio rural, não são proprietários florestais ou agrícolas e não dependem economicamente e financeiramente de atividades desenvolvidas nesse meio.

O uso tradicional do fogo é, pois, também visto sem qualquer base sustentável como o grande mal dos incêndios florestais. É certo que face às atuais mudanças no meio rural, o envelhecimento da sua população, o despovoamento e consequentemente, o assilvestramento do território, associado a um quadro de mudanças climáticas, aumentam o risco de incêndios florestais e de incidentes, pelo que o uso do fogo implica condicionantes e respostas operacionais às necessidades da sua população. No entanto, as limitações e o forte condicionamento do uso do fogo, a “perseguição” legal para quem faz queimas de amontoados, queimas de sobrantes, ou as fogueiras de toda a vida, assim como as queimadas pastoris, podem estar a contribuir para um adiamento de um problema maior.

O uso tradicional do fogo para eliminação de combustível cortado e amontoado (restos de podas, resíduos das culturas agrícolas e florestais - queimas), bem como o uso do fogo para a renovação de pastagens (queimadas) é praticado pelas comunidades rurais há várias gerações, desde a origem do Homem. Este uso permitiu ao longo do tempo gerir a paisagem e proceder à governança do risco, de acordo com as necessidades das populações. A perda de população e o seu envelhecimento, levou a uma redução do seu papel como gestores e modeladores da paisagem. Para uma população cada vez menor e quase a desaparecer em vários pontos do país, com inúmeras condicionantes, mais limitações às práticas tradicionais apenas vão conduzir para fomentar o abandono do território e aumentar o uso ilegal do fogo e consequente incremento risco.

Afinal, são as queimas de amontoados e as queimadas as principais causas pelo elevado número de incêndios florestais e pelo aumento da área ardida em Portugal?
Gráfico 1 - Média anual da área ardida por uso tradicional do fogo entre 2001 - 2017. Fonte: ICNF


Analisando os dados do Sistema de Gestão de Informação de Incêndios Florestais (SGIF) entre o período de 2001 e 2017 e centrando-nos apenas nos registos referentes ao uso do fogo tradicional verifica-se que 10,3 % do total do número de ocorrências (mais de 420 mil ocorrências entre 2001 e 2017) estão associadas a causas como fogueiras (queimas de amontoados/queimas de sobrantes) e queimadas. O uso tradicional do fogo é responsável por 10,8 % da área total ardida em 17 anos (o que corresponde a cerca de 290 mil hectares dos mais de 2,5 milhões de hectares de área total ardida).
Se diferenciarmos as causas de uso tradicional do fogo, verifica-se que as queimas de amontoados (fogueiras) apenas representam 1,3% do total de ocorrências do período de análise, contribuindo para uma média anual de 620 hectares, o que corresponde a cerca de 0,4% do total da área ardida acumulada. Enquanto que as queimadas representam 9,0% do total de ocorrências e contribuem para uma média anual de 16 438 hectares, correspondendo a cerca de 10,4% do total da área ardida acumulada.

Se atendermos à época de maior concentração do número de ocorrências e de área ardida, coincidente com o definido Período Crítico, isto é, entre 01 de julho e 30 de setembro, verifica-se que apenas 0,8% das ocorrências tiveram origem em queimas de amontoados ou sobrantes e 3,3% do total de ocorrências tiveram origem em queimadas. Quanto ao contributo destas causas para a área ardida total verificada entre 2001 e 2017, a área ardida resultante de queimas/fogueiras foi de 0,3% e de 6,7% a área ardida resultante de queimadas durante aqueles 3 meses de verão.
Gráfico 2 - Distribuição média mensal do número de ocorrências e de área ardidas por uso tradicional do fogo entre 2001 e 2017. Fonte: ICNF

Estes dados permitem perceber que focar exclusivamente nas queimas de amontoados e sobrantes e nas queimadas, poderá subvalorizar as demais causas, tais como aquelas com origem:
  • Incendiarismo que correspondem a 7,9% do total de ocorrências e que contribuem para cerca de 24% da área ardida;
  • Reacendimentos que correspondem a 4,3% do total de ocorrências e contribuem para mais de 5% da área total ardida;
  • Acidental (rede elétrica, maquinaria, linha férrea, etc.) que correspondem a cerca de 2,1% do total de ocorrências, mas são responsáveis por cerca de 9% da área ardida total.
Legislar sobre as queimas de amontoados e sobrantes é fácil, no entanto as fogueiras de toda a vida não são efetivamente a causa principal de incêndios florestais, porém devem ser condicionadas nos períodos de maior risco e de acordo com a distância ao espaço florestal.

Quanto às queimadas, há que entender que a limitação já existe há várias décadas, no entanto as limitações, a fiscalização cada vez mais rigorosa e a falta de resposta da administração pública às necessidades das populações tem conduzido às seguintes situações:
  1. Abandono total do uso do fogo e aumento da carga de combustível;
  2. Utilização ilegal do fogo nos períodos de menor risco (outono-inverno-primavera) e não acompanhamento da queimada, deixando-a autoextinguir-se. Note-se que estas queimadas normalmente apresentam baixa severidade e o fogo tem uma intensidade baixa.
  3. Recurso ao fogo ilegal em pleno período de risco para rápidas propagações e aumento de áreas, confiando que o dispositivo de extinção responderá e controlará a propagação.
Legislar excessivamente e burocratizar o uso do fogo tradicional, sem uma resposta prática às necessidades das comunidades rurais ou afastada da realidade local, poderá levar a que o risco de incêndios seja cada vez maior.
Figura 1 - Diário de Viseu com destaque a um incidente referente a uma queima no concelho de Carregal do Sal
Por outro lado, importa perceber que a principal razão, como já foi referida é o envelhecimento da população rural, sem a esperança de sucessão para uma geração mais jovem do conhecimento, dos usos e práticas que moldaram e cuidaram da paisagem.
O número de incidentes com o uso do fogo tradicional entre 01 de janeiro de 2018 e 31 de janeiro de 2019 ( tendo unicamente por base a recolha de informação de jornais locais e nacionais) permitem comprovar que as queimas de sobrantes resultaram num total de 25 incidentes, dos quais 16 mortes, 5 feridos e 4 pequenos incêndios (fogachos), maioritariamente, cerca de 80% de indivíduos com idades superiores a 70 anos e em localidades com baixa densidade populacional e elevados índices de envelhecimento.
Figura 2 - Mapa com a localização aproximada de incidentes com queimas de amontoados. Fonte: Informação recolhida de jornais locais e nacionais; INE (Censos 2011); DGT
O futuro panorama dos territórios rurais está distante de uma recuperação, tão distante quanto as medidas para contribuir para uma mudança positiva. Na próxima década o envelhecimento da população, a reduzida taxa de natalidade, o despovoamento vão incrementar-se, logo os poucos "velhos" que hoje cuidam da paisagem já não estarão, pelo que o território estará destinado ao assilvestramento sem controlo, num quadro de mudanças climáticas para que os incêndios sejam extremamente intensos e complexos.

Os grandes incêndios florestais não se resolvem apenas com legislação com atuação à microescala, à escala do cidadão, quer na limitação do uso do fogo tradicional quer nas medidas de autodefesa (as faixas de gestão de combustível ao redor dos edifícios).

COMMENTS

Blogger TemplatesMy Blogger TricksAll Blogger Tricks
Nome

ltr
item
Fogos Florestais: As queimas e queimadas. Serão a principal causa de incêndios florestais?
As queimas e queimadas. Serão a principal causa de incêndios florestais?
https://1.bp.blogspot.com/-i5O8PosmLqM/XFbWabSzcUI/AAAAAAAABu8/pBjti2g211MwtcVwSdId1eLRuamnqdw-QCLcBGAs/s640/Queimas_Alto%2BMinho_03012019.jpg
https://1.bp.blogspot.com/-i5O8PosmLqM/XFbWabSzcUI/AAAAAAAABu8/pBjti2g211MwtcVwSdId1eLRuamnqdw-QCLcBGAs/s72-c/Queimas_Alto%2BMinho_03012019.jpg
Fogos Florestais
http://www.fogosflorestais.pt/2019/02/as-queimas-e-queimadas-serao-principal.html
http://www.fogosflorestais.pt/
http://www.fogosflorestais.pt/
http://www.fogosflorestais.pt/2019/02/as-queimas-e-queimadas-serao-principal.html
true
6556109416670895325
UTF-8
Loaded All Posts Not found any posts VIEW ALL Readmore Reply Cancel reply Delete By Home PAGES POSTS View All RECOMMENDED FOR YOU LABEL ARCHIVE SEARCH ALL POSTS Not found any post match with your request Back Home Sunday Monday Tuesday Wednesday Thursday Friday Saturday Sun Mon Tue Wed Thu Fri Sat January February March April May June July August September October November December Jan Feb Mar Apr May Jun Jul Aug Sep Oct Nov Dec just now 1 minute ago $$1$$ minutes ago 1 hour ago $$1$$ hours ago Yesterday $$1$$ days ago $$1$$ weeks ago more than 5 weeks ago Followers Follow THIS PREMIUM CONTENT IS LOCKED STEP 1: Share to a social network STEP 2: Click the link on your social network Copy All Code Select All Code All codes were copied to your clipboard Can not copy the codes / texts, please press [CTRL]+[C] (or CMD+C with Mac) to copy Table of Content