quarta-feira, 30 de março de 2016

Os Incêndios Florestais face à Mudança Climática

Traduzido por: Emanuel de Oliveira
Fonte: Ministerio de Agricultura, Alimentación 
y Medio Ambiente (MAGRAMA) 


No âmbito do PNACC - Plan Nacional de Adaptación al Cambio Climático (Plano Nacional de Adaptação à Mudança Climática) foi elaborado pelo Ministerio de Agricultura, Alimentación y Medio Ambiente (MAGRAMA) de Espanha o Relatório de Avaliação do estado da Floresta do território espanhol cujo título é - Los bosques y la biodiversidad frente al cambio climático: Impactos, Vulnerabilidad y Adaptación en España – face à proximidade e semelhanças com Portugal aconselha-se a sua atenta leitura. No entanto, seguidamente destacar-se-á de forma sintética o que neste relatório se refere à questão dos incêndios florestais em Espanha face à mudança climática. Dadas as similitudes físicas e ambientais do território, constitui uma chamada de atenção séria para as políticas de prevenção e de gestão seguidas atualmente em Portugal.

  • Os incêndios florestais afetam todo o território, pelo que a gestão e conservação dos ecossistemas terrestres requer ir mais além da prevenção e integrar a ecologia dos ecossistemas em relação ao fogo.
  • A mudança climática incrementará a frequência das situações de maior perigo, assim como a época de incêndios. Até meados do século a mudança climática projetada é pouco variável e independente das emissões dos Gases de Efeito Estufa (GEE). Logo, a planificação futura deve basear-se no clima projetado e não no passado.
  • A gestão deve fazer-se por objetivos específicos, incluindo a diminuição de perigosidade, a manutenção ou melhoria dos serviços ecossistémicos ou a resiliência dos ecossistemas ao fogo ou outros fenómenos extremos. A gestão deve contemplar o uso do fogo prescrito/fogo controlado.
  • Os incêndios concentram-se em algumas zonas. Necessita-se de uma cartografia histórica dos incêndios para poder antecipar-se aos impactos mais indesejados. Há que planificar com especial atenção o interface urbano-florestal.
  • Os cenários dinâmicos de perigo futuro previstos neste Relatório, considerando 5 modelos regionais interrelacionados a dois modelos globais (ensembles), revela de forma inequívoca uma tendência para o aumento do perigo potencial de incêndios na Península Ibérica, em particular um incremento no Norte.
  • O documento, igualmente alerta para a mudança da dinâmica espacial e o risco potencial de incêndios agregado ao processo de renaturalização pelo abandono das atividades tradicionais e o despovoamento. Chamando também a atenção para o incremento da perigosidade provocada pela mudança climática que pode acelerar mudanças na natureza dos combustíveis, sobretudo como consequência da mortalidade vegetal em espécies vulneráveis. Aqui também podemos agregar a substituição de espécies pelo incremento e rápida expansão de espécies pirófitas.

Foto 1 - Incêndio no Estado de Kansas (EUA), Março 2016. Fonte: http://www.kwch.com

Recomendações para a adaptação

Os incêndios florestais distribuem-se por toda a geografia do território, consequentemente não é possível gerir este e os seus ecossistemas terrestres, tanto em zonas protegidas como em zonas sem proteger, sem ter em conta o papel do fogo. A gestão florestal deve ter em consideração o risco atual e futuro e incluir a prevenção nas suas estratégias de desenvolvimento técnico, assim como as anteriores consequências de um incêndio, incluindo a restauração pós-incêndio, dado o enorme dinamismo das zonas queimadas.

A mudança climática traz consigo um incremento do perigo meteorológico médio assim como das situações extremas. Outras mudanças relacionadas com o clima ou a sócioeconomia podem contribuir também para aumentar a perigosidade do território. Os sistemas de combate aos incêndios devem estar preparados para fazer frente a situações adversas mais frequentes que podem desencadear incêndios múltiplos e simultâneos, distribuídos por amplas zonas do território ibérico.

Diferenciar os objetivos da gestão e incorporar a ecologia do fogo para além da prevenção é importante face a um futuro de maior perigo. Há que diferenciar a proteção dos ativos humanos, do interesse económico ou de outro tipo, face aos ambientais de forma explícita, pois a consecução de ambos pode ser contraditória. O fogo como aliado da gestão pode ter lugar, particularmente nos ativos ambientais. Apagar qualquer fogo a qualquer custo pode não ser possível ou rentável (eficiência), inclusive desde o ponto de vista ecológico.

Planificar e prevenir pensando no futuro, com condições diferentes às de ontem é um imperativo. Repetir para a manhã o passado pode ser um erro pois as condições serão diferentes. Isto requer usar ferramentas novas, usando cenários que não se deram necessariamente no passado. Num futuro próximo (até meados do século) a mudança climática que se projeta é bastante independente dos cenários de emissões futuras. Portanto podemos considerar como certo e usar as ferramentas de projeção climática existentes, tanto dinâmicas como estatísticas para os cálculos de perigo futuro e outras ações preventivas.

Os incêndios tendem a repetir-se em certas zonas, consequentemente os impactos não são homogéneos. Antecipar-se aos mais indesejados requer conhecer quais são as zonas mais criticas e planificar as possíveis respostas com antecipação. Para saber isto, a estatística não é suficiente. Há que ter bases de dados que permitam saber onde ocorreram os incêndios de forma espacialmente explícita. Precisam-se de bases de dados cartográficas do passado que permitam conhecer quais são os pontos de maior risco no caso de ocorrência de um novo incêndio.

As zonas de contacto entre o espaço florestal e urbano (ZIUF) constituem o maior problema de proteção civil provocado pelos incêndios. Ainda que exista legislação específica para a proteção do interface urbano-florestal, devem-se buscar formulas que melhorem a eficácia no cumprimento da mesma e incorporar o risco de incêndio na planificação de todo o desenvolvimento urbanístico no contacto com o meio florestal.

A elaboração deste relatório levou-se a cabo através de um amplo processo participativo que implicou inúmeros investigadores e especialistas nacionais e internacionais de diferentes administrações, universidades, centros de investigação e outras organizações. A representatividade deste processo participativo é constatada nos seguintes dados do MAGRAMA:
Um total de 140 autores oriundos de: 13 comunidades autónomas de Espanha, 12 países, um total de 17 universidades nacionais e 18 internacionais, 1 centro de educação e formação profissional, 6 unidades do MAGRAMA, 5 unidades de 5 governos autónomos e 3 organizações não-governamentais.

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