domingo, 22 de fevereiro de 2015

A problemática da Zona de Interface Urbano-Florestal face aos Incêndios

Por: Emanuel Oliveira
Publicado no Jornal VALE MAIS


N.º 38 # FEVEREIRO 2015

A alteração dos usos e da ocupação do solo associado a medidas de ordenamento urbanístico pouco sensíveis à segurança das populações em matéria da vulnerabilidade do território aos incêndios florestais têm vindo a produzir, ano após ano, o consequente aumento do risco.
Foto 1 - Incêndio em perda de alinhamento (flanco direito contra declive) aproximando-se aos aglomerados. Agosto 2013
Desde alguns anos que assistimos ao despovoamento do espaço rural, à perda de população nas aldeias do nosso território com o consequente abandono dos usos tradicionais do solo, tais como a pastorícia, o aproveitamento dos recursos florestais e o abandono dos campos de cultivo, o que levou nos últimos tempos ao aumento do espaço florestal. Este aumento acarreta por outro lado um incremento muito considerável da carga de combustível florestal que se traduz em vastas áreas cobertas de vegetação desordenada, cobrindo e interligando o espaço florestal ao espaço anteriormente agrícola e o espaço urbano. Tal situação permite reunir as condições necessárias a incêndios cada vez mais graves, dada a carga, a continuidade e disponibilidade do combustível. Igualmente, os meios e recursos concentrados na proteção dos aglomerados habitacionais e das moradias isoladas, permitem o aumento da extensão dos incêndios florestais no território, tornando o combate mais difícil e requerendo um aumento do dispositivo para controlo e extinção dos incêndios.

Esta situação normalmente agrava-se nos territórios mais montanhosos, onde é mais acentuado o despovoamento e o abandono dos usos tradicionais do solo e onde se registam importantes mudanças da ocupação do solo.
Foto 2 - O mesmo incêndio (cabeça) progredindo a favor do vento termina ao alcançar os campos de cultivo. Agosto 2013
Convém destacar a importância do pastoreio nestes territórios, não só pela manutenção da carga de vegetação pelos animais, mas também pelo uso do chamado “fogo de inverno” – queimadas - para melhoramento e renovação das pastagens, criando pequenas manchas na paisagem que permitem reduzir a carga e disponibilidade de combustível florestal, reduzindo a propagação de grandes incêndios florestais.

O abandono da gestão florestal por parte de uma grande maioria dos proprietários e gestores florestais, num território cuja propriedade privada caracteriza-se pelo microparcelamento, pouco atrativo do ponto de vista económico, tem levado ao aumento do desordenamento florestal, tornando o espaço muito vulnerável ao fogo.

Todo este conjunto de fatores, associado a uma meteorologia favorável a incêndios, permite a sua ocorrência que, no território do Alto Minho, sucedem ciclicamente, colocando em risco as zonas habitacionais, designadas tecnicamente por Zonas de Interface Urbano-Florestal - isto é a zona em que o espaço florestal entra em contacto com zonas edificadas. A expansão das Zonas de Interface constitui uma dinâmica territorial preocupante em relação com o problema dos incêndios florestais.

Apesar do aumento dos incêndios urbano-florestais não existe ainda uma consciência social por parte da população, nem uma preocupação política consistente sobre este tema, o que produz um marasmo legal e controverso na operacionalidade de medidas e ações concretas para fazer frente a um problema que se agrava anualmente.

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