domingo, 10 de fevereiro de 2019

Fogo Prescrito ou Fogo Proscrito

Elaborado por: Emanuel Oliveira

Ultimamente, temos vindo a assistir a várias manifestações fundamentalistas de uma emergente cultura ecourbana cada vez mais presente, inclusive nas decisões políticas, ao ponto de assumir-se como uma ideologia. Esta situação é transversal na larga maioria dos países desenvolvidos, onde o despovoamento do meio rural é cada vez maior, concentrando-se a maior parte da população nos grandes centros urbanos. Por outro lado, assistimos à instalação de indivíduos provenientes dos meios urbanos nas comunidades rurais, porém estes “neorrurais” não têm contacto com o meio, ou melhor não dependem de atividades económicas relacionadas com o espaço, as mesmas atividades que há várias gerações vêm modelando a paisagem, apresentando um profundo desconhecimento das funcionalidades e práticas rurais. Igualmente, constatamos que o espaço comunitário do debate, antes realizado ao nível local nas tascas, tabernas, nas “lojas”, à saída das missas dominicais, transferiu-se atualmente para um nível virtual e no espaço das redes sociais, as quais transpiram de falácias e onde tudo é permitido, mesmo dizendo as maiores asneiras, sem qualquer fundamento científico ou de conhecimento do mundo real, ou porque não dizer do mundo rural. A larga maioria não pretende ouvir ou entender as práticas rurais, mas antes, alçando uma fantasiosa bandeira ecoglobal e impondo de forma invasiva as suas ideias individualistas e deturpadas, num espaço que foi criado durante gerações em comunidade.
Figura 1 - Densidade populacional (INE, 2017). Como se pode verificar, grande parte do país apresenta um território despovoado e uma maior concentração de habitantes no litoral e ao redor das áreas metropolitanas do Porto e Lisboa. 
É neste novo contexto dominado por uma sociedade mais virtual, mais conhecedora das tecnologias de informação, mas mais afastada do mundo rural que, o uso do fogo é atualmente alvo de discussões e de debate, por aqueles que não o conhecem, não o usam, nem entendem a sua ancestral prática e a sua relação com os ecossistemas.

O fogo quando não é bem conhecido não é entendido! Logo o seu uso (ainda que tradicional e uma prática milenar) se converte num crime ambiental e os seus utilizadores, aqueles que durante gerações usaram o fogo para manter a paisagem, são hoje vistos como criminosos. Confunde-se o fogo tradicional, as queimadas pastoris, as queimas de amontoados (fogueiras) com incêndios florestais. Inventam-se motivos e interrelações, exageram-se os impactes do uso tradicional do fogo, criam-se opiniões pouco fundamentadas sobre os impactes do fumo na saúde pública e inclusive no seu contributo para o aquecimento global, assim como os impactes no solo, na vegetação e na fauna silvestre. Saliento que estas práticas são cada vez mais reduzidas quando comparadas com as gerações anteriores, pois a população rural está em declínio há várias décadas e o seu território cada vez mais abandonado.

Seria interessante verificar igual nível de preocupação com o problema da extinção de incêndios de baixa intensidade (que muitas vezes poderiam acabar autoextinguindo-se), alguns de causa natural, porém o que se constata é que todo o fogo deve ser apagado!

Na visão ecourbana o chamado fogo controlado, ou melhor fogo prescrito é também assumido como um fogo proscrito.
Figura 2 - O Ciclo que conduz ao Fogo Proscrito ou Fogo Ilegal
Como técnicos de queima prescrita, devemos ficar apreensivos quanto ao futuro do uso do fogo, se o exagero vier a limitar esta técnica. Não seria obviamente a primeira vez no mundo nem um caso isolado do nosso país. Tal já aconteceu em outros países, cujos resultados da eliminação do fogo prescrito e das queimadas pastoris apenas conduziram a incêndios catastróficos, o que levou mais tarde a reverter esta proibição após comprovarem os benefícios do seu uso e os nefastos efeitos da sua ausência na conservação da natureza e nos ecossistemas dependentes do fogo e da atividade humana.

Não gosto de usar o termo fogo controlado, ainda que seja uma definição legal e com os mesmos critérios e objetivos técnicos que o termo mais indicado – Fogo Prescrito. No entanto, pode levar a interpretações erradas e a facilitismos no uso do fogo, pois este pode ser controlado ou dirigido (como designam os franceses - «brûlage dirigé») e não cumprir prescrições. O fogo prescrito ou queima prescrita segue um conjunto de critérios estabelecidos e experimentados há várias décadas com base em inúmeras investigações, procurando reduzir os impactes do fogo e contribuir para o equilíbrio dos ecossistemas. O fogo é assumido como um processo natural que frequentemente atua como uma parte integrante do ecossistema no qual ocorre. A queima prescrita procura reproduzir os efeitos do fogo natural, sob condições meteorológicas e ecológicas que permitam efeitos que reduzam os impactes e inclusive beneficiem os ecossistemas adaptados ao fogo. Esta é a base da piroecologia!
Figura 3 - Queima prescrita para proteção de povoamentos florestais e renovação de pastagens em zona com pressão pecuária. Parada - Paredes de Coura, janeiro de 2019
Como técnicos de queima prescrita, interessa-nos mais cumprir as prescrições ecológicas e meteorológicas e alcançar os objetivos sociais, económicos e de defesa da floresta contra incêndios, do que apenas controlar o fogo. Aqui reside a grande diferença, controlar o fogo ou cumprir a prescrição, pelo que, como técnicos devemos de monitorizar as nossas queimas, divulgar junto da população as condições e a prescrição, assim como os resultados.

A visão ecourbana de que o fogo deve ser erradicado da paisagem não está alinhada com as recomendações das grandes organizações ecologistas, como a WWF (World Wild Fund), a Greenpeace ou a The Nature Conservancy, onde o uso tradicional do fogo pelas populações rurais e indígenas (devidamente regulamentado) e a queima prescrita executada por técnicos, são assumidas como instrumentos fundamentais para a conservação da natureza e para a redução dos impactes dos grandes incêndios florestais.

Algumas Recomendações:

WWF recomenda:
«In fire-dependent ecosystems, the accumulation of fuel can be reduced by controlled natural and prescribed burning, thus maintaining natural ecological cycles.» Fonte: FORESTS ABLAZE. Causes and effects of global forest fires

Greenpeace recomenda:
«En las zonas de montaña y tradición ganadera, las quemas controladas y los desbroces mecánicos, pactados previamente con los sectores implicados, deben sustituir a los fuegos provocados para regenerar pastos o detener el avance del matorral.» Fonte: IncendiosForestalesPropuestas paraacabar con losincendios

« Aprender a convivir con el fuego: Revisar el modelo vigente de lucha contra los incêndios y recoger las recomendaciones de los expertos y la comunidad científica, para evolucionar hacia una mayor gestión global del combustible, potenciando la actividad silvícola, el aprovechamiento energético de la biomassa forestal, el fomento de la ganadería extensiva, las quemas controladas y la gestión de incendios de baja intensidad, como herramientas y alternativas a la hora de reducir la carga de biomasa forestal.» Fonte: El verano que no queremos que ocurra

The Nature Conservancy recomenda:
«For decades, fire suppression policies and land management practices removed nearly all fire from the landscape, preventing it from conducting its natural role in the environment. This has led to the failing health of many natural habitats and the buildup of thick brush and undergrowth that can lead to dangerous and unnaturally intense wildfires. But now, land managers are working with scientists to use prescribed fires – intentionally ignited and carefully managed– to mimic natural, low-intensity fire.   The correct use of fire can save money, protect lives and improve wildlife habitat.» Fonte: Returning Controlled Fire to the Landscape - Low-intensity prescribed fires protect lives, homes and wildlife habitat.

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