segunda-feira, 28 de julho de 2014

Segurança nos Incêndios Florestais. Perigos Objetivos vs Perigos Subjetivos

Desenvolvido e postado por:
Emanuel de Oliveira
Publicado no Blogue dos GTF's do Alto Minho
01/06/2013


Um incêndio florestal dá-se e condiciona um ambiente onde o combatente irá defrontar um amplo leque de perigos variados. Esse meio ambiente constitui uma série de riscos potenciais que o combatente deve e tem que conhecer para, pelo menos, preveni-los e minimizá-los.

Perigos e Riscos, contudo ambos conceitos não têm o mesmo significado! São parecidos mas essencialmente diferentes.

O Perigo constitui a fonte ou situação com potencial para provocar danos, sejam no próprio indivíduo seja no espaço físico.
  • No espaço físico: danos ao meio ambiente, em edifícios, em infraestruturas.
  • No indivíduo: lesões, doenças, ou a morte.
Entende-se por Risco a combinação da probabilidade de ocorrência e da consequência de um determinado evento perigoso.

Sendo assim, o Perigo é a fonte geradora e o Risco é a exposição a esta fonte.

Concentremo-nos pois na fonte geradora e procedendo à analogia adoptada para os perigos nos desportos de montanha, vamos proceder de igual modo para as duas tipologias de perigos nos incêndios florestais.

Perigos Objetivos
São os perigos resultantes do ambiente que nada têm a ver com o comportamento do combatente:
  • Comportamento do Fogo
  • Fumos
  • Radiação e Conveção
  • Topografia
  • Meteorologia
  • Modelos de Combustíveis
  • Desabamentos e queda de pedras
Perigos Subjetivos
São os perigos que derivam do comportamento do combatente, ou seja, provocados por ele:
A subvalorização, inconsciência e desconhecimentos dos próprios perigos, do ambiente, do meio, das circunstâncias e da segurança, mais precisamente:
  • Falta de formação
  • Proceder a uma manobra sem dominar a técnica
  • Não conhecer o território, nem saber com exactidão o local onde se encontra
  • Não renunciar a tempo do objectivo por não cumprir dentro da janela de actuação
  • Encontrar-se num incêndio sem equipamentos de comunicação
  • Falta de Equipamento de Protecção Individual (EPI)
  • Incumprimento dos Protocolos de Segurança: LACES, 10 Regras de Segurança e as 18 Situações de Perigo
  • Não levar a cabo uma alimentação adequada
  • Tentar proceder à extinção do fogo sem utilizar os meios adequados
  • Insistir numa manobra/táctica ineficaz
  • Má interpretação do comportamento do fogo
  • Desidratação
  • Meios e ferramentas em condições deficientes
  • Entre outros…
É óbvio e indiscutível que os perigos e os riscos existem no Teatro de Operações, num incêndio florestal. Estão presentes em todo o tempo, desde o foco nascente ao rescaldo, assim como na vigilância preventiva ou no pós-rescaldo. Daí que o combatente fica obrigado a uma preparação adequada, baseada na prática e o cumprimento sistemático dos protocolos de segurança devem estar sempre presentes, quer no combate aos incêndios florestais quer nas acções de queimas prescritas, para que se criem hábitos operacionais que nivelem a auto-segurança do combatente.
Daí a necessidade de não confundir a auto-confiança com auto-segurança.

Treino de procedimentos das Equipas Helitransportadas da Galiza - Base de Toen - Ourense. Foto: E. Oliveira 2012
A auto-confiança reside na capacidade de um indivíduo assumir riscos baseando –se quase exclusivamente em experiências adquiridas em momentos passados e nos meios ao seu alcance, sem que para tal exista a necessidade de nivelar de acordo com as situações que terá que enfrentar durante o combate ao incêndio florestal.
Por outro lado, a auto-segurança reside na capacidade do combatente em assumir riscos baseando-se, para além de experiências e práticas vividas, no nivelamento constante da segurança para cada tipo de perigo a enfrentar, reduzindo o efeito dos riscos.

O melhor exemplo que costumo dar nas formações é a comparação entre o condutor auto-confiante e o condutor auto-seguro. No 1º caso, em virtude da sua larga experiência sem acidentes e grande conhecedor da estrada, por ter uma boa condução, costuma conduzir sem cinto para fazer uns escassos quilómetros – a sua condução baseia-se na sua experiência de sucessos – porém o perigo encontra-se presente e com certeza não se encontra livre de um acidente mortal.
Por outro lado, no 2º caso, o condutor auto-seguro antes de iniciar a marcha coloca o cinto de segurança e com o aumento do trânsito reduz a velocidade, acende as luzes de presença e redobra a atenção. Tal facto, poderá não livrá-lo de um acidente pois o perigo está igualmente presente, contudo dado o nivelamento constante da segurança, com base no aumento do risco, eleva as probabilidades de sair ileso ou pouco afectado de um possível embate quando comparado com o condutor do 1º caso.

Práticas repetidas diariamente pelas helitransportadas. Foto: E. Oliveira 2012
A auto-confiança é inimiga no combate aos incêndios, pois não tem em conta necessidade do constante e  gradual nivelamento da segurança. Os incêndios não são todos iguais e nem um combatente está diariamente nas mesmas condições físicas e psíquicas, contudo os perigos estarão sempre presentes e os riscos poderão incrementar-se, pelo que a necessidade diária de treino de procedimentos é uma obrigação que não deve nem pode ser marginalizada em qualquer circunstância. Um elevado nível de auto-segurança de um combatente ou de uma equipa implica que estes tenham hábitos diários, por forma a que os procedimentos de segurança sejam cumpridos com rigor no momento do combate.

Nos incêndios florestais, normalmente, a auto-confiança sobrepõe-se à auto-segurança. O combate é diversas vezes executado baseando-se, quase exclusivamente, em experiências passadas e na repetição de acções quase por instinto, sem ter em consideração o conjunto de perigos objetivos e subjetivos. Hoje, mais do que nunca, os combatentes têm que estar preparados para incêndios resultantes da combinação explosiva “alterações climáticas e alterações do uso e da ocupação do solo” que dão origem a incêndios de elevada complexidade e severidade, altamente destrutivos. Logo, de pouco valerá basear-se apenas em experiências passadas, ignorando por completo o nivelamento progressivo da segurança.

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