FOGOS FLORESTAIS

UMA ABORDAGEM OPERACIONAL, TÉCNICA E POLÍTICA

O FOGO

UM BOM CRIADO, UM MAU PATRÃO

FOGO CONTROLADO

UMA FERRAMENTA ESSENCIAL NA PREVENÇÃO DE INCÊNDIOS FLORESTAIS

INCÊNDIOS FLORESTAIS

NÃO SE PODE PROTEGER ALGO QUE NÃO SE VALORIZA

FORMAÇÃO E PROFISSIONALISMO

É ESSENCIAL TRABALHAR COM O FOGO PARA ENTENDER O SEU COMPORTAMENTO NO COMBATE

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Relatório de Incêndios ou Julgamentos Públicos


Desenvolvido e postado por:
Emanuel de Oliveira
Publicado no Blogue dos GTF's do Alto Minho
17/08/2012

Recentemente foram publicados dois relatórios do Grande Incêndio Florestal de Tavira e de S. Brás de Alportel que teve início em 18 de Julho de 2012 e em apenas 4 dias, dizimou uma área de cerca de 26 500 hectares. Diversas vozes levantam-se hoje questionando quanto ao rigor técnico e imparcialidade dos relatórios elaborados pela Autoridade Nacional da Protecção Civil e pela Liga de Bombeiros Portugueses. Tais comentários confundem-se muitas vezes com desejos obsessivos de julgamentos públicos e de tentativas de “corte de cabeças”, assemelham-se a autênticos treinadores de bancada num jogo de futebol.
Se quisermos ser objectivos, imbuídos de um espirito crítico construtivo e arbitrário, então podemos e devemos analisar cada incêndio a partir de diversos pontos de vista e não concentrarmo-nos exclusivamente no combate. Sendo assim, proponho uma reflexão nas seguintes vertentes que envolvem o incêndio, fazendo um “check list” à semelhança do procedimento dos EUA:

Planeamento Florestal em matéria de DFCI: neste campo, devemos identificar se foram realizadas as acções de defesa estrutural, tais como, as faixas de gestão de combustível, a gestão de pontos estratégicos ou críticos, execução ou manutenção da rede de pontos de água, beneficiação ou execução da rede viária florestal, a criação de mosaicos de combustível, etc..

Planificação da Vigilância Contra Incêndios: neste campo importa identificar se as equipas de vigilância encontravam-se nos locais estratégicos de estacionamento (LEE’s), se procediam a vigilância móvel ou fixa, se a vigilância estava ou não planificada de acordo com o risco de incêndio, tendo em consideração o risco diário de incêndio para a zona em causa (com particular importância para os componentes do Sistema FWI: FFMC, ISI, BUI e FWI), as curvas de flamabilidade de Campbell (CPSL), o número de ocorrências registadas e o uso tradicional do fogo.

Coordenação e Operacionalidade do Combate: por último, neste campo, poderíamos colocar todo o conjunto de recomendações estabelecidas no relatório “Avaliação do Desempenho do Ataque Ampliado a Incêndios Florestais”, publicado em 2008, com base num protocolo da UTAD com a ANPC.

Com isto quero dizer que não há nada a inventar, pois tudo já foi amplamente estudado, identificado, analisado, discutido e redactado, resultante de situações vividas no passado, quer em Portugal quer nos outros países do mundo. Apenas, temos que apelar à objectividade e identificar se se procedeu ou não, quando se procedeu e como se procedeu.

Na análise aos incêndios florestais devemos de proceder de modo semelhante àquilo que a estrutura de combate a incêndios florestais dos EUA elabora na Organização das Operações de Extinção e que denomina de ”Incident Command System”, onde criteriosamente de forma objectiva são identificadas as acções e a missão de cada equipa, de cada elemento presente no Teatro de Operações e em caso de incidente ou acidente permitir identificar a falha. Em Portugal também existe este sistema e, o qual, está devidamente identificado na Directiva Operacional Nacional nº 2 – Dispositivo Especial de Combate a Incêndios Florestais, pelo que em conjunto com as recomendações definidas no relatório de 2008 (supracitado), bastaria identificar onde poderá ter falhado o combate:
  • Terá sido na interpretação do comportamento do fogo e da meteorologia de incêndio?
  • Terá sido na utilização dos meios e no modo como os meios foram empregues?
  • Terá sido na monitorização e coordenação do incêndio?
  • Terá sido falhas no uso de equipamentos ou até na sua ausência?
  • Terá sido na falta de recursos humanos capacitados em análise de incêndios para auxiliar o COS desde o início do incêndio?

Como se pode ver, surgem diversas questões apenas referentes às operações de combate, mas temos que analisar o que está para trás, para o que antecede à ocorrência, isto é, todo o trabalho que diz respeito à prevenção quer estrutural quer à vigilância, pelo que se poderia igualmente identificar possíveis falhas.
Analisar um incêndio destas características implica, como em qualquer análise, partir do geral para o particular. De modo algum devemos de apontar uma falha, sem previamente analisarmos o conjunto de elementos que constituem o ambiente onde se deu o incêndio.

Qualquer incêndio deve merecer uma atenção de forma semelhante e comparativa à avaliação do socorrista que atende uma vítima, primeiro identifica os sinais que lhe permitam proceder devidamente ao socorro, sem trazer maiores lesões à vítima. De igual modo deve-se proceder ao combate ao incêndio florestal e neste caso concreto, à sua análise. Lembrando ainda que as análises e os relatórios de nada valem se não se procederem às recomendações e correcções para que situações semelhantes não voltem a repetir-se ciclicamente.

Recordo que as análises e relatórios são úteis e devem obrigatoriamente ser realizados, não só relativamente ao GIF de Tavira e de S. Brás de Alportel, mas também aos GIF’s da Madeira e a outros incêndios que dizimaram vastas áreas de floresta e destruíram diversas habitações e equipamentos, mas também aquelas ocorrências que sendo menores levaram à perda do mais importante - de vidas dos nossos combatentes - e esses na maioria dos casos caem no esquecimento e ninguém procede a avaliar e a colocar em público a causa do acidente.

Exemplo de Check List para Avaliar o Combate 

quinta-feira, 31 de julho de 2014

O abandono florestal é causa de acidentes de combatentes!? Para relembrar!

Desenvolvido e postado por:
Emanuel de Oliveira
Publicado no Blogue dos GTF's do Alto Minho
20/09/2012

Após a leitura do artigo publicado no Público online, de 18.09.2012, titulado «Bombeiros dizem que abandono florestal e clima tornam fogos “menos previsíveis”», cujas declarações e opiniões são da exclusividade de Jaime Soares, Presidente da Liga dos Bombeiros Portugueses (LBP), pelo que discordando com a natureza das justificações relativamente aos acidentes que vitimaram mortalmente, neste verão, três combatentes, cumpre-me esclarecer algumas questões para o bem de todos os combatentes e responsáveis pelo combate.

Apesar de concordar com a situação crítica da gestão florestal pública, comunitária e privada, completamente subvalorizada, não podemos desresponsabilizarmos-nos das nossas responsabilidades como coordenadores de combate, principalmente quando temos a cargo vidas de terceiros que voluntariamente dão a sua vida por uma causa de todos. A floresta com elevada densidade e disponibilidade de combustível associada a uma meteorologia favorável a incêndios é um meio hostil que qualquer combatente de incêndios conhece e respeita.

Todo o combustível vegetal presente na floresta portuguesa, associado às monoculturas, principalmente, de pinheiro-bravo e de eucalipto, têm características altamente inflamáveis que com um extenso período de seca, temperaturas elevadas, humidade relativa baixa e vento forte, vão ser incrementadas.

O Presidente da LBP da sua larga experiência com ligação aos bombeiros, desde a sua juventude, também se deve recordar que até à década de 80 os bombeiros apoiavam o combate aos incêndios florestais, o qual era realizado por experientes equipas – as brigadas florestais - dirigidos pelos então designados mestres florestais do Corpo Nacional da Guarda Florestal da Direcção Geral das Florestas (actualmente incorporados na GNR com funções de fiscalização). O combate até então era realizado com pouco uso de água e muito trabalho de ferramenta manual e baseado na observação do comportamento do fogo. Muitas corporações de bombeiros ganharam esse conhecimento empírico e experiência junto das brigadas florestais, detendo hoje respeitáveis combatentes. A chegada das “autobombas” e o consequente uso abusivo da água, acompanhado do abandono das técnicas manuais levou à perda do conhecimento do comportamento do fogo.

A “violência dos incêndios e pela imprevisibilidade da sua progressão no terreno” está relacionada única e exclusivamente com o comportamento do fogo e a imprevisibilidade é tanto maior quanto o seu desconhecimento e interpretação. Hoje mais do que nunca, já não se admite no século XXI que incêndios florestais no Sul da Europa sejam combatidos unicamente com água, sem o devido acompanhamento técnico para documentação e análise, de modo a assessorar o COS, permitindo um combate mais eficaz, sem excesso de meios e de custos e, principalmente, reduzindo os riscos de vítimas em combate.

Se os bombeiros que foram vítimas dos incêndios florestais deste ano “não actuaram por aventureirismo, nem falta de conhecimentos”, então o que falhou? Se antes a "culpa" era da mudança do vento, hoje a "culpa" parece ser do abandono florestal e da mudança climática. Esta questão abre um conjunto de questões essenciais, tais como:
Foi estabelecido o Protocolo LACES? Todos os combatentes respeitaram as 10 Regras de Segurança e tiveram em consideração as 18 Situações de Risco? Conheciam e sabiam que trabalhavam na ZHM (Zona do Homem Morto)?
Exemplos como os do seguinte link demonstram falta de conhecimento e de interpretação do comportamento do fogo, pelo que arriscam-se vidas importantes com situações que campanha após campanha se repetem:
Incêndio em Arganil obrigou à evacuação da aldeia da Aveleira - País - Notícias - RTP

Não podemos nem devemos de julgar quem voluntariamente sacrifica a sua própria vida, mas a sociedade e principalmente, todos os combatentes têm o direito de saber a causa real e as condições em que se deu um acidente, com o fim de evitarmos a repetição de situações de risco semelhantes. A documentação, a análise de incêndio e os respectivos relatórios de acidentes associados são obrigatórios para uma melhoria da segurança de quem tanto dá.

Cabe-me como técnico, preocupado com o problema dos incêndios florestais e com a segurança dos combatentes, alertar o para o facto de que o combate aos incêndios não pode ser assumido como a opinião do Presidente da Liga quanto à causalidade dos incêndios florestais, pois é uma opinião baseada na sua estimativa pessoal, sem qualquer fonte que a suporte. Hoje importa, como no passado, mas recorrendo às novas tecnologias e técnicas, assessorar a importante tomada de decisão do responsável pelo combate, com base em dados registados no ambiente de fogo, na análise ao comportamento do fogo e no estrito cumprimento dos protocolos de segurança. Os incêndios florestais cada vez vão ser maiores e mais destrutivos, mas a perda da vida humana deve ser evitada a todo o custo.

"Não podemos evitar os riscos, mas podemos preveni-los."

quarta-feira, 30 de julho de 2014

Posto de Comando Proativo


Desenvolvido e postado por:
Emanuel de Oliveira
Publicado no Blogue dos GTF's do Alto Minho
04/06/2013

 “Se pudéssemos saber, em primeiro lugar, em que ponto nos encontramos e até que ponto avançaremos, estaríamos em melhores condições para julgar o que fazer e como fazê-lo 
Abraham Lincoln


Equipa em trabalho de análise. Fonte: blogs.pjstar.com
As forças armadas americanas introduziram um sistema de comando e controlo baseado na proatividade, denominado C4IRS: Comando, Controlo, Comunicações, Computadores, Inteligência, Vigilância e Reconhecimento. O C4IRS visa a coordenação, o controlo e a sincronização das ações estratégicas e táticas a serem conduzidas em diversos níveis. Este sistema opera no contexto de uma concepção identificada como Network Centric Warfare – NCW (Guerra Rede Centrica).

Semelhantemente e fazendo a analogia ao C4IRS, o combate aos incêndios florestais tem que adoptar esta concepção de Rede Centrica (oposta ao egocentrismo), a qual possibilita a partilha em simultâneo de dados e de informação entre as diferentes unidades de combate, técnicos de DFCI, autoridades, entre outros envolvidos no Teatro de Operações – sendo um factor fundamental para o incremento da qualidade da informação no Posto de Comando, o que resulta num conhecimento situacional muito mais preciso e na necessária sincronização das três funções operacionais científicos-tecnológicas básicas:

  • Sensoriamento: busca da informação sobre o relevo, condições meteorológicas, população, meios e recursos e as ameaças presentes (zonas de interface urbano-florestal, povoamentos, áreas protegidas, etc);
  • Processamento: tomada da decisão e sua implementação;
  • Atuação: extinção do incêndio – incrementando ao combate ao incêndio uma significativa agilidade, eficiência, eficácia e, essencialmente, a proatividade em todo o processo.

Fonte: bloximages.chicago2.vip.townnews.com
Um Posto de Comando Proativo permite uma redefinição muito positiva no relacionamento entre comandos superiores e os elementos subordinados presentes. O suporte de uma equipa de análise, permite aos comandantes tomar decisões oportunas, atempadas e mais rápidas, colocar os meios, coordenar, controlar e sincronizar em melhor condições os seus efectivos, ou seja procurando colocar-se sempre em situação vantajosa em relação às ameaças presentes e previstas.

Sendo assim, o Posto de Comando Proativo possibilita aos comandantes, em todos os níveis - estratégico, operacional e tático - manter a iniciativa das ações, conservando de modo permanente, a imprescindível postura proativa requerida em qualquer plano ou situação de emergência e, muito particularmente, nos Grandes Incêndios Florestais.

terça-feira, 29 de julho de 2014

Combate Reativo versus Combate Proativo

Desenvolvido e postado por:
Emanuel de Oliveira
Publicado no Blogue dos GTF's do Alto Minho
03/06/2013

Como pudemos constatar no artigo anterior, a segurança no combate aos incêndios depende do comportamento humano, igualmente a forma e o método de ataque vai depender da atitude do combatente, da equipa de combate e do comando de operações. Sendo assim, podemos distinguir dois tipos de combate aos incêndios florestais com base no comportamento humano e que vão ser determinantes na forma de alcançar o objectivo do combate – a extinção do incêndio. Realmente, a velha máxima de que “nenhum incêndio ficou por apagar” é certa, no entanto os efeitos e a dimensão da área afectada vai traduzir-se em danos, perdas e custos a curto, a médio e longo prazo e a atitude de combate é aqui fundamental.

Antes de partir para a caraterização de ambos tipos de combate aos incêndios florestais, devemos primeiro focar-nos na definição destes dois conceitos do comportamento humano:
  • Reatividade ou "reativo" é uma reação tomada frente a uma ação, ou seja, que reage que suscita reação. Sintetizando, ela simplesmente ocorre pelas vias de fato, ou seja, acontecem pois foram disparadas por uma determinada atividade ou ação.
  • Proatividade é o comportamento de antecipação e de responsabilização pelas próprias escolhas e ações frente às situações impostas pelo meio.
O prefixo "pró" significa antecipação, isto é, algo que acontece antes. Enquanto que o prefixo "re" tem 3 significados diferentes: repetição, reforço ou recuo.

combate reativo prende-se na tomada de decisão e na atuação com base em padrões de causa e efeito. Nem sempre esperar pelo fogo num caminho será a melhor manobra, pois uma mudança inesperada do vento ou uma alteração do comportamento do fogo, intensificando-se, poderá fazer com que ele passe para o lado oposto. Uma vez passado o fogo, perante uma nova situação, terá o combatente que reagir!

combate proativo baseia-se na antecipação aos acontecimentos, mediante o planeamento através da análise do incêndio e na definição da estratégia, procurando fazer a previsão mais ajustada ao comportamento do fogo para poder atuar.

O comportamento proativo é definido como sendo um conjunto de comportamentos extrafunções, ou seja não se prende apenas às suas funções básicas pré-definidas. Neste tipo de comportamento, um indivíduo procura de forma espontânea provocar mudanças no seu ambiente, buscando soluções e antecipando-se aos problemas. Consequentemente, o combate proativo implica a tomada de decisão atempada, visando antecipar-se a um agravamento potencial do incêndio, sendo a análise do incêndio (avaliação do comportamento do fogo presente e a sua previsão) a chave deste tipo de combate.

Foto: www.washingtonpost.com
O combate proativo não se trata do uso massivo de meios para fazer frente às chamas, sem qualquer análise prévia ou estratégia. O combate proativo deverá implicar 3 fases obrigatórias:
1º) É necessária uma análise;
2º) É fundamental a identificação e seleção de alternativas;
3º) Obriga a uma previsão dos resultados esperados para cada cenário;

O combate proativo implica pois análise e planeamento, principalmente em Grandes Incêndios Florestais, com o fim de maximizar-se as chances de êxito e minimizar-se as chances de erros.
No combate proativo toma-se a iniciativa, mas esta por si só é apenas uma reacção e não uma acção. No entanto, se no comando de operações se proceder para além do planeamento a um questionamento positivo do processo, então o combate passa a ser proativo.

Vejamos pois um exemplo prático:

No Posto de Comando o Comandante de Operações e Socorro solicita um voluntário para fazer um mapa de progressão de um incêndio.
O Técnico do GTF imediatamente se candidata. Ora bem, este apenas demonstrou iniciativa.
A pessoa proativa para além de se oferecer como voluntária para cumprir com uma acção, sugere igualmente algo como: “Podemos utilizar o sistema de informação geográfica e colocar com exactidão as posições correctas das equipas, obtidas pelos rádios do SIRESP?” ou “Podemos imprimir os mapas de progressão actualizados e faze-los chegar a cada equipa presente no Teatro de Operações?

Outro exemplo, mais operacional:

Uma equipa de combate fica encarregue de extinguir uma frente de chamas. Esta equipa procede de acordo com o método mais tradicional, estendendo linha de mangueiras e humedecendo os combustíveis, no entanto o chefe de equipa questiona o COS: “Posso colocar 2 elementos da equipa a proceder à eliminação de pontos quentes com ferramenta manual na linha de defesa até à chegada das equipas de rescaldo?

No combate proativo, recorre-se ao questionamento planeado visando a melhoria do combate e dos resultados. Este modelo de combate permite a implementação da preparação e o consequente estado de prontidão, preferencialmente proativo, dos combatentes e técnicos envolvidos nos planeamentos e na condução das manobras, nos diversos níveis de decisão, garantindo um aumento da eficiência (não confundir com eficácia).

segunda-feira, 28 de julho de 2014

Segurança nos Incêndios Florestais. Perigos Objetivos vs Perigos Subjetivos

Desenvolvido e postado por:
Emanuel de Oliveira
Publicado no Blogue dos GTF's do Alto Minho
01/06/2013


Um incêndio florestal dá-se e condiciona um ambiente onde o combatente irá defrontar um amplo leque de perigos variados. Esse meio ambiente constitui uma série de riscos potenciais que o combatente deve e tem que conhecer para, pelo menos, preveni-los e minimizá-los.

Perigos e Riscos, contudo ambos conceitos não têm o mesmo significado! São parecidos mas essencialmente diferentes.

O Perigo constitui a fonte ou situação com potencial para provocar danos, sejam no próprio indivíduo seja no espaço físico.
  • No espaço físico: danos ao meio ambiente, em edifícios, em infraestruturas.
  • No indivíduo: lesões, doenças, ou a morte.
Entende-se por Risco a combinação da probabilidade de ocorrência e da consequência de um determinado evento perigoso.

Sendo assim, o Perigo é a fonte geradora e o Risco é a exposição a esta fonte.

Concentremo-nos pois na fonte geradora e procedendo à analogia adoptada para os perigos nos desportos de montanha, vamos proceder de igual modo para as duas tipologias de perigos nos incêndios florestais.

Perigos Objetivos
São os perigos resultantes do ambiente que nada têm a ver com o comportamento do combatente:
  • Comportamento do Fogo
  • Fumos
  • Radiação e Conveção
  • Topografia
  • Meteorologia
  • Modelos de Combustíveis
  • Desabamentos e queda de pedras
Perigos Subjetivos
São os perigos que derivam do comportamento do combatente, ou seja, provocados por ele:
A subvalorização, inconsciência e desconhecimentos dos próprios perigos, do ambiente, do meio, das circunstâncias e da segurança, mais precisamente:
  • Falta de formação
  • Proceder a uma manobra sem dominar a técnica
  • Não conhecer o território, nem saber com exactidão o local onde se encontra
  • Não renunciar a tempo do objectivo por não cumprir dentro da janela de actuação
  • Encontrar-se num incêndio sem equipamentos de comunicação
  • Falta de Equipamento de Protecção Individual (EPI)
  • Incumprimento dos Protocolos de Segurança: LACES, 10 Regras de Segurança e as 18 Situações de Perigo
  • Não levar a cabo uma alimentação adequada
  • Tentar proceder à extinção do fogo sem utilizar os meios adequados
  • Insistir numa manobra/táctica ineficaz
  • Má interpretação do comportamento do fogo
  • Desidratação
  • Meios e ferramentas em condições deficientes
  • Entre outros…
É óbvio e indiscutível que os perigos e os riscos existem no Teatro de Operações, num incêndio florestal. Estão presentes em todo o tempo, desde o foco nascente ao rescaldo, assim como na vigilância preventiva ou no pós-rescaldo. Daí que o combatente fica obrigado a uma preparação adequada, baseada na prática e o cumprimento sistemático dos protocolos de segurança devem estar sempre presentes, quer no combate aos incêndios florestais quer nas acções de queimas prescritas, para que se criem hábitos operacionais que nivelem a auto-segurança do combatente.
Daí a necessidade de não confundir a auto-confiança com auto-segurança.

Treino de procedimentos das Equipas Helitransportadas da Galiza - Base de Toen - Ourense. Foto: E. Oliveira 2012
A auto-confiança reside na capacidade de um indivíduo assumir riscos baseando –se quase exclusivamente em experiências adquiridas em momentos passados e nos meios ao seu alcance, sem que para tal exista a necessidade de nivelar de acordo com as situações que terá que enfrentar durante o combate ao incêndio florestal.
Por outro lado, a auto-segurança reside na capacidade do combatente em assumir riscos baseando-se, para além de experiências e práticas vividas, no nivelamento constante da segurança para cada tipo de perigo a enfrentar, reduzindo o efeito dos riscos.

O melhor exemplo que costumo dar nas formações é a comparação entre o condutor auto-confiante e o condutor auto-seguro. No 1º caso, em virtude da sua larga experiência sem acidentes e grande conhecedor da estrada, por ter uma boa condução, costuma conduzir sem cinto para fazer uns escassos quilómetros – a sua condução baseia-se na sua experiência de sucessos – porém o perigo encontra-se presente e com certeza não se encontra livre de um acidente mortal.
Por outro lado, no 2º caso, o condutor auto-seguro antes de iniciar a marcha coloca o cinto de segurança e com o aumento do trânsito reduz a velocidade, acende as luzes de presença e redobra a atenção. Tal facto, poderá não livrá-lo de um acidente pois o perigo está igualmente presente, contudo dado o nivelamento constante da segurança, com base no aumento do risco, eleva as probabilidades de sair ileso ou pouco afectado de um possível embate quando comparado com o condutor do 1º caso.

Práticas repetidas diariamente pelas helitransportadas. Foto: E. Oliveira 2012
A auto-confiança é inimiga no combate aos incêndios, pois não tem em conta necessidade do constante e  gradual nivelamento da segurança. Os incêndios não são todos iguais e nem um combatente está diariamente nas mesmas condições físicas e psíquicas, contudo os perigos estarão sempre presentes e os riscos poderão incrementar-se, pelo que a necessidade diária de treino de procedimentos é uma obrigação que não deve nem pode ser marginalizada em qualquer circunstância. Um elevado nível de auto-segurança de um combatente ou de uma equipa implica que estes tenham hábitos diários, por forma a que os procedimentos de segurança sejam cumpridos com rigor no momento do combate.

Nos incêndios florestais, normalmente, a auto-confiança sobrepõe-se à auto-segurança. O combate é diversas vezes executado baseando-se, quase exclusivamente, em experiências passadas e na repetição de acções quase por instinto, sem ter em consideração o conjunto de perigos objetivos e subjetivos. Hoje, mais do que nunca, os combatentes têm que estar preparados para incêndios resultantes da combinação explosiva “alterações climáticas e alterações do uso e da ocupação do solo” que dão origem a incêndios de elevada complexidade e severidade, altamente destrutivos. Logo, de pouco valerá basear-se apenas em experiências passadas, ignorando por completo o nivelamento progressivo da segurança.

domingo, 27 de julho de 2014

Trovoadas e Raios e Incêndios Florestais. Cuidados Especiais

Desenvolvido e postado por:
Emanuel de Oliveira
Publicado no Blogue dos GTF's do Alto Minho
18/07/2013

Fonte: wildfiretoday.com
Ultimamente tem-se assistido no Norte da Península Ibérica a diversas ocorrências derivadas da trovoada, pelo que considerei importante aprofundar melhor este fenómeno atmosférico e as suas consequências em matéria de defesa da floresta contra incêndios e a segurança dos combatentes.
O risco de trovoadas em tempo quente e seco é muito elevado e, muitas vezes, estas trovoadas desenvolvem um importante aparato eléctrico que pode levar à ocorrência de incêndios florestais.

A humidade reduzida nos combustíveis florestais, provocado pelas altas temperaturas da época e a escassa pluviosidade registada no período entre o final da Primavera, Verão e início do Outono, facilitam a ignição dos combustíveis pela queda de raio.

A formação de trovoadas produzem-se frequentemente pela tarde e associada ao relevo mais montanhoso que forçam o ar a subir, pelo que nestas condições, os raios podem cair no final da tarde e durante a noite, em locais de difícil acesso (normalmente nas proximidades das vertentes). As condições de escuridão e os ventos erráticos, moderados a fortes, durante a trovoada dificultam o ataque inicial.

Fonte: wildfiretoday.com
Outra característica importante dos incêndios provocados por queda de raio é que podem manifestar-se
muitas horas depois ou inclusive após dias de ocorrer a descarga eléctrica, pois se um raio cai num dado terreno este pode gerar uma combustão lenta que manifestará mais tarde, quando as condições meteorológicas facilitem a propagação originando um incêndio florestal.
Sendo assim, após a trovoada, é importante a busca de locais onde se produziram as quedas de raios, com o fim de eliminar pontos quentes.

No caso de Vila Nova de Cerveira, o território tem vindo nos últimos três anos a assistir a ocorrências geradas por quedas de raios: duas em período diurno (2010 e 2011) e uma em período nocturno (2012), com particular incidência nas freguesias de Covas e Sapardos.

Este tipo de fenómeno atmosférico obriga à monitorização da parte dos serviços de protecção civil e de defesa da floresta (SMPC/GTF) através das cartas de seguimento de queda de raios, disponibilizadas pelas agências meteorológicas.

SEGURANÇA FACE À TROVOADA E AOS RELÂMPAGOS

http://wildfireworld.org
Todos aqueles que trabalham ou exercem uma actividade ao ar livre e, principalmente em ambientes de montanha, devem estar conscientes da potencial ameaça de ser atingido por um raio – PERIGO OBJECTIVO.

Tomando como referência Espanha, cujos dados encontram-se devidamente monitorizados desde 1941 e transcrevendo o artigo de JM Vinas, no site eltiempo, teremos um maior contacto com a realidade deste fenómeno: “Na actualidade, o número de pessoas que morre anualmente vítimas dos raios situa-se entre as 10 e as 15. Esta quantidade supera pelo menos as 10 vítimas que tínhamos durante a década de 1980 e princípios dos anos 90, devido fundamentalmente ao auge dos desportos e às actividades de ar livre (e possivelmente por uma actividade de trovoada de maiores proporções), ainda que o número é muito inferior ao registado nos anos 40, 50 e 60, em que morriam em média cerca de 70 pessoas por ano. A população naquela altura vivia maioritariamente nas zonas rurais, dedicando-se à diversidade das actividades agrícolas e silvo-pastoris.

Cerca de 30% das vítimas atingidas por raio morrem e 74% dos sobreviventes ficam com sequelas permanentes.
Mais de 70% dos óbitos por fulminação dão-se entre Junho e Agosto e 92% entre Maio e Setembro, coincidindo assim com o período de maior risco de incêndio florestal.

Estes acidentes podem ocorrer devido à ignorância, desde o comum cidadão ao combatente, de reconhecer a trovoada como um fenómeno atmosférico perigoso, pela incapacidade de reconhecer a ameaça potencial de um raio, ou a falta de conhecimento sobre as regras de segurança a ter face a este potencial perigo.

Antes que comece a queda de raios (relâmpagos)

  1. Saiba identificar a proximidade de uma trovoada pela evolução das nuvens típicas.
  2. Seja sempre consciente de quanto tempo vai demorar para alcançar um abrigo SEGURO, se uma trovoada ocorrer.
  3. Observar quando novas trovoadas começam a desenvolver-se.
  4. O serviço de protecção civil deverá observar pelos mecanismos existentes, através das cartas de monitorização de quedas de raios e comunicar a ameaça relâmpagos.
  5. Colocar observadores/vigilantes para actuarem em caso de incêndio florestal.
  6. No verão, em dias de formação de trovoadas, devem-se retirar de trabalhos no campo e em zonas elevadas antes das 16 UTC (17 horas de Portugal), pois a partir desta hora é quando se formam um maior número de trovoadas. A vigilância das equipas de combate a incêndios deverá ser realizada junto à viatura ou dentro dela, pois esta funcionará como refúgio perante a queda de raios.
  7. No caso de sentir cócegas na pele ou que o cabelo tende a ficar de pé e que os objectos metálicos de pontas metálicas (antenas de rádio) emitem um estranho zumbido, assemelhando-se ao som de uma colmeia ou produzem faíscas, então a trovoada está muito próxima. Isto significa que o ambiente onde nos encontramos transformou-se em condutor, ao ponto de gerarem-se descargas entre duas pessoas ou pessoas e objectos.
  8. Se notar algum destes sinais deverá imediatamente retirar-se para um local seguro.

Fonte: www.funnytimes.com
Quando já está a decorrer a queda de raios

Estimar a sua distância em relação ao último relâmpago usando o método denominado “flash-to-bang”: A distância da trovoada é estimada através do cálculo da diferença de tempo entre o relâmpago (luz) e o trovão (som). A velocidade do som no ar é de aproximadamente 343 m/s. Estimamos que um raio encontra-se a 1,0 km para cada 3 segundos contados. Se o relâmpago cair a menos de 8,5 km (cerca de 25 segundos de distância), devemos OBRIGATORIAMENTE e IMEDIATAMENTE deslocar-nos para um abrigo seguro, se possível. Uma vez que o raio caia a 8,5 km, o próximo relâmpago pode ocorrer onde você está, pelo que há a necessidade de procurar um local seguro antes que o raio caia mais perto. Por cada 10 segundos contados entre o trovão e o raio, devemos considerar que existe cerca de 3 km de distância entre nós e a queda do raio.

Roy Sullivan, guarda florestal dos EUA foi 7 vezes atingido por raios entre 1942 e 1976 e... não morreu!
  1. Quando fora e longe de veículos ou edifícios, procure uma floresta densa com pequenas árvores, rodeada por árvores altas. Fique longe de árvores isoladas.
  2. NUNCA começar a correr durante uma trovoada e com a roupa molhada, pois é extremamente perigoso, uma vez que criará turbulência no ar e uma zona de convecção que atrairá o raio.
  3. Não fique numa área aberta (clareira) com mais de 90 m de diâmetro.
  4. Afaste-se de todo o material metálico (ferramentas) e coloque-o a uma distância superior a 30 metros de distância.
  5. Desligue os aparelhos de rádio-comunicação e telemóveis, cujas radiações electromagnéticas podem atrair os rádios.
  6. Não se coloque em locais elevados, como um cume, cabeças e vertentes de ravinas, afloramento de rocha, ou um telhado.
  7. Não esteja na água ou num barco. Afaste-se de planos de água, pontos de água, rios e ribeiros, bem como linhas de água.
  8. Não se refugie à entrada de grutas ou de uma rocha (lapa), pois o raio pode entrar precisamente através das aberturas existentes. Somente é seguro o refúgio em grutas profundas e largas, no mínimo com um metro para cada lado.
  9. Em espaço aberto, se estiver em grupo (equipa de combatentes), afastem-se uns dos outros a distâncias superiores a 30 metros e coloquem-se em posição de segurança.
  10. Em espaço aberto (por exemplo: planalto ou campo, sem floresta) a posição de segurança recomendada é sentar-se sobre uma mochila ou impermeável, baixar a cabeça e colocar as mãos sobre os joelhos. Mantenha-se assim até passar a trovoada. Esta posição mantém a pessoa isolada e evita que sobressaia na paisagem.
  11. Evite estar próximo ou em contacto com elementos mais altos e isolados que podem ser propensos a serem atingidos por raios.
  12. Evite estar próximo ou em contacto com grandes estruturas metálicas, tais como antenas, postes ou cercas de metal.
  13. Construções metálicas com tampo em pedra ou outras estruturas não condutoras eléctricas não são locais seguros. Não toque em nada ligado à rede eléctrica, linhas telefónicas ou canalizações.
  14. A melhor opção é dirigir-se para o interior do veículo, mas não toque nos lados do veículo. Dentro do veículo, mantenha-se com os vidros fechados e feche as entradas de ar.
  15. Definitivamente, sempre que seja possível, procure refugiar-se dentro de um edifício fechado.


Se um raio alcança uma pessoa

  1. As pessoas atingidas por um raio não mantêm a descarga eléctrica, pelo que pode-se socorrer sem correr qualquer risco.
  2. Peça auxílio por telefone, chamando o 112.
  3. A pessoa atingida por raio recebe uma descarga eléctrica e pode ter queimaduras por onde o raio a atingiu e por onde a electricidade abandou o corpo. Verifique se existem queimaduras em ambas partes. As queimaduras, normalmente, devem-se procurar nos dedos das mãos e pés e em zonas de contacto com fios, medalhas, relógios, anéis, pulseiras.
  4. Se a vítima apresenta pulsação e respira, observe e cuide de outras possíveis lesões.
  5. Se a vítima está inconsciente, comprove se tem pulsação e se respira.
  6. Se tem pulsação mas não respira, aplicar a respiração boca-a-boca.
  7. Se observa que a vítima não apresenta pulsação, então entrou em paragem cardíaca, aplique de imediato a técnica de Reanimação Cárdio-Pulmonar (RCP). As pessoas que sofrem uma paragem cárdiorespiratória por raio, têm uma maior probabilidade de sobreviverem quando comparadas com outras causas, se se iniciarem as manobras de reanimação com prontidão.
  8. Uma descarga eléctrica pode causar danos no sistema nervoso, fracturas e perda de audição ou visão. Entre 80 a 90% das pessoas vítimas de fulminação podem sobreviver se receberem no imediato os cuidados de socorro adequados.
  9. Manter a vítima quente até à chegada da equipa de socorro.
  10. Se uma pessoa atingida por raio, aparentemente não apresenta feridas de importância, deve no entanto ser assistida por um médico para avaliar o seu estado de saúde.

sábado, 28 de junho de 2014

Os sábios e os incêndios

Seguidamente, transcreve-se um artigo de opinião do especialista em assuntos económicos e políticos Francisco Sarsfield Cabral que levanta algumas questões pertinentes sobre a problemática dos incêndios florestais. Apesar de não ser um técnico ou conhecedor aprofundado desta temática, faz afirmações muito interessantes que nos chamam a atenção pelos repetitivos erros e nada mudar em Portugal!

Francisco Sarsfield Cabral
30-08-2013

Seria mais interessante, mas mais trabalhoso, saber por que motivo nada de eficaz se concretizou em escala significativa ao longo de tantos anos.

Como desde há décadas tem acontecido, uma grande vaga de incêndios florestais suscita dezenas de opiniões sobre como resolver o assunto. Só que o excesso de fogos não se resolve repetindo receitas inexequíveis.

Falta limpar as matas, repete-se pela enésima vez. E lá vêm de novo propostas para pôr soldados, presos, desempregados, beneficiários do rendimento social de inserção, etc. A limpar matas e a abrir caminhos. Não se diz se com algum salário, ainda que simbólico. Nem o que fazer com os resíduos (biomassa?). Denuncia-se que as matas do estado dão mau exemplo em matéria de limpeza. E que as leis não são cumpridas. Também se critica o excesso de eucaliptos e de pinheiros – as espécies que dão dinheiro e depressa.

Seria mais interessante, mas mais trabalhoso, saber por que motivo nada de eficaz se concretizou em escala significativa ao longo de tantos anos. Se calhar, está errada a ideia defendida desde há quase um século de que Portugal deve ser um país de floresta. Talvez interesse, afinal, ter mais agricultura e menos árvores. É tudo uma questão de incentivos.

sábado, 21 de junho de 2014

Análise ao novo Regulamento do Fogo Técnico

Por: Emanuel Oliveira

Após uma atenta análise ao novo Regulamento do Fogo Técnico, segundo o Despacho n.º 7511/2014 homologado pelo Secretário de Estado das Florestas e do Desenvolvimento Rural, o qual altera o Despacho n.º 30/90, de 15 de maio, do Presidente da Autoridade Florestal Nacional, homologado e publicado em anexo ao Despacho n.º 14031/2009, de 22 de junho, podem-se constatar grandes alterações. Obviamente, todavia não é possível determinar e avaliar ainda o seu real impacto.


O certo é que à partida vai no sentido oposto a uma das recomendações definidas pela Resolução da Assembleia da República n.º 51/2014, publicada no passado dia 12 de Junho de 2014 em Diário da República a que recomendava ao Governo entre diversas medidas:
«2.1 — Concentrar numa única entidade a coordenação operacional de prevenção e de combate aos incêndios florestais, mantendo o planeamento na responsabilidade das entidades que atualmente a detêm;».

Isto porque o actual Regulamento do Fogo Técnico separa as competências do uso do fogo! Por um lado temos o ICNF no âmbito do fogo controlado, por outro lado temos a ANPC no âmbito do fogo de supressão.
Acção de Fogo Controlado
A questão que agora se levanta é: Será que a ANPC passará a ter competências na área florestal, nomeadamente na prevenção? Desviando-se Portugal do caminho seguido pelos demais países da Europa no que concerne ao combate florestal, tal como já foi referido no anterior artigo.

Fazendo nós a analogia relativamente a um incêndio numa embarcação em pleno mar, acaso não é a Marinha a única entidade competente para a supressão do fogo e salvamento dos tripulantes e bens? Então porque é a Marinha e não a ANPC ou outro organismo a proceder ao socorro e à supressão? A resposta é bem simples: porque conhece e domina o meio! 

Então porque na Floresta tem sido tudo tão diferente?

O certo é que temos assistido a uma perda de várias competências do organismo que a detinha há mais de um século – os Serviços Florestais do Estado. Para quem não sabe ou não se recorda os Serviços Florestais detinham:

  1. a gestão florestal (contudo hoje fala-se na delegação de competências para o sector privado);
  2. as acções de prevenção estrutural (hoje partilhadas com as autarquias e organizações de produtores florestais);
  3. o combate aos incêndios florestais (hoje na competência da ANPC);
  4. a fiscalização e policiamento (o Corpo da Guarda Florestal encontra-se há vários anos integrado na GNR);
  5.  a vigilância e a coordenação dos postos de vigia (hoje na competência da GNR e já se fala na transferência para os municípios);
  6. e agora o uso do fogo técnico (competência partilhada com a ANPC). 

E, avaliando pelos resultados que ano após ano se verificam, parece-nos que essas sucessivas transferências de competências não se materializaram na desejada concretização dos objectivos pré-estabelecidos, diluindo-se comodamente as responsabilidades pelo maior número possível de estruturas e organismos. Mas isto é outra conversa, analisemos pois o novo Regulamento do Fogo Técnico.

As duas grandes novidades deste novo Regulamento encontram-se precisamente no:

  • Ponto 2 do Artigo 18.º que estabelece que a credenciação de técnicos em fogo de supressão passa a ser competência da ANPC.
  • Artigo 25.º que estabelece a figura (bem-vinda) do Operacional de Queima.

No entanto, lembramos que a legislação portuguesa é rica em abrir excepções e aqui surge mais uma excepção - ponto 6 do Artigo 18.º, em minha opinião pessoal é positiva se a reduzirmos à função exclusiva de operacional de fogo de supressão, para a qual não é necessário ser um licenciado para executar uma acção de supressão com recurso ao fogo. A excepção estabelece que para além da experiência e do preenchimento de 5 relatórios de incêndios e da formação obrigatória, o operacional deverá deter a “formação de base de nível 5 ou superior, definidos no QNQ”, ou seja a qualificação de nível pós-secundário não superior com créditos para o prosseguimento de estudos de nível superior (12º Ano e CET - Curso de Especialização Tecnológica), conforme Portaria nº 782/2009, de 23 de Julho.
Acção de Formação em Fogo de Supressão
Todavia esta nova versão falha rotundamente por não obrigar ao Técnico de Supressão à prática de um mínimo de horas de fogo controlado no período prévio a cada nova campanha de incêndios florestais. A realização de acções de fogo controlado constituem a melhor escola para o conhecimento do comportamento do fogo e dos factores que o influenciam e o necessário conhecimento do território de “jogo”. O uso do fogo de supressão, dada a variabilidade dos factores que determinam o ambiente de fogo, não pode ser assumido nem encarado da mesma forma como “quem anda de bicicleta e que nunca mais esquece”!

Contudo, vale a pena recordar que a função de Analista de Incêndios, cujo papel é de extrema importância para a definição de uma estratégia de combate com recurso a tecnologias sofisticadas e de interpretação e avaliação dos factores que determinam o ambiente e comportamento do fogo, carece de formação específica quer ao nível científico quer de experiência prática em fogos controlados. Logo, não devem ser confundidas as funções do Técnico de Supressão com o Analista de Incêndios. Ambos são essenciais no Teatro de Operações e trabalham em conjunto. O Analista de Incêndios também poderá garantir as funções de observador (Look Out) e de segurança, dada a informação com que trabalha e trata para fornecer ao COS, no apoio à tomada de decisão.

No que respeita ao Operacional de Queima é sem dúvida alguma uma vantagem no TO contar com operacionais que independentemente das suas habilitações académicas, detenham formação específica e experiência. Por mais simples que pareça, este elemento é de elevada importância para o sucesso das operações com fogo, quer no fogo controlado quer no fogo de supressão. Normalmente, comparativamente a outros países a este elemento dá-se-lhe a designação de Técnico de Ignição (ou seja, é o “homem do pinga-lume”). Contudo, relembro a mesma falha por não exigir a prática de um mínimo de horas de fogo controlado no período prévio a cada nova campanha de incêndios florestais.

Por último, com a nova redacção e a consequente separação de competências em função do uso do fogo técnico, constata-se a extinção do GAUF – Grupo de Análise e Uso do Fogo (no âmbito estrutural conforme hoje conhecemos)!

terça-feira, 17 de junho de 2014

Análise às Recomendações da Assembleia da República ao Governo – Prevenção de Incêndios

Por: Emanuel Oliveira

No passado dia 12 de Junho de 2014 foi publicada em Diário da República a Resolução da Assembleia da República n.º 51/2014 que recomenda ao Governo a adoção de medidas com vista a assegurar maior eficácia no âmbito da prevenção e combate aos fogos florestais. Apesar de se encontrar um pouco fora de prazo no que respeita à prevenção, sempre permitirá operacionalizar algumas das recomendações após a campanha de incêndios em que nos encontramos.

E é precisamente nas recomendações ao nível das medidas de prevenção que hoje nos iremos focar, destacando as principais e tendo em consideração a sua importância no que respeita à operacionalidade, permitindo a execução de diversas medidas e ações logo após este verão que promete ser difícil.
Antes de comentar, destacam-se as principais recomendações em matéria de prevenção referenciadas na dita Resolução:

1 — RECOMENDAÇÕES GERAIS:
1.2 — Rever o edifício legislativo florestal e a sua relação com a proteção civil, mantendo a necessária coerência e fazendo evoluir o atual modelo existente;
1.3 — Garantir a estabilidade orgânica da autoridade nacional florestal, de forma a manter a consistência e a continuidade das competências do Estado na defesa da floresta contra os incêndios, bem como a assegurar previsibilidade na relação com os diferentes agentes do setor florestal;
1.4 — Garantir os fundos públicos (do Orçamento do Estado e de fundos comunitários) para a execução das políticas de prevenção, reforçando o Fundo Florestal Permanente;

2 — RECOMENDAÇÕES LEGISLATIVAS:
2.1 — Concentrar numa única entidade a coordenação operacional de prevenção e de combate aos incêndios florestais, mantendo o planeamento na responsabilidade das entidades que atualmente a detêm;
2.5 — Adaptar a legislação e a regulamentação da utilização do fogo técnico, ao nível: i) Da prevenção (fogo controlado) através da criação de um programa nacional de gestão de combustível;
3.8 — Incentivar modelos de planeamento, de execução e de gestão da prevenção intermunicipal com a sua necessária monitorização por parte do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas, I.P., (ICNF, I.P.), avaliando -se o custo -benefício dos Planos Municipais de Defesa da Floresta Contra os Incêndios (PMDFCI), com vista à sua simplificação, priorizando -se as ações de prevenção antecipadamente estabelecidas;
3.9 — Identificar o responsável pela execução e manutenção da rede primária da faixa de gestão de combustíveis, assumindo o Estado a sua efetiva coordenação e a sua execução subsidiária, prevendo -se a possibilidade de o seu financiamento ter lugar através de fundos comunitários, nomeadamente os fundos de coesão;
3.10 — Reforçar o programa de sapadores florestais, através de: i) Atingir os objetivos previstos no PNDFCI; ii) Reequipar as equipas mais antigas; iii) Definir o conceito de serviço público que as equipas prestam e retomar a sua formação em articulação com o ICNF, I.P., privilegiando exercícios de ações de apoio ao combate aos incêndios florestais;
3.11 — Aumentar e profissionalizar as equipas GAUF (Grupos de Análise e Uso do Fogo), em função da necessidade de melhorar o ritmo de execução e manutenção da rede primária e de apoiar a estratégia de combate indireto aos fogos florestais;
3.13 — Criar um programa nacional de autoproteção e construção de comunidades resilientes a catástrofes, de iniciativa interministerial, envolvendo autarquias, organizações florestais e populações.

COMENTÁRIO ÀS RECOMENDAÇÕES EM MATÉRIA DE PREVENÇÃO:


Sem sombra de dúvida é necessário proceder à alteração do quadro legislativo em matéria de defesa da floresta contra incêndios, procurando uma melhor articulação com a legislação em matéria de protecção civil. No entender da larga maioria dos técnicos com competências na DFCI (Defesa da Floresta Contra Incêndios), o quadro legislativo deveria assemelhar-se ao praticado nos demais países da Europa ou em outros países como Canadá, EUA e entre outras nações, onde a prevenção e o combate de incêndios florestais encontram-se agrupados no organismo com competências florestais.
Em Portugal, as competências do combate transferiram-se no início da década de 80 do século XX para o então Serviço Nacional de Bombeiros, cortando-se a relação e o conhecimento acumulado de mais de um século que os combatentes florestais detinham. O corte foi de tal modo abrupto que até hoje não foi possível nivelar, mesmo com a reintrodução (positiva) de novos elementos profissionais como sapadores florestais, GIPS-GNR e a Força Especial de Bombeiros, na tentativa de preencher uma lacuna que parece ter-se agigantado com o passar dos anos e com o conformismo dos sucessivos governos.


Agora chegou a vez da prevenção, no entanto a recomendação não é clara no que se refere à agregação das competências de prevenção e combate em matéria florestal, isto é, serão agrupadas no ICNF ou na ANPC? Se a opção for a primeira, então será devolver a competência a quem gere o património florestal e indiscutivelmente tem um profundo e secular know-how e assim uniformizar-se com as entidades homólogas dos demais estados já referenciados. Pelo contrário, se a opção for a segunda, algo que tem sido reclamado por alguns elementos conotados àquela estrutura, afasta-se do modelo da maioria dos países e cujos resultados, com mais de 30 anos de experiência têm-se afastado dos objetivos desejáveis e inicialmente delineados e até estabelecidos na Estratégia Nacional Florestal publicada em 2006.

Por outro lado, o Fundo Florestal Permanente (FFP) obriga a uma futura reestruturação, com vista a uma maior intervenção em matéria de prevenção estrutural e na constituição de mais equipas profissionais – sapadores florestais, bem como no seu reequipamento com as condições e normas exigidas internacionalmente em matéria de segurança. O FFP não pode ser gasto em áreas que não sejam a prevenção, contudo num passado recente vimos que este fundo já financiou o combate a incêndios mediante a requisição de meios aéreos (como ocorreu em 2011).


É importante recordar e destacar que o FFP tem como objetivo fundamental a aplicação e execução de medidas de prevenção estrutural e o financiamento de equipas de sapadores florestais. O reequipamento das equipas com EPI’s modernos e que cumpram as normas e diretrizes internacionais é essencial. Salienta-se que no passado ano, as equipas de sapadores florestais, ficaram de fora do programa de financiamento que permitiu a aquisição de EPI’s para os bombeiros voluntários. Este financiamento foi parcialmente suportado pelos Municípios, muitos dos quais têm protocolos para o apoio ao funcionamento de equipas de sapadores florestais a as quais, contra a vontade dos autarcas, não foram abrangidas pelo programa promovido pelo MAI.

No âmbito da prevenção salienta-se a obrigatoriedade e a necessidade de planificação e execução da Rede Primária de Faixas de Gestão de Combustível. Esta rede apenas faz sentido tendo em consideração os seguintes critérios:

  1. Uma planificação e execução de âmbito intermunicipal sob a supervisão do ICNF. 
  2. A obrigatoriedade da manutenção futura da Rede Primária, a qual dependerá em grande medida dos municípios.
  3. A eficiência da Rede com base na criteriosa localização (dependente de vários factores) e na sua complementaridade com a criação de Pontos Estratégicos de Gestão visando a anulação de determinados pontos multiplicadores da propagação de um incêndio.
  4. Neste âmbito, face às necessidades de manutenção e considerando o custo de investimento, é fundamental que os municípios se agreguem de forma a partilhar esses custos, bem como implica a preparação de equipas (intermunicipais) que correspondam às reais necessidades de cada território

Incêndio numa Zona de Interface Urbano-Florestal.
Fonte: 
http://osfm.fire.ca.gov/
Relativamente à execução e manutenção da Rede Primária com o recurso ao Fogo Controlado, entende-se a necessidade de criação de equipas territoriais recorrendo aos recursos existentes. Lembro, a título de exemplo que, no Alto Minho existem 17 técnicos formados e credenciados no uso do Fogo Controlado e cerca de 125 elementos pertencentes a equipas de Sapadores Florestais e 35 elementos da equipa GIPS-GNR, o que perfazem na totalidade cerca de 180 profissionais capacitados e disponíveis durante todo o ano para a gestão de combustíveis com o recurso ao fogo técnico. A experiência com o Programa GeFoCo e com a aquisição de serviços externos por parte do Estado demonstrou que o custo não correspondeu aos resultados esperados, ficando muito aquém dos objetivos previamente estabelecidos.
A criação de um programa nacional de autoproteção deverá inicialmente incidir nas Zonas de Interface Urbano-Florestal, quer ao nível da prevenção estrutural quer ao nível da formação dos residentes em técnicas de autodefesa (por ex.º: evacuar ou confinar?) nos territórios de risco.
Não podemos mais assistir a imagens televisivas que testemunham a ação de cidadãos a proteger das chamas os seus bens em tronco nu e calções, ou vermos casas em espaços florestais rodeadas por densas sebes de tuias e ciprestes.
O território rural sofreu uma alteração no uso e ocupação do solo e gradualmente tem sido um destino para uma segunda habitação de uma população cada vez mais “urbanita”, pouco acostumada com o modo de vida rural para além da sua propriedade e que desconhece o alto risco dos incêndios florestais. Neste contexto é fundamental formar uma nova geração de habitantes dos territórios rurais e de zonas de interface urbano-florestal.

O mais importante ainda é que as recomendações não fiquem no papel!

segunda-feira, 16 de junho de 2014

Mais de 500 incêndios na primeira quinzena de junho, o maior no domingo passado


Maior incêndio até agora foi em Amarante. LU

Mais de 500 incêndios foram registados na primeira quinzena de junho, o maior dos quais no domingo passado, tendo sido combatidos por mais de oito mil bombeiros, de acordo com dados da Autoridade Nacional de Proteção Civil (ANPC).

Segundo a página da ANPC na Internet, entre os dias 01 e 15 de junho foram registados 512 incêndios, que foram combatidos por 8.081 bombeiros, com o auxílio de 2.165 veículos e 77 meios aéreos.

O domingo passado foi o dia em que se registou um maior número de incêndios desde o início de junho, com 95 fogos em todo o país, que foram combatidos por 1.948 bombeiros, com o apoio de 517 veículos, segundo a ANPC.

As estatísticas indicam também que na sexta-feira passada (13 de junho) foi o segundo dia com maior número de incêndios, com 53 ignições, que foram combatidas por 1.202 bombeiros, com o auxílio de 323 veículos.

Entre 01 de janeiro e 15 de junho foram registados 3.601 incêndios, sendo que 2.113 deflagraram em zonas de mato, 720 em zonas agrícolas e 768 em povoamento florestal.

Desde o 15 de maio que está em vigor a fase Bravo de combate a incêndios florestais, a segunda mais crítica, envolvendo no terreno 5.175 operacionais, 1.251 viaturas, 34 meios aéreos e 70 postos de vigia.

O dispositivo é reforçado este ano com mais 250 bombeiros e quatro meios aéreos relativamente a 2013 e terá um custo de 85 milhões de euros.

Durante a fase Bravo estão operacionais 512 equipas de vigilância terrestre, 315 de vigilância e ataque inicial e 681 de combate, segundo os dados disponibilizados pelo Dispositivo Especial de Combate a Incêndios Florestais (DECIF).

À fase Bravo — que termina a 30 de junho — sucede a fase Charlie, considerada a mais crítica em risco de incêndios e que decorre entre 01 de julho e 30 de setembro.

As várias fases no âmbito do combate a incêndios são: Alfa (01 de janeiro a 14 de maio), Bravo (15 de maio a 30 de junho), Charlie (01 de julho a 30 de setembro), Delta (entre 01 e 31 de outubro) e Echo (01 de novembro a 31 de dezembro).

O Relatório Anual de Segurança Interna (RASI) relativo ao ano passado revela que 130 pessoas foram detidas em 2013 pelo crime de incêndio, mais 34 do que em 2012, e 48 ficaram em prisão preventiva.

segunda-feira, 9 de junho de 2014

Este verão pode ser o pior de sempre em incêndios

Faltam apenas três semanas para a fase mais crítica de incêndios (conhecida como ‘Charlie’) começar. O inverno chuvoso que se fez sentir aumentou o crescimento de combustíveis e as temperaturas altas que se avizinham podem causar grandes dificuldades aos bombeiros já nos próximos dias, avança o i.

Se 2013 foi quente, 2014 espera-se ainda mais. A Organização Meteorológica Mundial prevê os próximos meses apresentem temperaturas mais elevadas do que as registadas no ano passado e a iminência dos incêndios volta a preocupar.

De acordo com o jornal i, faltam apenas três semanas para a fase mais crítica de incêndios (conhecida como ‘Charlie’) começar e inverno chuvoso que se fez sentir (que levou a um crescimento de combustíveis) aliado às temperaturas altas que se avizinham podem causar grandes dificuldades aos bombeiros já nos próximos dias.

Embora o investimento do Governo este ano seja mais elevado, o presidente da Liga de Bombeiros Portugueses, Jaime Marta Soares, admite que os bombeiros estão “preocupados”, uma vez que “este ano há muito combustível, o que ajuda a propagação dos incêndios”.

No que toca à prevenção de fogos, mesmo os que apresentam mão criminosa, o responsável confessa que “continua a haver um mau planeamento e um mau ordenamento da floresta, resultado de más políticas nacionais”.

Além do combustível produzidos, das temperaturas altas dos próximos dias, Jaime Marta Sores lamenta ainda o facto de existirem ainda muitas matas por limpar.

Para este ano, destaca o i, o Dispositivo Especial de Combate a Incêndios Florestais conta com um reforço de mais 250 bombeiros e quatro meios aéreos. Além disso, cada operacional terá guias de bolso e manuais de segurança.


Para a fase mais crítica, entre 1 de julho e 30 de setembro, estarão no terreno 2.220 equipas de diferentes forças, 9.697 elementos, 2.027 veículos e ainda 49 meios aéreos.


Observação Particular: Mais uma vez aqui se prova que a receita continua a ser a mesma - investimento e reforço do dispositivo de extinção. Por outro lado, ao nível da prevenção estrutural nada há a declarar, porque pouco se investiu! Se apenas fossem investidos 50% na prevenção estrutural (execução da rede primária, execução de faixas de protecção de aglomerados, criação de mosaicos, beneficiação da rede viária e de pontos de água) daquilo que se investe no dispositivo de combate, com certeza que não existiriam declarações como as proferidas pelo presidente da Liga de Bombeiros.

Miguel Macedo confiante no dispositivo de combate a incêndios florestais

Fonte: Antena 1
08 Jun, 2014, 18:41 / atualizado em 08 Jun, 2014, 18:42

O ministro da Administração Interna, Miguel Macedo, mostrou-se hoje confiante no dispositivo de combate a incêndios florestais, apesar de previsões apontarem que o próximo verão poderá ser "um dos piores de sempre".

"Aquilo que nós temos que fazer é preparar o dispositivo e este ano houve um conjunto de ações importantes, quer do ponto de vista do treino, quer do ponto de vista do reforço do dispositivo, para que as coisas corram melhor", afirmou Miguel Macedo em Sernancelhe, onde hoje inaugurou as obras de reabilitação do posto da GNR.
 
O governante comentava aos jornalistas a notícia da edição de sábado do jornal i, segundo o qual "o verão de 2014 poderá vir a ser um dos mais complicados dos últimos anos em matéria de incêndios".

Miguel Macedo admitiu que em dias com centenas de incêndios ao mesmo tempo "é muito difícil, pela dispersão do dispositivo, responder com eficácia a todos esses incêndios", mas mostrou confiança no dispositivo.  

"Vamos aguardar que não seja tão mau quanto a notícia de ontem (sábado) pronunciava", afirmou, lembrando que no ano passado havia prognósticos de que o verão seria "o mais frio de muitas décadas, coisa que não aconteceu", tendo resultado num "conjunto de desgraças grandes".  

(c/ LUSA)

sábado, 10 de maio de 2014

Fase Bravo com 5.175 operacionais em terra a partir de dia 15

Lusa
10 Mai, 2014, 09:10

A fase Bravo de combate a incêndios florestais, a segunda mais crítica, começa no dia 15 e envolve no terreno 5.175 operacionais, 1.251 viaturas, 34 meios aéreos e 70 postos de vigia.
Os dados constam do Dispositivo Especial de Combate a Incêndios Florestais (DECIF), que refere ainda que os meios aéreos não serão disponibilizados logo no início da fase Bravo.

O dispositivo é reforçado este ano com mais 250 bombeiros e quatro meios aéreos relativamente ao ano passado e terá um custo de 85 milhões de euros.

A partir de dia 15, o combate a incêndios contará com oito meios aéreos, sendo que outros cinco serão disponibilizados a 01 de junho, 17 a partir de dia 15 de junho e os restantes quatro no dia 20 de junho, segundo disse à Lusa fonte da Autoridade Nacional de Proteção Civil (ANPC).

Sobre as expectativas em relação à época de incêndios deste ano, em declarações à agência Lusa, Paulo Fernandes, docente e investigador do departamento florestal da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD), disse esperar que a área ardida fique "abaixo da média".

"Espero que as zonas que historicamente são percorridas por grandes incêndios tão cedo não voltem a arder", frisou.

Quanto à influência do inverno chuvoso na ocorrência de incêndios este ano, o investigador sublinhou que a ocorrência de chuvas não faz diminuir muito a ocorrência de incêndios, ao contrário do que se poderia pensar.

"Talvez no sul do país, o facto de ter chovido muito este inverno tenha alguma influência positiva na diminuição de fogos, mas no norte não é tanto assim, o que acontece quando chove muito é que, regra geral, a época de incêndios começa mais tarde porque as terras estão mais molhadas, assim como a vegetação, e levam mais tempo a secar", sublinhou.

Segundo o investigador, o que é mesmo "determinante" na época de incêndios são as temperaturas e também os ventos.

Sublinhou, a propósito, que, de maio a setembro, estão previstas temperaturas acima da média e que o outono também se prevê quente, o que "poderá levar a algum agravamento no que respeita aos fogos".

A Serra da Estrela, a zona de Oleiros e todo o maciço central -- entre Oleiros e Santarém -- são, segundo o investigador, algumas "zonas sensíveis" a que é preciso estar atento, uma vez que "não são atingidas por incêndios de grandes proporções há alguns anos".

De acordo com o inquérito realizado pelo Instituto Nacional de Estatística (INE), os danos diretos dos cinco grandes incêndios - Caramulo, Picões, Trancoso, Mondim de Basto e Covilhã - ocorridos em 2013 ascenderam a 34,2 milhões de euros (ME).

A soma (34,2 ME) resulta dos valores declarados pelos municípios atingidos e representa 0,02 do Produto Interno Bruto (PIB), tendo a área ardida sido de 27.918 hectares (0,30% do território).

A perda mais significativa, segundo o INE, verificou-se no incêndio do Caramulo, com 13,9 milhões de euros (40,6% do total), seguindo-se o incêndio de Picões, com cerca de 10 milhões de euros, sendo este o valor aproximado dos prejuízos causados no conjunto dos outros três grandes incêndios (Trancoso, Mondim de Basto e Covilhã

Durante a fase Bravo estão operacionais 512 equipas de vigilância terrestre, 315 equipas de vigilância e ataque inicial e 681 equipas de combate, segundo os dados disponibilizados pelo DECIF.

À fase Bravo -- que termina a 30 de junho -- sucede a fase Delta, considerada a mais crítica em incêndios, que decorre entre 01 de julho e 30 de setembro.

As várias fases no âmbito do combate a incêndios são: Alfa (01 de janeiro a 14 de maio), Bravo (15 de maio a 30 de junho), Charlie (01 de julho a 30 de setembro), Delta (entre 01 e 31 de outubro) e Echo (01 de novembro a 31 de dezembro).

terça-feira, 6 de maio de 2014

A Mudança Climática e a Floresta Europeia. Preparar ou Esperar?

Por: Emanuel Oliveira
Fonte: "Climate Change 2014
Impacts, Adaptation, and Vulnerability. 
Working Group II Contribution to the 
IPCC 5th Assessment Report 
- Changes to the Underlying Scientific/
Technical Assessment"

O Relatório das Alterações Climáticas no capítulo dedicado às florestas na Europa, publicado pelo IPCC (Intergovernmental Panel on Climate Change) da Organização das Nações Unidas no passado dia 31 de Março de 2014 estabelece que a situação presente e futura da nossa floresta europeia face à mudança climática inclui alterações ao nível das taxas de crescimento, da fenologia, da composição das comunidades de plantas e animais, o aumento de incêndios florestais e danos causados por tempestades e o aumento de pragas e danos patogénicos. Nas florestas do Sul da Europa verificou-se a mortalidade de árvores e o deterioro das florestas devido a episódios de seca severa.


Os investigadores apontam para um aumento do CO2 na atmosfera e temperaturas mais elevadas, o que poderá levar a um crescimento das florestas e da produção de madeira num curto a médio prazo nas florestas do Norte e da Europa Atlântica. Pelo contrário, na Europa do Leste o aumento do risco de seca provocará efeitos negativos, esperando-se uma queda da produtividade. Por volta do ano 2100 espera-se que a mudança climática incremente a redução do valor económico da terra florestal europeia derivado do cenário climático e das taxas de juro, o que equivale a danos potenciais de várias centenas de milhões de euros.

No Sul da Europa assistimos a um aumento da frequência e da extensão dos incêndios florestais, de forma significativa depois da década de 1970 em comparação com as décadas anteriores devido à acumulação de combustível, à mudança climática e aos fenómenos meteorológicos extremos, especialmente no espaço mediterrânico. O Relatório aponta ainda que os acontecimentos mais graves que ocorreram em 2010 em países como França, Grécia, Itália, Portugal, Espanha e Turquia estiveram associados a ventos fortes durante um período seco e de temperaturas altas. No entanto, na generalidade da região mediterrânica, a área ardida global reduziu desde 1985 e o número de incêndios florestais igualmente diminuiu desde o ano 2000 até 2009, apresentando uma grande variabilidade anual.
Em Portugal, segundo documentos oficiais publicados pelo ICNF a tendência da área ardida total tem vindo a descer desde 2005, contudo o número de ocorrências tem-se mantido estável, sem grandes oscilações, desde 2009.
Incêndio Florestal de Castrocontrigo (Leon - Espanha) em Agosto de 2012
O relatório refere ainda a ocorrência de Mega-Incêndios Florestais (MIF’s, definição derivada conceito Megafire) desencadeados nas últimas décadas por eventos climáticos extremos que levaram a recordes máximos de áreas ardidas em alguns países do espaço mediterrânico (por ex.º: o incêndio de Tavira e S. Brás de Alportel (Portugal) em 2012, o incêndio de Castrocontrigo (Leon, Espanha) em 2012.
Segundo o mesmo documento prevê-se um aumento do risco de incêndios florestais no Sul da Europa com um incremento na ocorrência de dias de alto risco bem como na duração do período de incêndios. Igualmente, o relatório prevê um preocupante aumento da superfície queimada anualmente.
No Norte de Europa, os incêndios prevêem-se a ser menos frequentes devido ao aumento da humidade.
Em termos gerais, o aumento previsto dos incêndios florestais provavelmente conduzirá a um aumento significativo das emissões de gases de efeito estufa devido à queima da biomassa, ainda que seja difícil de quantificar.
Queda de árvores num povoamento florestal na Landes (França) por ventos tempestuosos.
Actualmente os danos provocados por ventos tempestuosos nas florestas da Europa têm aumentado recentemente. As florestas boreais tornar-se-ão mais vulneráveis a estes riscos de tempestades ocorridas no outono e início da primavera devido à prevista diminuição do solo congelado. O aumento das perdas por tempestade poderá rondar entre 8 a 19 % nos territórios ocidentais da Alemanha, entre os anos 2060 a 2100, com maior impacto nas regiões montanhosas.

Segundo a FAO, muitas florestas europeias foram afectadas por um considerável aumento de doenças. Na Europa Continental algumas espécies de fungos beneficiam dos invernos mais suaves e outros propagam-se durante os períodos de seca. O previsto aumento de episódios de aumento de temperatura durante o verão mais tardio, ou seja para final da estação, favorece a disseminação e expansão dos escolitídeos nos países da Escandinávia e nalgumas regiões da Europa Central e Áustria, com maior incidência nas zonas mais baixas.
Espécies de Pinheiro-bravo afectados pelo nemátodo do pinheiro.
Sendo assim, o Relatório sobre a Mudança Climática apresenta um complexo e preocupante conjunto de cenários, conferindo-lhe níveis de probabilidade de ocorrência, prevendo os seguintes impactos para a floresta europeia: 

  • O aquecimento climático aumentará a produtividade das florestas do Norte da Europa (média probabilidade), apesar dos danos causados pelas pragas e doenças em todas as sub-regiões que aumentarão devido à alteração climática (alta probabilidade). 
  • O risco de incêndios florestais no Sul da Europa (alta probabilidade) e os danos causados pelas tempestades no Centro da Europa (baixa probabilidade) também podem aumentar com as alterações climáticas.
  • A alteração climática pode produzir danos ecológicos e sócio-económicos pela alteração das espécies arbóreas florestais (média probabilidade) e na dispersão das pragas.
  • As medidas de gestão florestal podem melhorar a resiliência dos ecossistemas (média probabilidade).

Alterações no risco de incêndios florestais na Europa durante dois períodos.
A Resposta

O mesmo Relatório sobre a Mudança Climática aponta um conjunto de respostas a ter em consideração, visando tornar a floresta mais resiliente face às alterações climáticas e aos cenários previstos.

  1. A resposta possível aos impactos na floresta resultantes da mudança climática implica medidas e a operacionalização de estratégias a curto e longo prazo que se centrem na melhoria da resistência e da resiliência dos espaços florestais.
  2. A floresta fragmentada em pequena escala (minifúndio) pode limitar a capacidade de adaptação.
  3. O ordenamento do território e a gestão do combustível pode reduzir o risco de incêndios florestais, mas pode ser limitado pela alta inflamabilidade devido a condições de seca e de temperaturas elevadas.
  4. As estratégias para reduzir a mortalidade das florestas implicam a preferência por espécies melhor adaptadas às condições ambientais relativamente quentes.
  5. A selecção das famílias e clones tolerantes ou resistentes pode reduzir o risco de danos por pragas e doenças.
Recorda-se que o Alto Minho à semelhança dos restantes territórios da Região Norte de Portugal tem vindo a promover um desenvolvimento económico baseado no aproveitamento dos recursos naturais, apostando no sector primário e incrementando fortes investimentos no sector turismo. A Mudança Climática e os cenários previstos ao afectarem a floresta, com certeza por efeito dominó acarretará graves consequências aos investimentos públicos e privados no Turismo, fortemente dependente da paisagem, da biodiversidade e das actividades rurais e agro-silvo-pastoris que têm contribuído para a manutenção desses preciosos recursos. Tais onerosos investimentos implicam medidas preventivas que salvaguardem a manutenção e conservação da qualidade desses recursos, caso contrário as perdas económicas serão muito superiores às previstas apenas para o subsector florestal, atingindo de forma transversal os demais sectores económicos, ultrapassando em muito as centenas de milhões de euros previstas e afectando directamente a sustentabilidade de toda a Região Norte.

segunda-feira, 5 de maio de 2014

Dia Internacional do Combatente de Incêndios Florestais

No 4 de Maio celebra-se este dia, cuja iniciativa surgiu em 1999 para recordar cinco combatentes que morreram no ano anterior num incêndio florestal no condado de Victoria (Austrália)


30.04.14
Por ROSA PLANELLES
Universidad Politecnica de Madrid

O Dia do Combatente Florestal foi instituído em 1999 por proposta de JJ Edmondson em reconhecimento ao trabalho de cinco companheiros que perderam a vida no incêndio florestal ocorrido em 2 de Dezembro, próximo de Linton, a 140 km a oeste de Melbourne. Cada ano, desde então, celebra-se este dia ao nível internacional que se fez coincidir com o dia de S. Floriano, padroeiro dos bombeiros. Segundo conta a lenda, Floriano era um bombeiro que comandava um batalhão real em Roma por volta do ano 300 d.C, o qual salvou uma aldeia inteira rodeada por chamas, utilizando apenas um balde de água.
Como símbolo associado a este Dia aparece o laço vermelho e azul, cujas cores, utilizadas para identificar os serviços de emergência em todo o mundo, representam respectivamente os elementos fogo e água.

Em Espanha é neste ano 2014 que diversas instituições e grupos estão a implicar-se do forma mais notória para dar repercussão a este dia (http://www.ingenierosdemontes.org/Contenidos.aspx?id=dia-internacional-bombero-forestal-2014). Assim a Universidad Politécnica de Madrid, com este breve artigo contribui a dar visibilidade a este importante grupo que, em muitos casos, não goza do reconhecimento que merece.

O fogo, presente em todas as partes, desde sempre

Na era actual de 2.0 todos podemos ter acesso de forma imediata a qualquer notícia e estamos “acostumados” a seguir em directo um ciclo anual de incêndios florestais que percorre o mundo (Austrália, Estados Unidos, Indonésia, Filipinas, Malásia, América Latina, Rússia e, com certeza, os fogos mediterrânicos desde a Grécia a Espanha).

Mas, desde quando? Inclusive antes do surgimento do ser humano sobre a terra, o fogo com origem em causas naturais já desempenhava um papel decisivo na evolução da vegetação, pelo que existem espécies com mecanismos de adaptação e estratégias que lhes permitiram conviver com o fogo e perdurar até aos nossos dias (sobreiros, pinheiro das canárias, estevas…).
Desde que o homem descobriu o fogo começou a utilizá-lo para modificar as condições de vida (aquecer-se, cozinhar, lutar,…) e alterar o seu meio (gestão da vegetação e da fauna). Mas não se começam a estabelecer limites ao uso do fogo até que existe um poder político que regule e ordene o seu uso.

O que é um incêndio florestal?

A Lei 43/2003, de 21 de novembro, de Montes define o incêndio florestal como o fogo que se estende sem controlo sobre combustíveis florestais situados no monte. Entendendo-se por monte todo o terreno em que vegetam espécies florestais arbóreas, arbustivas, de matos ou herbáceas, seja espontaneamente ou com origem em sementeira ou plantação que cumpram ou possam cumprir funções ambientais, protectoras, produtoras, culturais, paisagísticas ou recreativas.
Segundo dados oficiais publicados pelo Ministerio de Agricultura, Alimentación y Medio Ambiente (MAGRAMA) correspondentes ao decénio 2002-2012, o número médio de ocorrências que se produzem em Espanha é de aproximadamente de 16 000 que afectam uma superfície média de 50 000 ha.

Quais são as CAUSAS dos incêndios florestais?

Em matéria de incêndios florestais, os factores que deram origem à situação actual no âmbito mediterrâneo
são conhecidos (as chamadas causas estruturais): o abandono dos usos tradicionais (a recolha de lenhas e o pastoreio extensivo, entre outros), o êxodo da população rural e o abandono das superfícies agrícolas (incremento da superfície florestal), um ordenamento territorial que não considera o risco de incêndios, a falta de gestão florestal, a falta de rentabilidade das superfícies florestais, a grande eficácia na extinção (que provoca o que se conhece como o paradoxo da extinção: quanto maior a eficiência na extinção dos incêndios, mais se favorece a ocorrência de incêndios de difícil extinção).

Igualmente, no cenário de mudança global em que nos encontramos, a mudança climática (prevê-se o aumento de mais de um mês de seca por ano) está incidindo, já não apenas no incremento da biomassa, mas também na ocorrência de fogos cada vez mais complexos na sua gestão, extinção e prevenção.

De forma geral os incêndios de acordo com a sua causa imediata (acção que produziu o fogo de forma directa ou indirecta) classificam-se em cinco categorias: naturais (raios ou vulcões), intencionados, negligentes e acidentes, reprodução e causa desconhecida. A Figura 2 recolhe a informação relativa ao último decénio em Espanha, no qual se observa que 96% das ocorrências têm origem por actividades humanas, por negligência ou acidentes ou de modo intencional (MAGRAMA, 2012).

Como se organiza a extinção de incêndios florestais em Espanha?

Actualmente, as competências em matéria de incêndios florestais têm carácter quase exclusivo das comunidades autónomas, reservando-se ao Estado Central a função legislativa básica. Igualmente o Estado Central dispõe de meios de extinção próprios que são colocados em todo o território espanhol como ferramentas de apoio aos meios de cada Comunidade Autónoma. A criação da Unidade Militar de Emergências permitiu um novo elemento na actuação dos meios estatais em grandes incêndios.
Em Espanha não existe um modelo único de organização em matéria de extinção de incêndios florestais, mas diversos modelos que são aplicados por cada Comunidade Autónoma, ainda que todos dispõem de um Plano que estabelece os protocolos de actuação. O elemento básico na planificação das acções de extinção é a coordenação de yodos os meios participantes, humanos e materiais.

Como se aborda a extinção de um incêndio florestal?

A extinção de um incêndio baseia-se em “eliminar” uma das partes do triângulo do fogo, actuando sobre o
OXIGÉNIO (sufocação), sobre o CALOR (arrefecimento) ou sobre o COMBUSTÍVEL (eliminação).

O objectivo básico é a extinção do fogo da forma mais rápida possível, com o máximo de eficácia e o cumprimento total das regras e normas de segurança.

Para isso tem-se em linha de conta uns objectivos parciais, uma estratégia (em função dos bens a proteger, os meios disponíveis e a evolução do fogo) e empregam-se diversos métodos de ataque, directo e/ou indirecto, com o uso de ferramentas manuais e mecânicas, maquinaria pesada, autobombas e meios aéreos. Sendo o mais importante de tudo, o pessoal que usa estes meios, o que enfrenta o fogo, o que nos protege a nós e aos nossos bens e o que defende o meio natural, OS COMBATENTES.

Quem são os combatentes (a quem se dedica este Dia 4 de Maio)?

Em Espanha são muitos e muito diversos, com denominações variadas, alguns “ocultos” sob siglas ou identificações por vezes confusas para quem não está familiarizado com este sector, COMBATENTES aos quais vamos tratar de nomear seguidamente: peões florestais, peões especialistas, capatazes de Brigadas Florestais, Quadrilhas Florestais, Brigadas provinciais, de Autonomias, de Consórcios de Bombeiros, Brigadas de Emergências, Brigadas helitransportadas: BRIF, CAR, HELIF…, Brigadas Rurais, Bombeiros Florestais, Agentes Florestais, Agentes do Meio Ambiente, Agentes Rurais, operátios de maquinaria pesada, condutores de automboma, pilotos de meios aéreos, pessoal da UME …

E são “bons combatentes”?

Pode-se afirmar que a extinção em Espanha alcançou um grande nível de profissionalismo e eficiência pois, anualmente, cerca de 70% das ocorrências ficam por fogachos, isto é, não ultrapassam um hectare e para além disso, a superfície média afectada por cada incêndio reduziu-se consideravelmente nos últimos anos. Quando os incêndios não se podem controlar nos primeiros momentos podem converter-se em Grandes Incêndios Florestais (GIF), ocorrências com mais de 500 ha que sendo aproximadamente 0,2% do total são responsáveis por mais de 40% da superfície queimada. Na maioria dos casos estes incêndios produzem-se em condições de meteorologia adversa e em zonas com muita carga e continuidade de combustível.

Como se encontram hoje os combatentes?

Apesar deste aumento geral da eficiência dos operacionais, a presente situação de crise económica está a produzir efeitos que o próprio grupo de combatentes está transmitindo à opinião pública nos últimos meses através de diversas acções, a mais destacada ao nível nacional a Marcha do Fogo, celebrada no passado 1 de Março, em Madrid. Algumas destas reivindicações recolhem-se seguidamente por entender-se que forma parte do espírito do Dia do Combatente o dar visibilidade à sua situação actual.

  • Falta de estabilidade laboral que dificulta a profissionalização (uma percentagem muito alta do pessoal é contratado por períodos de entre três e quatro meses ou entre seis e nove).
  • Falta o reconhecimento da categoria profissional do “bombeiro florestal” que dignificaria a sua profissão.
  • Acesso a uma formação “continuidade e de qualidade” e uma melhoria das suas condições laborais (jornadas de trabalho mais curtas, menor ocorrências, …).

Outra das suas exigências é que a cidadania conheça e aprecie o seu trabalho que é um dos objectivos do Dia do Combatente.

Para além disso, neste Dia recorda-se todos os companheiros que perderam a vida na luta contra o fogo. É oportuno destacar neste sentido o prémio “Batefuegos de Oro”, uma iniciativa que se realiza todos os anos desde 2002 para reconhecer publicamente as pessoas e/ou entidades que trabalham para reduzir o número e os efeitos dos incêndios florestais que se produzem anualmente no nosso país, fazendo um reconhecimento expresso aos falecidos em cada campanha.

Que podemos fazer mais?

Os cidadãos devemos extremar as precauções quando fazemos uso do meio rural e florestal. A prevenção de incêndios é uma causa de todos: respeitar as proibições na hora de fazer fogo, não cometer imprudências (fósforos, beatas mal apagadas, churrasqueiras, etc.), não abandonar o lixo no monte e colaborar com as autoridades em caso de suspeita de que alguém está por detrás da origem de um incêndio.
Todos devemos de assumir a nossa responsabilidade na protecção das florestas e reconhecer os que defendem com o seu trabalho, os COMBATENTES.

Rosa Planelles é professora de Incêndios Florestais do Grau de Engenharia Florestal da Universidad Politécnica de Madrid


NOTA: Em Espanha não são contabilizados para registo estatístico e avaliação da eficácia do dispositivo de extinção os incêndios inferiores a 1000 m2 (0,1 hectare). A título de exemplo, no Alto Minho, 54% do total de ocorrências registadas entre 2005 e 2013 apresentam áreas inferiores a 1000 m2, pelo que se quisermos medir o sucesso da extinção teremos que analisar apenas os restantes 46% de ocorrências. Saber mais aqui: Alto Minho em Foco: Diminuição do número de incêndios com áreas superiores a 1 hectare - Meta Não Cumprida

Traduzido por: Emanuel de Oliveira