FOGOS FLORESTAIS

UMA ABORDAGEM OPERACIONAL, TÉCNICA E POLÍTICA

O FOGO

UM BOM CRIADO, UM MAU PATRÃO

FOGO CONTROLADO

UMA FERRAMENTA ESSENCIAL NA PREVENÇÃO DE INCÊNDIOS FLORESTAIS

INCÊNDIOS FLORESTAIS

NÃO SE PODE PROTEGER ALGO QUE NÃO SE VALORIZA

FORMAÇÃO E PROFISSIONALISMO

É ESSENCIAL TRABALHAR COM O FOGO PARA ENTENDER O SEU COMPORTAMENTO NO COMBATE

quarta-feira, 30 de março de 2016

Os Incêndios Florestais face à Mudança Climática

Traduzido por: Emanuel de Oliveira
Fonte: Ministerio de Agricultura, Alimentación 
y Medio Ambiente (MAGRAMA) 


No âmbito do PNACC - Plan Nacional de Adaptación al Cambio Climático (Plano Nacional de Adaptação à Mudança Climática) foi elaborado pelo Ministerio de Agricultura, Alimentación y Medio Ambiente (MAGRAMA) de Espanha o Relatório de Avaliação do estado da Floresta do território espanhol cujo título é - Los bosques y la biodiversidad frente al cambio climático: Impactos, Vulnerabilidad y Adaptación en España – face à proximidade e semelhanças com Portugal aconselha-se a sua atenta leitura. No entanto, seguidamente destacar-se-á de forma sintética o que neste relatório se refere à questão dos incêndios florestais em Espanha face à mudança climática. Dadas as similitudes físicas e ambientais do território, constitui uma chamada de atenção séria para as políticas de prevenção e de gestão seguidas atualmente em Portugal.

  • Os incêndios florestais afetam todo o território, pelo que a gestão e conservação dos ecossistemas terrestres requer ir mais além da prevenção e integrar a ecologia dos ecossistemas em relação ao fogo.
  • A mudança climática incrementará a frequência das situações de maior perigo, assim como a época de incêndios. Até meados do século a mudança climática projetada é pouco variável e independente das emissões dos Gases de Efeito Estufa (GEE). Logo, a planificação futura deve basear-se no clima projetado e não no passado.
  • A gestão deve fazer-se por objetivos específicos, incluindo a diminuição de perigosidade, a manutenção ou melhoria dos serviços ecossistémicos ou a resiliência dos ecossistemas ao fogo ou outros fenómenos extremos. A gestão deve contemplar o uso do fogo prescrito/fogo controlado.
  • Os incêndios concentram-se em algumas zonas. Necessita-se de uma cartografia histórica dos incêndios para poder antecipar-se aos impactos mais indesejados. Há que planificar com especial atenção o interface urbano-florestal.
  • Os cenários dinâmicos de perigo futuro previstos neste Relatório, considerando 5 modelos regionais interrelacionados a dois modelos globais (ensembles), revela de forma inequívoca uma tendência para o aumento do perigo potencial de incêndios na Península Ibérica, em particular um incremento no Norte.
  • O documento, igualmente alerta para a mudança da dinâmica espacial e o risco potencial de incêndios agregado ao processo de renaturalização pelo abandono das atividades tradicionais e o despovoamento. Chamando também a atenção para o incremento da perigosidade provocada pela mudança climática que pode acelerar mudanças na natureza dos combustíveis, sobretudo como consequência da mortalidade vegetal em espécies vulneráveis. Aqui também podemos agregar a substituição de espécies pelo incremento e rápida expansão de espécies pirófitas.

Foto 1 - Incêndio no Estado de Kansas (EUA), Março 2016. Fonte: http://www.kwch.com

Recomendações para a adaptação

Os incêndios florestais distribuem-se por toda a geografia do território, consequentemente não é possível gerir este e os seus ecossistemas terrestres, tanto em zonas protegidas como em zonas sem proteger, sem ter em conta o papel do fogo. A gestão florestal deve ter em consideração o risco atual e futuro e incluir a prevenção nas suas estratégias de desenvolvimento técnico, assim como as anteriores consequências de um incêndio, incluindo a restauração pós-incêndio, dado o enorme dinamismo das zonas queimadas.

A mudança climática traz consigo um incremento do perigo meteorológico médio assim como das situações extremas. Outras mudanças relacionadas com o clima ou a sócioeconomia podem contribuir também para aumentar a perigosidade do território. Os sistemas de combate aos incêndios devem estar preparados para fazer frente a situações adversas mais frequentes que podem desencadear incêndios múltiplos e simultâneos, distribuídos por amplas zonas do território ibérico.

Diferenciar os objetivos da gestão e incorporar a ecologia do fogo para além da prevenção é importante face a um futuro de maior perigo. Há que diferenciar a proteção dos ativos humanos, do interesse económico ou de outro tipo, face aos ambientais de forma explícita, pois a consecução de ambos pode ser contraditória. O fogo como aliado da gestão pode ter lugar, particularmente nos ativos ambientais. Apagar qualquer fogo a qualquer custo pode não ser possível ou rentável (eficiência), inclusive desde o ponto de vista ecológico.

Planificar e prevenir pensando no futuro, com condições diferentes às de ontem é um imperativo. Repetir para a manhã o passado pode ser um erro pois as condições serão diferentes. Isto requer usar ferramentas novas, usando cenários que não se deram necessariamente no passado. Num futuro próximo (até meados do século) a mudança climática que se projeta é bastante independente dos cenários de emissões futuras. Portanto podemos considerar como certo e usar as ferramentas de projeção climática existentes, tanto dinâmicas como estatísticas para os cálculos de perigo futuro e outras ações preventivas.

Os incêndios tendem a repetir-se em certas zonas, consequentemente os impactos não são homogéneos. Antecipar-se aos mais indesejados requer conhecer quais são as zonas mais criticas e planificar as possíveis respostas com antecipação. Para saber isto, a estatística não é suficiente. Há que ter bases de dados que permitam saber onde ocorreram os incêndios de forma espacialmente explícita. Precisam-se de bases de dados cartográficas do passado que permitam conhecer quais são os pontos de maior risco no caso de ocorrência de um novo incêndio.

As zonas de contacto entre o espaço florestal e urbano (ZIUF) constituem o maior problema de proteção civil provocado pelos incêndios. Ainda que exista legislação específica para a proteção do interface urbano-florestal, devem-se buscar formulas que melhorem a eficácia no cumprimento da mesma e incorporar o risco de incêndio na planificação de todo o desenvolvimento urbanístico no contacto com o meio florestal.

A elaboração deste relatório levou-se a cabo através de um amplo processo participativo que implicou inúmeros investigadores e especialistas nacionais e internacionais de diferentes administrações, universidades, centros de investigação e outras organizações. A representatividade deste processo participativo é constatada nos seguintes dados do MAGRAMA:
Um total de 140 autores oriundos de: 13 comunidades autónomas de Espanha, 12 países, um total de 17 universidades nacionais e 18 internacionais, 1 centro de educação e formação profissional, 6 unidades do MAGRAMA, 5 unidades de 5 governos autónomos e 3 organizações não-governamentais.

terça-feira, 1 de março de 2016

Nova CORINE Land Cover - CLC 2012

Já se encontra disponível, porém não validada a CORINE Land Cover 2012.

A CLC 2012 resulta do quarto inventário da CORINE Land Cover que levou 3 anos para finalizar. Tendo sido utilizada para a sua execução uma dupla cobertura de imagens satélite. A atual versão 2012 é a v.18.4, que abrange 37 países completos e parte de Espanha e da Turquia.

A Unidade Mínima de Mapeamento (UMM) para a CLC é de 25 hectares para os fenómenos de área e 100 metros para os fenómenos lineares. As séries temporais (1990, 2000, 2006 e 2012) são complementadas por camadas (layers) de mudança, que destacam as mudanças na cobertura do solo com uma UMM de 5 ha. Caso exista interesse em analisar as mudanças entre os dois levantamentos deve descarregar a camada CLC-Change, uma vez que esta apresenta uma resolução maior.

PRECISÃO GEOGRÁFICA:

  • 25 ha unidade mínima de mapeamento
  • largura mínima de mapeamento: 100m
  • 100 metros de precisão posicional
  • precisão temática > 85%

Os produtos CORINE Land Cover encontram-se disponíveis em formato raster (100 e 250 metros de resolução), e em vetor (geodatabase ESRI e SQLite).

Obtenha através do site Copernicus Land Monitoring Services

Reflexão sobre a Metodologia da Carta de Perigosidade de Incêndio

Artigo desenvolvido por: 
Emanuel Oliveira

A elaboração da cartografia de risco espacial de incêndio florestal é atualmente uma ferramenta essencial na hora de planificar ações de prevenção de incêndios florestais, cujo objetivo é formalizar a identificação de zonas de perigo e risco a uma escala compatível com o ordenamento do território.

Em Portugal, o mapa de perigosidade para além de constituir um instrumento de apoio à planificação, assume um papel condicionador no âmbito do ordenamento do território, salientando o condicionamento de novas edificações no espaço rural e florestal.
Mapa 1 - Mapa de Perigosidade de Incêndio Florestal (Metodologia:AFN/ICNF)

Sendo assim, a cartografia de risco espacial permite identificar os espaços que reúnem condições favoráveis para a ocorrência de incêndios florestais e identificar as zonas mais vulneráveis.

Conhecendo-se o risco, temos a possibilidade de localizar e executar infraestruturas de prevenção e defesa como acessos, corta-fogos, faixas de gestão de combustível, torres de vigilância, pontos de água, bem como dirigir as ações de sensibilização, vigilância e fiscalização, procurando deste modo aumentar a eficiência de todas as medidas.

Com o fim de ampliar a discussão sobre a metodologia aplicada em Portugal para a elaboração do mapa de perigosidade (o qual tem sido amplamente questionado, principalmente pelos técnicos responsáveis pelo urbanismo e ordenamento do território), vou apresentar aqui algumas reflexões, bem como apresentar uma outra metodologia aplicada no território de Espanha.

Com estas duas produções cartográficas pretende-se compará-las e identificar aquela que se aproxima mais da realidade do território no que respeita ao perigo de incêndio, ou seja a “probabilidade que um fenómeno físico, potencialmente danoso” como o fogo “de origem natural ou induzido pela ação humana, se apresente num local específico, com uma certa intensidade num período e frequência”. (Varnes, 1984)

A metodologia para a elaboração do mapa de perigosidade (modelo adotado em Portugal) resulta do produto da probabilidade e da suscetibilidade. A probabilidade é estimada a partir da cartografia de áreas ardidas e a suscetibilidade a partir do declive e da carta de ocupação de solos (por ex.º Corine Land Cover ou a COS produzida pela Direção Geral do Território).

Como este mapa é uma condicionante no âmbito dos planos municipais de ordenamento, muitas vezes limitando as novas construções, a sua metodologia e aplicabilidade tem estado envolta em angustiantes discussões técnicas e políticas.

O mapa de perigosidade é fundamental e tem sido um instrumento importante, principalmente por permitir identificar zonas de interface urbano-florestal mais vulneráveis. No entanto, o problema reside sobre as bases cartográficas utilizadas e aqui podemos destacar essencialmente o seguinte:
  1. A falta de rigor dos perímetros das áreas ardidas mais antigas, principalmente entre 1990 e 2004, obtidos a partir de observações de satélites e aparecendo os perímetros pixelizados (podendo ultrapassar os 300 metros), o que numa escala de planeamento municipal (1: 10 000), traduz-se em complicações na hora de tomada de decisão técnica e política.
  2. A utilização da carta de ocupação do solo em vez da carta de modelos de combustível, com a agravante das classes de suscetibilidade atribuídas a cada nível de ocupação, por exemplo a atribuição do valor máximo a zonas maioritariamente cobertas por afloramentos rochosos ou a galerias ripícolas, o que incrementa o valor final de perigosidade. 
Analisando a metodologia para a elaboração do mapa de perigosidade concluímos que o principal objetivo é definir um zonamento para limitar o surgimento de novas edificações e a preocupação reside sobretudo nas zonas de interface. Contudo, este foco orientado ao ordenamento e urbanismo conduz a que este zonamento não tenha aplicabilidade real na definição de medidas e ações que visem a prevenção dos incêndios florestais e a redução dos efeitos da propagação do fogo, pois o mapa de perigosidade apenas evita que se construa em locais que no mapa surgem dentro das classes alta e muito alta perigosidade (cujos valores são incrementados pela metodologia aplicada).
Mapa 2 - Mapa de Risco de Ignição de Incêndio Florestal
Se observarmos a metodologia aplicada em Espanha, esta tem em conta os fatores espaciais que são determinantes na ignição e na propagação do fogo. O mapa de risco de ignição tem em consideração a exposição/insolação, os modelos de combustível, a proximidade dos aglomerados urbanos e da rede viária. Quanto ao mapa de risco de propagação, o modelo procura reproduzir como o fogo vai propagar-se tendo em conta as características do ambiente, tais como: o declive, os modelos de combustível e a exposição/insolação.

Cabe ainda salientar que os valores atribuídos aos modelos de combustível são diferentes para cada mapa, pois cada modelo apresenta valores diferentes para a ignição e para a propagação, por exemplo uma zona de pinhal apresenta um valor mais reduzido na ignição (valor 2) mas máximo na propagação (valor 5).
Mapa 3 - Mapa de Risco de Propagação de Incêndio Florestal
A soma de ambos mapas (ignição e propagação) dá origem à carta de risco de incêndio florestal e, assim, identificamos os espaços mais suscetíveis de ocorrência e vulneráveis.
Mapa 4 - Mapa de Risco de Incêndio Florestal (Ignição + Propagação)
Se em ambos mapas finais sobrepusermos as ignições ocorridas entre 2010 e 2013 (obtidas maioritariamente a partir de GPS/SIRESP), podemos constatar que no mapa de perigosidade incidem sobre zonas de muito baixa e baixa perigosidade, mas no mapa de risco incidem sobre zonas de alto e muito alto risco. Este resultado permite-nos perceber que o fator humano refletido nas vias de acesso e nos núcleos urbanos, bem como os modelos de combustível e a topografia são determinantes no risco de incêndio, independentemente da probabilidade baseada na área ardida. Assim, através deste modelo baseado na ignição e propagação, podemos definir ações estruturais mas também ações de sensibilização e de vigilância nas zonas identificadas de maior risco.
Mapa 5 - Localização das Ignições entre 2010-2013 (GPS) sobre o Mapa de Perigosidade
Mapa 6 - Localização das Ignições entre 2010-2013 (GPS) sobre o Mapa de Risco de Incêndio (Ignição + Propagação)
CONCLUSÕES

Na 3ª Geração de Planos Municipais de Defesa da Floresta Contra Incêndios dever-se-á manter o mapa de perigosidade, revendo-se a metodologia e integrando obrigatoriamente a carta de modelos de combustível.

Igualmente, torna-se fundamental considerar a inclusão dos mapas de ignição e de propagação.

Todavia, dever-se-ia ponderar a integração da probabilidade de ocorrências tendo em conta os históricos, mas excluindo todas as ocorrências baseadas em geolocalização toponímica, ou seja apenas incluindo as ignições georreferenciadas mediante recurso GPS, com o fim de evitar erros grosseiros.

sábado, 27 de fevereiro de 2016

Os GIF's e a Homogeneização da Paisagem

O fator mais determinante para a ocorrência de Grandes Incêndios Florestais é sem dúvida, o incremento do abandono das atividades tradicionais de agricultura e pastorícia, principalmente nos territórios de montanha, associado ao despovoamento e ao envelhecimento das comunidades rurais.

O Alto Minho é um território físico, sociocultural e económico cujas mudanças na dinâmica espacial e climática, prepararam os espaços para a propagação de GIF’s.

A análise espacial e estatística a diversos níveis sobre o território permitiu identificar e individualizar alguns fatores que favorecem a ocorrência e a propagação dos GIF’s:

  • O relevo e as condições fisiográficas que caracterizam o território do Alto Minho, muito recortado com declives muito acentuados, além da forte influência dos principais interflúvios, produzem incêndios topográficos, o que constitui uma informação fundamental na hora de planificar ações estruturais de silvicultura preventiva sobre o território.
  • Geralmente, nas zonas circundantes aos lugares povoados, encontram-se propriedades florestais e na grande maioria em estado de abandono e assilvestradas, onde abunda uma grande densidade e carga de combustível de sub-bosque arbustivo. Esta situação cria condições complexas nas zonas de interface urbano-florestal e a concentração e investimento de meios e recursos para a proteção de bens e pessoas, o que conduz a situações de propagação livre de um incêndio que por vezes se estende no espaço florestal com uma oposição e combate reduzido.
  • A existência de extensas áreas contínuas de matos, confinantes com formações de pinhal com sub-bosque arbustivo tipicamente atlântico, onde predomina o tojo (Ulex europaeus), bem como a existência de massas de pinhal jovem excessivamente densas, são o resultado da homogeneização provocada por GIF’s precedentes.
  • A presença e expansão de espécies exóticas pirófitas resultante da mesma ação de homogeneização, assim como o espetacular aumento da arborização de Eucalyptus globulus nos últimos 10 anos, ocupando espaços de transição entre a área urbana e a floresta – Zonas de Interface Urbano-Florestal – constituem num futuro próximo um fator adicional de risco complexo, uma vez que ocorrendo um incêndio este tipo de combustível gera fogos com comportamentos intensos, rápidos e de propagação por focos secundários a longas distâncias, principalmente quando se encontram associados a um relevo montanhoso e com a influência de ventos de subsidência.

Por outro lado não se pode ignorar o papel do uso tradicional do fogo pelas comunidades rurais do Alto Minho, muitas vezes não compreendido e muito criticado. O fogo jogou e ainda joga uma importante função como ferramenta da atividade tradicional agrícola e pastoril.

Desde o ano 2006 que se desenvolveram e se publicaram ferramentas legislativas com o fim de proibir as queimas pastoris, condicionando-as ao máximo, exigindo a presença de um técnico credenciado em fogo controlado ou na sua falta a presença de uma equipa de sapadores florestais ou bombeiros. Esta importante limitação traduziu-se por um lado no uso do fogo de forma ilegal e abandono da queima realizada e, por outro lado no abandono do recurso – fogo - como ferramenta de gestão da carga de combustível e renovação de pastagens. É necessário destacar que na generalidade do território, a atividade rural (agricultura, pecuária extensiva e pastoril) permitiu durante inúmeras gerações moldar a paisagem e compartimentar os espaços florestais e o fogo constituiu uma ferramenta de grande utilidade.

Heinrich Friedrich Link
Para termos ideia da dimensão deste aspeto tão enraizado na cultura das comunidades locais, transcreve-se parte de um texto do reputado médico, botânico e naturalista alemão Heinrich Friedrich Link que acompanhado do Conde Hoffmansegg, visitou a região em 1798 e deixou no seu livro, o testemunho sobre o uso do fogo na região montanhosa do território do Minho:

«Por causa da quantidade de bichos, de cinco em cinco anos é queimado o mato, conseguindo-se assim ao mesmo tempo novo alimento para o gado, embora se diga sempre que é pelo primeiro motivo que isso se faz. Esta queima colocou-me algumas vezes em grandes embaraços. Perto da Portela do Homem, um patife da Galiza tinha posto fogo ao matagal seco à volta do caminho, por todo o lado se viam subir as chamas e o fumo e, no vale estreito rodeado de penhascos íngremes, não havia qualquer saída. Finalmente conseguimos alcançar com esforço o rio Homem e esperávamos escondermo-nos no rio, mas felizmente o vento estava muito calmo, o fogo não se propagou muito e em breve estava completamente extinto.»


«Notas de uma viagem a Portugal e através de França e Espanha»; Link, 2005

Sendo assim constata-se que a cultura atual do fogo não é algo de hoje, pelo contrário encontra-se enraizada desde tempos imemoriais como mencionado. Em consequência do uso inadequado do fogo por parte das populações cada vez mais urbanas e pouco conhecedoras do uso ou a falta de uso como outrora, está na origem dos Grandes Incêndios Florestais que posicionam o Alto Minho como uma das regiões com maior número de ocorrências de origem antrópica da Europa Ocidental.
Perda de Cobertura Florestal /Forest Cover Loss - 2000 - 2014.  Fonte: Global Forest Change
As últimas mudanças no meio rural e a limitação do uso tradicional do fogo pastoril sem alternativas, a política de extinção total do fogo na paisagem, a extinção dos incêndios de baixa intensidade fora de perigo, conduzem à redução do conceito de mosaicos para dar lugar à formação de extensas massas homogéneas de combustível e à formação de corredores contínuos de combustível, unindo o espaço florestal ao agrícola (assilvestrado) e ao espaço urbano, através da elevada acumulação de combustíveis que mais tarde, na presença de um incêndio, incrementarão a intensidade, severidade e velocidade de propagação do fogo, criando zonas de alto risco e de grande complexidade nos trabalhos de extinção.

Se os GIF’s recorrentes conduzem à homogeneização da paisagem ao nível de modelos de combustível, importa então proceder à sua heterogeneização e a queima prescrita/fogo controlado assume aqui um papel essencial como as queimas pastoris de outros tempos. Ou seja, ao nível preventivo temos que reduzir os efeitos dos fatores que potenciam e alimentam os GIF's, o que por sua vez implica uma atuação à escala da paisagem.

Mais Informação:

Oliveira, Emanuel; 2015. "La Prevención a la Escala del Paisaje para hacer frente a los Grandes Incendios Forestales. Análisis en el Alto Minho. Portugal"; Universidad Politécnica de Madrid 

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

Aterrorizante vídeo mostra os bombeiros presos num "inferno" de chamas

Autores: Kamilia Palu and Mark Mooney
Traduzido por: Emanuel Oliveira
Fonte: 7News
Australia

Pela importância das imagens e dos testemunhos, deixo aqui esta crónica jornalistica do órgão informativo australiano 7News, publicado no dia 25 de janeiro de 2016.

As seguintes cenas são de parar o coração, captadas no momento em que uma equipa de bombeiros composta por cinco elementos fica encurralada num muro de chamas enquanto se dirigia para combater um incêndio no Sul da Austrália. 

A equipa de bombeiros de South Australian Country Fire Service estava a caminho do incêndio para ajudar a proteger o pequeno município de Woolsheds, a 65 km ao norte de Adelaide, no dia 25 de novembro de 2015.
À medida que os bombeiros se aproximam da cidade de Pinery, o fumo  já é espessor. Foto: 7 News
À medida que os homens se aproximavam da cauda do incêndio, uma mudança súbita de vento virou o fogo, girando-o e conduzindo-o diretamente a eles. 

Os homens nunca chegaram a Woolsheds.

















A visão angustiante mostra uma nuvem escura extendendo-se rapidamente pelo ar, seguida imediatamente pelo “rosto de fogo do inferno”.

O vento muda de direção e em poucos segundos o céu fica negro. Foto: 7 News
We're going to go into burnover, burnover very quickly. Here it comes, here it comes, here it comes,”  ("Vamos entrar num “burnover”, “burnover” muito rapidamente. Aí vem, aí vem, aí vem,) " «um dos homens pode ser ouvido gritando».

Ouvem-se gritos de pânico. Com o muro de fogo encurralando-os, os homens sentam-se e esperam que os minutos passem. Antes da intensidade, dois bombeiros tinham saído do veículo de combate para ligar a motobomba. Com o vento agitando o veículo e as chamas chegando perigosamente perto, o comandante emite um pedido de socorro, temendo pela vida dos seus homens.
Em pânico o primeiro veículo faz inversão de marcha quando as chamas atingem a borda da estrada. Foto: 7 News
"Eu tenho dois homens fora do veículo. Eu não tenho ideia de onde estão", disse ele.

Um dos bombeiros, Brenton Eden, disse à 7News que este fogo era diferente de qualquer outro onde já tinha estado.

"Nunca vi um comportamento do fogo assim em toda a minha carreira", disse ele.

"Ainda estou admirado deles terem saído sem ferimentos."
Os homens ficaram chocados com o comportamento do fogo, que deixou restos carbonizados no seu caminho. Foto: 7 News
O fogo foi impulsionado por ventos 90 km/hora e alimentado por campos de culturas secas - um material que trabalhou em favor dos bombeiros.

"O fogo passou muito rapidamente por causa restolho. Tal não teria acontecido caso a equipa se encontra-se num incêndio florestal ou de matos", disse Eden.

O CFS (Country Fire Service ) diz que o incidente serve como um aviso para os fazendeiros saírem mais cedo.


quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Seia recebeu Curso de Analista de Incêndios Florestais da EIMFOR

Por: Artur Costa
Comandante Operacional Municipal de Seia

Entre os dias 18 e 21 de Janeiro decorreu no Centro Municipal de Proteção Civil de Seia, situado no Aeródromo Serra da Estrela, um curso de Analista de Incêndios Florestais, ministrado pela empresa espanhola EIMFOR – Entrenamiento e Información Forestal, S.L.
Foto 1 - Centro Municipal de Proteção Civil de Seia. Foto: Artur Costa
Este curso resultou de uma iniciativa conjunta de técnicos, na sua grande maioria técnicos florestais das autarquias, que, buscando aumentar as suas capacidades para interpretar, prever e antecipar os fatores que influenciam o comportamento de um incêndio florestal, encontraram junto da EIMFOR a melhor forma de o conseguir, dada a reconhecida experiência e capacidade formativa na área dos incêndios florestais, tanto na vertente de análise como na planificação da extinção.
Foto 2 - Formador da EIMFOR. Foto: Artur Costa
O conteúdo programático do curso, que versou a Análise de Incêndios Florestais, incluiu temas como o comportamento do fogo, a tipificação dos incêndios florestais, o Sistema de Predição de Campbell, o suporte operacional da meteorologia nos incêndios florestais, o interface urbano-florestal, o papel do analista de incêndios, a elaboração de relatórios, os planos de extinção e a segurança nos incêndios florestais, finalizando com diversos exercícios práticos recorrendo ao histórico de incêndios florestais ocorridos em vários locais do globo, totalizando 32 horas em regime presencial.
Foto 3 - Ação em Sala. Foto: Artur Costa
Os vinte e cinco técnicos que frequentaram esta formação, oriundos de diversas autarquias (Águeda, Braga, Bragança, Cantanhede, Chaves, Felgueiras, Fornos de Algodres, Freixo de Espada à Cinta, Gouveia, Manteigas, Mogadouro, Murça, Oliveira do Hospital, Paredes, Penafiel, Santo Tirso, Seia, Valongo, Vila Nova de Gaia e Vimioso), bem como do Instituto de Conservação da Natureza e Florestas, manifestaram, no final da formação, o seu agrado pelos conhecimentos adquiridos, sentindo-se dotados de novas capacidades não apenas para apoiar como analistas os comandantes das operações de socorro e as células de planeamento e operações em cenário de incêndios florestais, mas igualmente para desenvolver estratégias e planificar de forma eficaz e segura as redes de DFCI, e a sua utilização pelos bombeiros e restante dispositivo de combate durante as operações de extinção de incêndios florestais.

No dia 22 de Janeiro, estava prevista uma ação de fogo controlado, com o objetivo de executar algumas parcelas previstas em planos de fogo controlado no concelho de Seia pelos técnicos credenciados que frequentaram o curso e demonstrar a técnica aos restantes, mas, dadas as condições meteorológicas desfavoráveis, essa ação foi adiada para data a definir.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Os Grandes Incêndios Florestais e a sua recorrência no Alto Minho


Analisando os dados estatísticos é importante entender como evoluíram os Grandes Incêndios Florestais ao longo destes últimos 15 anos no território do Alto Minho.
Gráfico 1 - Distribuição do Nº de GIFs por Ano e Classes de Extensão, 1975 - 2013. Fonte/Dados: ICNF (Clicar na imagem para visualizar)
Facilmente percebemos que a partir de 1989 surgem com maior representatividade os GIF's com mais de 500 hectares e menos de 1000 hectares de área ardida, sendo recorrentes em intervalos de 5 a 10 anos; em 1998, surgem os primeios GIF's com mais de 1 000  hectares, os quais segundo os dados oficais do ICNF, tornaram-se recorrentes na paisagem alto-minhota, com intervalos de 3 a 5 anos.

Os últimos 15 anos coincidem com um importante e necessário incremento dos meios e recursos como forma de resposta para reverter a sua ocorrência. Porém, o esforço foi em vão, tendo em conta que a redução dos GIF's implica uma intervenção a uma escala do consumo potencial de um GIF (intermunicipal), intervindo nos pontos de multiplicação da propagação, na criação de oportunidades ao combate e essencialmente na redução da elevada carga de combustível, mediante a criação de mosaicos com o fim de promover a heterogeneização da paisagem, em vez de uma aposta em pequenas e isoladas intervenções. O trabalho de prevenção obriga a uma implementação transversal de medidas e ações devidamente estruturadas, dimensionadas e de fácil manutenção, onde a complementariedade deverá ser um objetivo a considerar.

Antes de mais, importa entender que um GIF define-se tecnicamente, quando um incêndio apresenta um comportamento de fogo que ultrapassa a capacidade extinção, normalmente apresentando os seguintes critérios:

  1. Comprimento de chama superior a 3,0 metros;
  2. Velocidade de propagação superior a 1 - 2 km/hora;
  3. Atividade de fogo de copas. (UT GRAF, 2011)

Em Portugal, para além destes parâmetros, considera-se como um GIF um incêndio que ultrapasse uma área queimada igual ou superior a 100 hectares. No entanto, em muitos casos de GIF’s no Alto Minho, estes parâmetros técnicos referentes ao comportamento do fogo não se apresentam no incêndio ainda que a área ardida supere o limite que o classifica como GIF. Isto deve-se, por um lado a que a capacidade de extinção não só depende do comportamento do fogo, mas também do número e tipo de meios e recursos existentes para uma resposta mais eficaz e eficiente para a extinção. 

Igualmente, não nos podemos esquecer que existe um problema grave de simultaneidade de incêndios que esgota qualquer dispositivo de extinção quando se ultrapassa o limite. Esta situação agrava-se quando se produz uma diminuição dos recursos humanos que sustentam um dispositivo de extinção baseado na disponibilidade do sistema de voluntariado.

Por outro lado identifica-se, com base no seguimento dos Grandes Incêndios Florestais no território, comprovando-se pelos seus perímetros finais, uma cultura do uso do fogo na extinção com o fim de executar queimas ancoradas em caminhos, cujos perímetros são os mesmos de anos anteriores, de outros GIF’s cujas manobras são repetitivas e assumindo o risco de ampliação dos respetivos perímetros. Esta situação resulta de dois aspetos: a) os recursos são insuficientes para garantir a melhor resposta para a extinção, logo o dispositivo encontra-se debaixo da capacidade de extinção; 2) e existe um uso popular do fogo, dificilmente controlável, como recurso de autoproteção de bens que conduz à ampliação dos perímetros e à simultaneidade.
Imagem 1 - GIF de Cabração (1048 ha) - Município de Ponte de Lima. Fogo de superfície com Intensidade baixa a moderada e baixa severidade. Foto: Emanuel Oliveira, 2015
Os últimos 15 anos apresentam um significativo aumento da frequência dos grandes incêndios florestais, os quais tendem a ampliar as suas áreas ardidas, resultado da superação da capacidade de extinção. Ao contrário do que ocorre em alguns pontos do território ibérico que após a passagem de um GIF os ecossistemas ou têm dificuldade e tardam a recuperar-se ou ficam incapacitados, no território do Alto Minho a recuperação é elevada devido à adaptação das espécies ao fogo (Tojo, Urzes, entre outras) e também as invasoras exóticas pirofitas (Acacea sp. e Hakea sericea) que aproveitam as características climáticas típicas, marcadas por altas precipitações, elevada insolação, sem temperaturas extremas para facilmente regenerarem-se aproveitando a incorporação de fosfatos no solo imediatamente pós-incêndio e cobrindo rapidamente o solo, o que ajuda a combater a erosão e perda de solo em terrenos do tipo esquelético e com declives muito acentuados e íngremes.

Imagem 2 - Os GIFs em 2015 percorreram quase de forma cirurgica antigos perímetros de GIF's ocorridos em 2005 e 2010, onde encontraram um mesmo modelo de combustível, uma paisagem homogénea.

A melhoria dos conhecimentos técnicos, dos meios e da organização operacional no combate aos incêndios florestais não produziu efeitos para evitar a propagação e a frequência dos grandes incêndios florestais. Sendo assim é importante que a sociedade se encontre informada sobre o risco, ainda que não signifique que saiba defender-se frente à ocorrência de um incêndio e, muito menos, frente a um GIF.

O problema dos GIF’s é que o paradigma dos incêndios florestais mudou ao mesmo ritmo que as mudanças na dinâmica espacial e com os episódios repentinos resultantes da acelerada mudança climática. Fazer frente aos GIF’s obrigará a uma mudança do paradigma da prevenção e do combate.

Mais Informação:

Oliveira, Emanuel; 2015. "La Prevención a la Escala del Paisaje para hacer frente a los Grandes Incendios Forestales. Análisis en el Alto Minho. Portugal"; Universidad Politécnica de Madrid