sexta-feira, 2 de maio de 2014

Verão 2014! E se o El Niño surgir?

Por: Emanuel de Oliveira

O Fórum Económico Mundial (FEM) publicou recentemente a nona edição do relatório Riscos Globais 2014 (Global Risks 2014) que aponta quais são os riscos mais prováveis que o mundo enfrentará nos próximos meses. Entre os problemas mais destacados figuram as mudanças climáticas e os extremos meteorológicos.

Um estudo divulgado pela NASA identifica que o ano de 2013 foi o sétimo mais quente desde que a temperatura começou a ser medida sistematicamente, em 1880. Segundo esta agência em 2013 a tendência de longo prazo de um aquecimento global das temperaturas manteve-se. Sendo que os anos mais quentes registados são 2010 e 2005. Nestes mesmos anos, o território do Alto Minho registou a maior superfície de área ardida desde sempre.

Diversos modelos meteorológicos indicam que poderia produzir-se um episódio de El Niño a meados do ano 2014, ainda que seja demasiado cedo para determinar qual será a sua intensidade, segundo a publicação do passado dia 15 de Abril do último Boletim El Niño/La Niña, da Organização Meteorológica Mundial (OMM).
Efeitos excepcionalmente fortes do El Niño de 1982-1983 sobre os padrões de precipitação global.

As temperaturas sub-superficiais das águas do Pacífico tropical aumentaram até níveis similares àqueles registados antes de ocorrer um episódio de El Niño e os diversos modelos climáticos prevêem um aquecimento progressivo do Pacífico tropical nos próximos meses.

O El Niño caracteriza-se por temperaturas anormalmente quentes da superfície do oceano na parte central e oriental do Pacífico tropical, o que terá repercussões consideráveis sobre o clima em muitas partes do globo e elevando a temperatura de todo o planeta. Este episódio, apesar de não afectar directamente a Europa, encontra-se associado a outros fenómenos climáticos que normalmente conduzem a um Verão mais quente e seco no continente.
El Niño começa a intensificar-se. Evolução da temperatura superficial do oceano Pacífico Início do fenómeno El Niño, quando as águas mais quentes chegam à
América Central e à América do Sul causando mais evaporação e consequentemente mais precipitação e alteração dos ventos.

Salienta-se que nenhum episódio de El Niño é igual a outro e existem outros factores que influenciam as condições climáticas. O certo é que os prognósticos de diversos modelos indicam fortes indícios para que se produza um episódio de El Niño para o final do segundo trimestre de 2014. Cerca de dois terços dos modelos estudados prevêem que El Niño alcançará o seu máximo entre Junho e Agosto, enquanto os restantes modelos prevêem uma continuidade de condições neutras ou antecipam a sua ocorrência no mês de Maio.

Meteorologistas da conceituada Universidade Justus Liebig de Giessen (Justus-Liebig-Universität Gießen), na Alemanha, prevêem que o episódio de El Niño vai levar neste ano 2014 a condições de calor sufocante, seca, a grandes incêndios florestais, furacões e inundações em diferentes partes do mundo.

As previsões indicam que os países mais afectados serão aqueles que se encontram mais próximos ao Equador. Contudo os especialistas alertam que El Niño aproxima-se cada vez mais às latitudes médias e altas do Hemisfério Norte. Estudos anteriores atribuem a este fenómeno o calor anómalo que se registou no mesmo Hemisfério entre Junho e Agosto do ano 2010, período durante o qual as altas temperaturas bateram todos os recordes na Europa, América do Norte e no Norte e Centro da Ásia.

Recorda-se ainda que em 2010, o Alto Minho registou um elevado número de GIF’s (Grandes Incêndios Florestais), o que conduziu a uma elevada área ardida no território, praticamente a mesma superfície registada em 2005, aproximadamente cerca de 30 000 hectares.

Área ardida anual entre 2005 e 2012. (Clique na imagem para aumentar)

Considerando a recorrência dos incêndios florestais no território, os quais apresentam ciclos de 3 a 5 anos e observando os dados oficiais disponibilizados pelo ICNF, podemos afirmar que nos encontramos em encerramentos desses ciclos, o que alinhando-se com os episódios prognosticados, caso se efectivem, quer o episódio de El Niño quer as previsões estacionais, parecem antever um cenário difícil para a defesa da floresta e para o combate aos incêndios florestais, principalmente se somarmos o efeito típico da simultaneidade de ocorrências característica no Norte de Portugal. 

Centrando-nos na área total ardida de 2005 e de 2006 que totalizou cerca de 43 000 hectares em dois anos consecutivos, obviamente que os anos seguintes teriam que apresentar superfícies ardidas muito menores, visto que se perdeu uma grande parte do coberto vegetal. Entre 2007 e 2009 a área ardida somada é de cerca de 8 600 hectares. Uma vez reposta a cobertura vegetal, os matos e povoamentos regenerados dos incêndios de 2005 e de 2006 já se encontram disponíveis para voltarem a arder em 2010, cujas condições meteorológicas favoreceram o aumento da susceptibilidade dos combustíveis à ignição e incrementaram a propagação e a intensidade e severidade dos incêndios, permitindo totalizar nesse ano 24 246 hectares de área ardida. Os anos seguintes voltam a apresentar totais acumulados muito mais reduzidos, em 2011 cerca de 5800 hectares, em 2012 menos de 3 000 hectares e em 2013 cerca de 12 200 hectares. Observando a imagem anterior e tendo em conta estes dados, significa que existem extensas áreas cobertas por matos e povoamentos regenerados que não ardem desde 2005 e 2006 e desde 2010, pelo que ocorrendo o episódio de El Niño e as condições meteorológicas previstas assemelhando-se às registadas em 2005 e 2010, podem desencadear situações comuns e muito semelhantes às verificadas naqueles anos no que se refere a um elevado aumento da área ardida no território do Alto Minho.

Esta situação não é inesperada, pelo que importa uma preparação prévia e a monitorização da meteorologia associada aos incêndios florestais durante os próximos meses, implicando a aplicação de medidas e acções preventivas e operacionais em matéria de defesa estrutural e de gestão dos recursos vinculados ao dispositivo de extinção.

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