terça-feira, 2 de julho de 2019

Crónicas do Fogo em Terra de Vera Cruz. O primeiro contacto com o Povo Gavião

O barulho da rua movimentada, os sons do boteco, não impediram que descansasse durante a noite. Na verdade, fui vencido pelo cansaço. Às 07 horas da manhã estava a pé e depois de um duche revigorante, tomei o café, ou melhor, assim chamam no Brasil ao pequeno-almoço servido com pão de queijo, ovos mexidos, pão de trigo, bolo caseiro, suco de caju e suco de cajá, entre outras iguarias locais, e café ao estilo americano.

Havia uma grande ansiedade dentro de mim, pois teria o meu primeiro contacto com o Povo Gavião e com o Cerrado. Seria um dia marcante, pois não sabia o que ia encontrar e o meu conhecimento resumia-se a artigos científicos e teses académicas. Estava como na véspera do meu primeiro dia de aulas ou do meu primeiro dia de trabalho, ou na primeira vez que subi um cume nos Picos de Europa. Estava preparado? Não, mas quem está preparado para o desconhecido? Assim, assumi desde o início este caminho que teria que percorrer.
Foto 1 - Quartel do Corpo de Bombeiros Militar de Imperatriz
O horário marcado com o Corpo de Bombeiros Militar de Imperatriz estava previsto para as 08:00 horas, a pouca distância do hotel onde nos encontrávamos. Cumprindo criteriosamente o horário, com pontualidade militar, a qual parece ser universal, conhecemos os elementos da equipa que nos apoiaria na Terra Indígena de Governador, sendo liderada pelo Tenente Evandro de Abreu. No primeiro momento que conhecemos cada elemento, percebemos que estávamos perante uma equipa bem preparada técnica e fisicamente e cuja postura inicial demonstrou ser, desde logo, altamente disciplinada. Das instalações do 3º Batalhão de Bombeiros Militar do Maranhão partimos para a cidade mais próxima da Terra Indígena de Governador.

Teríamos que percorrer cerca de 110 km, o que nos levaria aproximadamente 2 horas. Imediatamente partimos, seguindo a estrada estadual MA-122, um verdadeiro corredor panorâmico, onde pude deliciar-me com as paisagens que avistava a partir da viatura e com as explicações dos meus amigos e colegas nesta “aventura”. O percurso é pontuado pelas lombas, aqui chamadas de “quebra-molas”, pois quem se atrever a passar sem praticamente parar, é capaz de nunca chegar ao destino. Pequenas cidades foram surgindo junto ao negro asfalto, cujos simples edifícios pintados de cores garridas marginam a estrada e contrastam com o verde carregado da vegetação e um luminoso céu azul. Delas recordo alguns nomes, como Senador La Roque e Buritirana. No meio do casario simples, algumas das construções em adobe (aqui designadas casas de taipa de mão ou pau-a-pique), destacam-se os melhores edifícios que pertencem a inúmeras igrejas evangélicas. As fazendas vão compartimentando a paisagem onde se podem ver inúmeras cabeças de gado de raça bovina, como pontos brancos num fundo verde.
Foto 2 - A rua próxima ao hotel onde ficamos alojados, coberta de areia e pó
Durante o itinerário, eu vou tentando absorver tudo o que vejo, questionando os colegas e. de máquina fotográfica ou telemóvel em punho, vou tirando fotografias. Peço amiúde ao Fillipe para reduzir a velocidade, de modo a poder fotografar. Ainda bem que, a maior parte das vezes, ele fingia que não ouvia, caso contrário nunca chegaríamos ao destino a horas decentes.
Por volta das 10:00 horas, chegámos a Amarante do Maranhão. Esta cidade, com cerca de 40 mil habitantes, nasce nos anos 50, por força dos produtores agrícolas que vão desbravando no Cerrado Maranhense novas terras para cultivo, em conflito com os povos indígenas. Acabados de chegar, vamos ter com o nosso contacto da FUNAI (Fundação Nacional do Índio) que nos integrará na Terra Indígena de Governador. A FUNAI é um organismo do Governo Federal e tem por missão coordenar e executar as políticas indigenistas, proteger e promover os direitos dos povos indígenas do Brasil.
Aproveitando estarmos perto do hospital, fomos, por convite do Tenente Evandro, visitar um bombeiro do CBM de Imperatriz que se encontrava internado. O pequeno hospital era um edifício simples, muito longe das condições que encontramos em qualquer hospital português. As visitas e pacientes amontoavam-se na entrada, à espera da sua vez.
Foto 3 - Contacto com elementos da da FUNAI em Amarante do Maranhão para podermos aceder à Terra Indígena de Governador
Depois de chegarmos a acordo e de ser identificada a pessoa que seria o nosso elo de ligação com a aldeia indígena, dirigimo-nos para aquele que, segundo o cartaz existente à entrada da cidade, seria o melhor hotel de Amarante do Maranhão. Não era mentira, pois é o único que lá existe!
Numa rua asfaltada, mas coberta de terra e pó e do derrame dos efluentes de casas e lojas, ali estava o que seria o nosso alojamento por cerca de uma semana. Carregámos as pesadas malas para o andar de cima por uma estreita e íngreme escadaria que nos levaria a um pequeno quarto onde tinham colocado três pequenas camas, cada uma encostada a uma parede e cobertas com lençóis, cada um com o seu padrão e alguns buracos a fazerem parte da decoração. No centro, tinha uma mesa e uma cadeira, ambas plásticas, e um televisor com algumas décadas, que nunca funcionou. A casa de banho tinha um duche, um lavatório e uma sanita (vaso, no Brasil) e um buraco na parede que servia de arejador e também à entrada de mosquitos e melgas, os temidos pernilongos que já ocupavam o quarto antes de nós chegarmos. Se não tratássemos deles, com certeza eles tratariam de nós! Havia que proceder a uma ação de exterminação antes de nos deitarmos. Antes de sairmos, ligou-se o ar condicionado e percebi que dormir seria uma questão de me habituar ao ruído do aparelho.
Uma vez instalados, fomos almoçar num restaurante, onde saboreamos um prato típico maranhense – a Panelada –,feito com tripas, acompanhado obviamente com arroz e feijão, sem nunca faltar a farofa. É um prato muito parecido com as portuguesas “Tripas à moda do Porto”.
Imagem 1 - Aldeia de Governador. Fonte: Google Earth
Um pouco antes das 13:00 horas locais, partimos para a Terra Indígena de Governador, mais precisamente para a Aldeia de Governador, onde nos esperaria o Cacique. A aldeia ficava a cerca de 10 km da cidade, o que nos levou a fazer um percurso de aproximadamente 15 minutos. Abandonámos a estrada asfaltada para entrarmos no Cerrado, por uma estrada poeirenta de areia vermelha. O ar condicionado do carro disfarçava a temperatura exterior, superior a 35 ºC , e uma humidade relativa superior a 75%. À medida que chegávamos à aldeia, o meu coração batia mais forte, pois o meu sonho estava prestes a realizar-se. Iria estar na presença de um povo indígena e em pleno Cerrado. Não fazia eu a mínima ideia de que este contacto com o povo e com a terra iria desencadear em mim um processo de desconstrução do meu pensamento sobre o uso do fogo prescrito.
Foto 4 - Chegada da nossa equipa às instalações da Brigada Indígena de Governador à entrada da aldeia
Às treze horas em ponto chegámos à aldeia, onde nos esperavam alguns elementos da Brigada Indígena de Governador, constituída com o apoio da FUNAI e do IBAMA PrevFogo. O PrevFogo é o Centro Nacional de Prevenção e Combate aos Incêndios Florestais dentro do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis, cuja missão é prevenir e combater os incêndios florestais em todo o território nacional, formar brigadistas e usar o fogo prescrito na gestão da paisagem. Jeferson, o nosso guia, apresentou-nos o Cacique Evandro (xará do Tenente Evandro, ou seja, o seu homónimo) e fez o enquadramento da nossa visita, tal como já tinha sido acordado semanas antes com o indigenista responsável da FUNAI. O Cacique é uma definição para designar o índio que é responsável pela tribo, tem um papel político, sendo responsável por organizar e comandar a tribo, assim como punir internamente.
Foto 5 - Reunião com o Cacique Evandro
O Cacique Evandro é um jovem com 31 anos, também funcionário da FUNAI. Demonstrou ter um grau cultural bastante elevado e ser muito bem informado, assim como ter um sentido de humor inteligente e apurado, apesar do seu aspeto sisudo, o que permitiu um ambiente muito descontraído. Mostrou-nos logo que nesta Terra Indígena não deveríamos estar à espera de índios a viver como há 50 anos, apesar de ainda existirem alguns grupos de “isolados” que mantinham modos de vida mais tradicionais. Pelo que pudemos verificar durante a enriquecedora conversa e segundo alguns estudos que pude ler, houve um processo persecutório por parte do “homem branco”, entre os séculos XVIII e XIX, fazendeiros provenientes dos estados da Bahia, Pernambuco e Pará que, aos poucos, foram invadindo o território. Mais tarde, a partir da década de 50 do século passado, dá-se um novo processo de ocupação branca, com os grandes fazendeiros provenientes dos estados da Bahia, Minas Gerais e São Paulo. Lendo os jornais atuais, são inúmeras as notícias de índios mortos na região e no Estado, em resultado dos conflitos por invasão da terra indígena, caça furtiva e saques de madeira. Não me admira que andem armados dentro da aldeia e desconfiados com os forasteiros.
É relativamente recente a aculturação ocidental, iniciada a partir de 1960 com os missionários da New Tribes que se instalaram entre o Povo Gavião Pyhcop catiji. Aos poucos, vou apercebendo-me das consequências destrutivas de todo este processo, tão semelhante aos de outras regiões do Brasil, inclusive com consequências irreversíveis para a conservação dos biomas e, neste caso, colocando hoje em risco o Cerrado.
Foto 6 - Entrevista à anciã com mais idade da Aldeia Governador
Após cerca de hora e meia de reunião, com a apresentação do projeto e dos seus objetivos por parte de Fillipe Tamiozzo, pedimos ao Cacique a possibilidade de ouvir as pessoas mais velhas da aldeia. No Brasil, disseram-me, dizer “velho” é pejorativo, pelo que devemos dizer “anciãos”. O Cacique levou-nos até à pessoa com mais idade na aldeia, a qual nos poderia dar muita informação sobre o uso do fogo por parte do Povo Gavião Pyhcop catiji, D.ª Teresa, cujos 100 anos não lhe roubaram a lucidez e a sabedoria que só se ganha com a idade e a experiência. D.ª Teresa não fala português, na realidade o seu verdadeiro nome é Chakui (Xýcwyi). Os missionários, ao abrigo de uma suposta evangelização, foram levando até estes povos a sua cultura e alterando os modos, costumes e tradições indígenas, inclusive mudando os nomes dos índios. O nome original do Cacique é A’Cahuc ‒ que significa “Pé de Bananeira-brava”‒, Evandro é apenas um nome “cristão”.
Foto 7 - D.ª Teresa, ou melhor D.ª Chakui, com cerca de 100 anos, fala-nos como o Povo Gavião usava o fogo, na sua juventude 
Próximo das construções de tijolo vermelho, cobertas de telha, ficámos à sombra de uma construção típica, feita com madeira e coberta com folhas de Buriti, onde uma panela de ferro sobre um braseiro cozinhava lentamente o jantar. Sentámo-nos num banco de troncos, aos pés da anciã. As crianças brincavam no chão, fazendo desenhos entre resíduos de plástico dispersos ou brincando com garrafas plásticas de refrigerantes. As galinhas e os cães deambulavam por entre o casario que se dispunha em forma de círculo e no centro da aldeia pastavam umas quantas vacas.
Foto 8 - Na aldeia o fogo continua a ser utilizado na confeção dos alimentos
Foto 9 - Crianças Gavião a brincar, enquanto os adultos falam sobre o fogo no tempo dos seus avós e bisavós
Com a ajuda do Cacique na tradução, ficamos a perceber que quando Chakui era jovem, o fogo era usado, na aldeia, para os fins mais diversos e quem organizava a queima era o “Chamador” (um responsável hierarquicamente abaixo do Cacique). A queima era levada a cabo pelos índios da tribo mais experientes e faziam muito mais fogo do que atualmente, pois era necessário para a caça e para a produção e recolha dos frutos do Cerrado. Algo que me deixou surpreso foi a fase da Lua como condicionante de prescrição da queima, entre outras ricas e importantes informações que tornariam imensamente extensa esta crónica, porém serão descritas nos produtos deste trabalho de investigação. Não menos importante foi o dado de que os índios desta tribo deixaram de usar o fogo durante várias décadas, até as suas terras terem sido percorridas por dois grandes incêndios devastadores e, em consequência, o IBAMA PrevFogo introduzir novamente a queima prescrita a partir de 2017.
Video 1 - Um curto excerto da enriquecedora entrevista
 O dia passou rapidamente, chegámos ao final da tarde e acordámos com o Cacique a visita, no dia seguinte, das áreas percorridas por queimas prescritas e pelos incêndios de 2013 e de 2017. Saímos da aldeia pensativos, cada um assimilando e meditando sobre tudo o que nos foi dito. Ao chegarmos à cidade, fomos comprar os alimentos e produtos necessários para o almoço do dia seguinte, que seria confecionado na aldeia. No supermercado, tudo se vende, inclusive poções de banho e elixires, assim como essências perfumadas para afastar o mau olhado, atrair riquezas ou amores.
Foto 10 - As poções "milagrosas" para as prometidas mudanças de vida fazem parte das estantes dos supermercados 
Chegados ao hotel, peguei na lata de inseticida e pulverizei de forma contundente o habitáculo, para me assegurar de que acabaria com os pernilongos que ali estavam para nos sugarem o sangue. Apenas segui conselhos médicos obtidos na consulta de vacinação tropical, que teria de ter o máximo cuidado com estes bichinhos! Logo a seguir, abandonámos o quarto, pois “se não morríamos pela doença, morreríamos pela cura”, tal era a intensidade do inseticida. Aproveitámos e fomos jantar numa churrasqueira da cidade; pouco tempo depois, regressámos ao hotel, para o merecido descanso.

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