domingo, 18 de março de 2018

Um Reflexão sobre os Analistas de Incêndios Florestais

Elaborado por: Emanuel Oliveira

Os Grandes Incêndios Florestais (GIF’s) que afetaram em 2017 uma grande parte do território nacional, queimando cerca de 500 mil hectares, colocaram a nu o colapso de um sistema de extinção que se baseia quase exclusivamente na soma de meios e na baixa eficiência e onde a prevenção operacional (não confundir com estrutural) falhou rotundamente.
Foto 1 - Elemento do GAUF. Foto: E. Oliveira, 2010
O fatídico GIF de Pedrógão Grande e de Góis, dada a gravidade pela morte de civis levou à constituição da Comissão Técnica Independente. Sou obrigado a relembrar que as mortes por incêndios florestais não são um caso circunscrito a 2017, infelizmente tem sido recorrente, tal como os GIF’s e, envolvendo principalmente operacionais em combate. Sem querer reduzir a importância das diversas e essenciais recomendações da CTI, centremo-nos naquela que está relacionada com os analistas:

«As previsões meteorológicas a curto e médio prazo são bastante fiáveis, permitindo uma elevada antecipação da sua influência no comportamento do fogo. Os sistemas de informação geográfica e as facilidades de caraterização da ocupação do solo e de caraterização de risco estrutural permitem compreender e antecipar rapidamente a influência da orografia e dos combustíveis no comportamento do fogo. Existe tecnologia (de simulação espacial do fogo) que pode contribuir para aferir e predizer o comportamento do fogo e a propagação dos incêndios.

Adaptar a organização do Sistema e as intervenções às condições previstas e ao comportamento esperado do fogo, garantindo que:

O Sistema deverá ter a contribuição de colaboradores internos e/ou externos capazes de analisar as previsões e as condições presentes e futuras com influência na probabilidade e no comportamento do fogo;» Fonte: Relatório do Incêndio de Pedrógão Grande e de Góis; CTI 2017, pág. 158

É preciso recordar, aquilo que já referi em artigos anteriores, o combate aos incêndios florestais em Portugal é um combate tipicamente reativo, carecendo de análise prévia e de estratégias baseadas no comportamento do fogo presente e previsto, pelo que não é de admirar que os resultados, ano após ano, sejam mais graves, com áreas mais extensas e maior probabilidade de acidentes, apesar de mais meios e de encargos cada vez mais avultados com o dispositivo de combate.

Foto 2 - Reunião Nacional do Grupo de Análise e Uso do Fogo. Foto: E. Oliveira, 2010
Em relação à mediática defesa da CTI e de vários técnicos, onde me incluo, sobre a necessidade urgente de colocar analistas ao sistema, sou obrigado novamente a recordar que por volta do ano 2007, na sequência dos GIF’s de 2003 a 2005, em que o país se viu uma vez mais envolvido em chamas, se tentou integrar um grupo de técnicos para dar apoio à análise e ao uso do fogo nos grandes incêndios florestais. Foi criado o Grupo de Análise e Uso do Fogo (GAUF) sob a tutela da então Autoridade Florestal Nacional, porém não atuou mais do que 3 anos, devido à dificuldade de se integrar num sistema onde a análise era subvalorizada (ao contrário do amplo uso do fogo). Talvez, também tenha contribuído para o insucesso, o facto do GAUF ter sido criado num organismo que em Portugal não tem competências no combate desde a década de 80, pelo que terá sido assumido pelo "setor do combate" como um corpo estranho, logo os “anticorpos” da época não permitiram que o grupo de técnicos se mantivesse e nem souberam aproveitar o seu know-how e a possibilidade da sua integração na estrutura com competências na extinção dos incêndios florestais.

Agora, parece ter tido um déjà-vus e, voltamos novamente, a falar de analistas. Voltamos a querer integrar analistas num sistema que não tem entendido que o combate aos grandes incêndios não tem nada a ver com as pequenas ocorrências e que o combate reativo não se aplica nestas grandes ocorrências ou quando existe um elevado potencial destas ocorrerem. O ano 2017, só demonstrou o que tem vindo a ocorrer em anos anteriores (2016, 2013, 2010 e 2005, 2004 e 2003). Como dizem os colegas da Galiza: “os grandes incêndios florestais requerem mais intervenção com a cabeça do que músculo”, isto referindo-se à necessidade de análise! Por cá, caimos na ilusão do combate musculado!
Foto 3 - Helicóptero de Coordenação e Análise ao serviço da Xunta de Galicia com sistema de gravação de video e partilha em tempo real com o Posto de Comando. Foto: E. Oliveira 2017
Há muito que sabemos da importância do papel do analista no Teatro de Operações. Sim, sublinho e destaco o papel e missão e não um cargo ou lugar de analista, pois muitos acham que ser analista é mais um cargo dentro do vasto sistema hierárquico da maioria das unidades de combate. Se for um cargo, apenas incrementará maior entropia ao sistema.
Nesta altura do ano e após o que se passou em 2017, já deveríamos ter analistas a trabalhar para a campanha de incêndios que se avizinha. Note-se que não é com ações de formação e cursos à pressão que se produzem analistas de incêndios florestais e muito menos com nomeações para cargos, nem o papel do analista se resume ao uso de simuladores.
Foto 4 - Vista interior do Helicóptero, onde o Analista faz a recolha e tratamento da informação do incêndio em tempo real. Na Galiza dá-se uma destacada importância ao papel do analista de incêndios e às forças helitransportadas para um aumento da eficiência. Foto: E. Oliveira, 2017
Como já referi: Analista não constitui um cargo mas uma missão no apoio à tomada de decisão.

Em Portugal tem-se confundido a função do Analista de Incêndios Florestais e o próprio Despacho n.º 7511/2014, de 9 de junho, mesclando o papel de analista com o papel do uso do fogo de supressão, ou seja junta-se a análise com a manobra.

É preciso entender que existem dois níveis de análise e, como tal, dois papéis de analista:
  • Analista Estratégico
  • Analista Táctico ou Operacional
O Analista Estratégico trabalha, normalmente, fora do Teatro de Operações. A sua principal função centra-se no seguimento e monitorização diária antes, durante e pós-campanha de incêndios, desenvolvendo um conjunto de ações que vão desde a revisão meteorológica, monitorização das ocorrências, avaliação, simulação e modelação do comportamento e propagação do fogo, elaboração de relatórios e formação de operacionais, entre outras.
Foto 5 - Analistas Estratégicos do Departamento de Incêndios de Los Angeles (EUA). Fonte: US San Diego News Center
Por sua vez, o Analista Táctico ou Operacional tem um papel junto do Comando no Teatro de Operações, acompanhando e assessorando o COS, no desenho e implementação da estratégia, executando ações que vão desde a interpretação da informação do Analista Estratégico, recolha rigorosa de informação no terreno, elaboração do plano de ação tático e avaliação de manobras complexas de extinção, entre outras.
Foto 6 - Analista Tático obtendo dados meteorológicos no Teatro de Operações. Fonte: International Fire Fighter
O trabalho de análise requer total libertação de outras tarefas de direção do dispositivo de extinção e o tempo necessário para observação e avaliação da propagação dos incêndios ou na pré-ignição (prevenção estratégica). O analista deve ter experiência no terreno quer em incêndios quer no uso do fogo, ser um bom observador de incêndios, deve dominar as ferramentas de SIG, de detecção remota, de meteorologia de incêndios e obviamente, dominar o uso de simuladores. Os analistas não se produzem em cursos, fazem-se com experiência e formação contínua. É importante que o sistema de combate em Portugal integre analistas e aproveite a campanha que se avizinha para capacitar técnico-operacionais e se uniformizem conceitos e técnicas, bem como protocolos de atuação.

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