sábado, 16 de fevereiro de 2019

A prescrição no uso do fogo

Por: Emanuel Oliveira

A prescrição no uso do fogo é como a prescrição médica. Fazendo a analogia entre ambas, o técnico à semelhança do médico, de acordo com as condições do paciente, neste caso a paisagem, observa e analisa um conjunto de sintomas apresentados pelo paciente/paisagem o qual se traduzirá num diagnóstico. Depois da fase de diagnóstico é prescrito um tratamento onde se detalha num documento oficial – o Plano de Fogo Controlado (a nossa “receita médica”) - a forma como deve ser aplicado, ou seja, as condições, as “doses” e o período do nosso tratamento. Dado o estado de vulnerabilidade do nosso paciente – a paisagem – poderá ser aplicado um tratamento preventivo, afim de aumentar a resiliência da paisagem e reduzir a perturbação provocada por um potencial incêndio.

O fogo prescrito, sendo um fogo que procura reproduzir um fogo de origem natural, funciona como uma vacina para uma paisagem com um sistema imunitário cada mais debilitado (pelo despovoamento, pelo envelhecimento da população, pela perda de usos do solo), com elevada carga de combustível disponível e vulnerável no quadro das mudanças climáticas. Obviamente que existem outros tratamentos, tais como a roça de matos, seja ela moto-manual ou mecânica, ou mesmo tratamentos mais invasivos como os químicos. Eu prefiro, um programa de “vacinação” dada a sua eficácia e eficiência, porém dependendo das condições do nosso “paciente”.  Entenda-se por isso que o Programa Nacional de Fogo Controlado promovido pelo Estado Português, através do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas é um importante programa nacional de vacinação para as nossas paisagens.
Figura 1 - The Grass Fire, Frederic Remington 1908, Amon Carter Museum, Fort Worth, Texas
Ainda que de forma empírica e muito antes de existirem os “médicos” de hoje, durante várias gerações, o Homem observando o efeito do fogo natural, apercebeu-se da importância do seu uso no tratamento da paisagem e como “curandeiros” foram cuidando desta ao longo dos séculos. É notável, ver o tratamento comum dos “curandeiros” dispersos pelo globo, nas comunidades rurais do velho continente (os nossos pastores) e nas populações indígenas de África, América do Norte, América do Sul ou Austrália, atribuindo a “mezinha” do fogo para as diversas maleitas.

Então, qual a prescrição mais adequada para o uso do fogo no tratamento das nossas paisagens?

Cada caso é um caso! Não podemos fazer prescrições transversais em paisagens diversificadas ou em subunidades paisagísticas ou igual para todos os ecossistemas e biomas. Antes de usar o fogo, temos que responder previamente a algumas questões:

  • Porque vamos usar o fogo num determinado espaço? Para quê? Para quem?
  • Quando vamos usar o fogo?
  • Como vamos usar o fogo?
  • O que esperar após o fogo?

Existe alguma confusão quanto à prescrição. É comum sobrevalorizar a prescrição meteorológica a qual permite manter o fogo sob determinadas condições de controlo e apoiada em recursos humanos e meios – isto é, mais fogo controlado do que fogo prescrito! Como já referi no artigo anterior, não simpatizo com o conceito de fogo controlado quando se trata de fogo prescrito, pelas razões já enfatizadas.
Figura 2 - As condições de prescrição a observar no uso do fogo prescrito
O fogo prescrito vai muito mais além da prescrição meteorológica, pois deve considerar outras condições de prescrição:

Prescrição Ecológica – considerando os ecossistemas e sua recuperação pós-fogo, de acordo com o estado fenológico dos complexos de combustível. Igualmente, devem ser consideradas as condições edafológicas, pois o solo é o suporte de vida dos ecossistemas.

Prescrição Socioeconómica – considerando as necessidades das populações locais, tais como renovação de pastagens ou a cinegética. No caso da renovação das pastagens, a queima deve ter em conta o tipo de gado a as formações vegetais que constituem o alimento deste, pois a técnica, o consumo pelo fogo e estação do ano são importantes para obter os melhores resultados de acordo com as necessidade de cada espécie pecuária (bovinos, ovinos, caprinos e equinos) ou cinegética (coelhos, perdizes, corços, etc.).

Prescrição Técnica – a técnica e método de ignição e condução da queima são essenciais no alcance dos objetivos, procurando reduzir os impactes do fogo no solo e a redução da carga de combustível. Por exemplo, em solos mais pobres e esqueléticos, devemos optar por um fogo rápido, isto é, com um menor tempo de residência, ainda que aparentemente se manifeste como um fogo de alta intensidade, porém o impacte no solo é baixo. Por outro lado, no caso de proteção de zonas de interface ou de outros objetivos de defesa da floresta contra incêndios, é preferível uma efetiva redução da carga de combustível, pelo que o fogo deverá cumprir um objetivo de elevado consumo nas formações vegetais, logo mais tempo de residência.
Figura 3 - Apesar da aparente intensidade do fogo, o curto tempo de residência permite um baixo impacte no suporte dos ecossistemas - o solo
Prescrição Sanitária – bastante comum em países a sul do Equador, onde a queima pode ter um objetivo de controlo de pragas e doenças derivadas, no que respeita à saúde pública e à sanidade animal na produção pecuária, tais como o controlo de carraças (carrapatos). Igualmente, a queima pode ser um recurso eficaz na higienização de pastos para a atividade pecuária e cinegética (em Portugal está pouco estudado o impacto do fogo prescrito no controlo da febre hemorrágica dos coelhos bravos).

Prescrição Estacional – a prescrição estacional está relacionada com a prescrição, socioeconómica e sanitária, pois a época em que usamos o fogo determinará os resultados pretendidos.

Quanto à Prescrição Meteorológica esta é importante para estimar a disponibilidade dos combustíveis em relação ao fogo, para reduzir os impactes, para o controlo da propagação, redução de riscos de piroescape, segurança e para os trabalhos de consolidação da queima.
Figura 4 - O fogo quando é mal entendido é visto como o fim da vida, no entanto a Natureza insiste em mostrar-nos a sua necessidade.
É dever técnico procurar cumprir estas condições de prescrição de acordo com a análise, avaliação e diagnóstico da área onde se pretende proceder a um tratamento com fogo. A par deste trabalho interno, é importante divulgar os objetivos para que a sociedade em geral entenda o seu uso e não se inventem mitos sem qualquer fundamentação. Igualmente, importa registar as condições em que executamos o tratamento, tal como um médico regista no historial do seu paciente. 
O fogo antes de ser entendido pelo comum cidadão, deve ser bem entendido por todos nós, técnicos que usamos o fogo prescrito!

0 comentários:

Enviar um comentário