segunda-feira, 5 de maio de 2014

Dia Internacional do Combatente de Incêndios Florestais

No 4 de Maio celebra-se este dia, cuja iniciativa surgiu em 1999 para recordar cinco combatentes que morreram no ano anterior num incêndio florestal no condado de Victoria (Austrália)


30.04.14
Por ROSA PLANELLES
Universidad Politecnica de Madrid

O Dia do Combatente Florestal foi instituído em 1999 por proposta de JJ Edmondson em reconhecimento ao trabalho de cinco companheiros que perderam a vida no incêndio florestal ocorrido em 2 de Dezembro, próximo de Linton, a 140 km a oeste de Melbourne. Cada ano, desde então, celebra-se este dia ao nível internacional que se fez coincidir com o dia de S. Floriano, padroeiro dos bombeiros. Segundo conta a lenda, Floriano era um bombeiro que comandava um batalhão real em Roma por volta do ano 300 d.C, o qual salvou uma aldeia inteira rodeada por chamas, utilizando apenas um balde de água.
Como símbolo associado a este Dia aparece o laço vermelho e azul, cujas cores, utilizadas para identificar os serviços de emergência em todo o mundo, representam respectivamente os elementos fogo e água.

Em Espanha é neste ano 2014 que diversas instituições e grupos estão a implicar-se do forma mais notória para dar repercussão a este dia (http://www.ingenierosdemontes.org/Contenidos.aspx?id=dia-internacional-bombero-forestal-2014). Assim a Universidad Politécnica de Madrid, com este breve artigo contribui a dar visibilidade a este importante grupo que, em muitos casos, não goza do reconhecimento que merece.

O fogo, presente em todas as partes, desde sempre

Na era actual de 2.0 todos podemos ter acesso de forma imediata a qualquer notícia e estamos “acostumados” a seguir em directo um ciclo anual de incêndios florestais que percorre o mundo (Austrália, Estados Unidos, Indonésia, Filipinas, Malásia, América Latina, Rússia e, com certeza, os fogos mediterrânicos desde a Grécia a Espanha).

Mas, desde quando? Inclusive antes do surgimento do ser humano sobre a terra, o fogo com origem em causas naturais já desempenhava um papel decisivo na evolução da vegetação, pelo que existem espécies com mecanismos de adaptação e estratégias que lhes permitiram conviver com o fogo e perdurar até aos nossos dias (sobreiros, pinheiro das canárias, estevas…).
Desde que o homem descobriu o fogo começou a utilizá-lo para modificar as condições de vida (aquecer-se, cozinhar, lutar,…) e alterar o seu meio (gestão da vegetação e da fauna). Mas não se começam a estabelecer limites ao uso do fogo até que existe um poder político que regule e ordene o seu uso.

O que é um incêndio florestal?

A Lei 43/2003, de 21 de novembro, de Montes define o incêndio florestal como o fogo que se estende sem controlo sobre combustíveis florestais situados no monte. Entendendo-se por monte todo o terreno em que vegetam espécies florestais arbóreas, arbustivas, de matos ou herbáceas, seja espontaneamente ou com origem em sementeira ou plantação que cumpram ou possam cumprir funções ambientais, protectoras, produtoras, culturais, paisagísticas ou recreativas.
Segundo dados oficiais publicados pelo Ministerio de Agricultura, Alimentación y Medio Ambiente (MAGRAMA) correspondentes ao decénio 2002-2012, o número médio de ocorrências que se produzem em Espanha é de aproximadamente de 16 000 que afectam uma superfície média de 50 000 ha.

Quais são as CAUSAS dos incêndios florestais?

Em matéria de incêndios florestais, os factores que deram origem à situação actual no âmbito mediterrâneo
são conhecidos (as chamadas causas estruturais): o abandono dos usos tradicionais (a recolha de lenhas e o pastoreio extensivo, entre outros), o êxodo da população rural e o abandono das superfícies agrícolas (incremento da superfície florestal), um ordenamento territorial que não considera o risco de incêndios, a falta de gestão florestal, a falta de rentabilidade das superfícies florestais, a grande eficácia na extinção (que provoca o que se conhece como o paradoxo da extinção: quanto maior a eficiência na extinção dos incêndios, mais se favorece a ocorrência de incêndios de difícil extinção).

Igualmente, no cenário de mudança global em que nos encontramos, a mudança climática (prevê-se o aumento de mais de um mês de seca por ano) está incidindo, já não apenas no incremento da biomassa, mas também na ocorrência de fogos cada vez mais complexos na sua gestão, extinção e prevenção.

De forma geral os incêndios de acordo com a sua causa imediata (acção que produziu o fogo de forma directa ou indirecta) classificam-se em cinco categorias: naturais (raios ou vulcões), intencionados, negligentes e acidentes, reprodução e causa desconhecida. A Figura 2 recolhe a informação relativa ao último decénio em Espanha, no qual se observa que 96% das ocorrências têm origem por actividades humanas, por negligência ou acidentes ou de modo intencional (MAGRAMA, 2012).

Como se organiza a extinção de incêndios florestais em Espanha?

Actualmente, as competências em matéria de incêndios florestais têm carácter quase exclusivo das comunidades autónomas, reservando-se ao Estado Central a função legislativa básica. Igualmente o Estado Central dispõe de meios de extinção próprios que são colocados em todo o território espanhol como ferramentas de apoio aos meios de cada Comunidade Autónoma. A criação da Unidade Militar de Emergências permitiu um novo elemento na actuação dos meios estatais em grandes incêndios.
Em Espanha não existe um modelo único de organização em matéria de extinção de incêndios florestais, mas diversos modelos que são aplicados por cada Comunidade Autónoma, ainda que todos dispõem de um Plano que estabelece os protocolos de actuação. O elemento básico na planificação das acções de extinção é a coordenação de yodos os meios participantes, humanos e materiais.

Como se aborda a extinção de um incêndio florestal?

A extinção de um incêndio baseia-se em “eliminar” uma das partes do triângulo do fogo, actuando sobre o
OXIGÉNIO (sufocação), sobre o CALOR (arrefecimento) ou sobre o COMBUSTÍVEL (eliminação).

O objectivo básico é a extinção do fogo da forma mais rápida possível, com o máximo de eficácia e o cumprimento total das regras e normas de segurança.

Para isso tem-se em linha de conta uns objectivos parciais, uma estratégia (em função dos bens a proteger, os meios disponíveis e a evolução do fogo) e empregam-se diversos métodos de ataque, directo e/ou indirecto, com o uso de ferramentas manuais e mecânicas, maquinaria pesada, autobombas e meios aéreos. Sendo o mais importante de tudo, o pessoal que usa estes meios, o que enfrenta o fogo, o que nos protege a nós e aos nossos bens e o que defende o meio natural, OS COMBATENTES.

Quem são os combatentes (a quem se dedica este Dia 4 de Maio)?

Em Espanha são muitos e muito diversos, com denominações variadas, alguns “ocultos” sob siglas ou identificações por vezes confusas para quem não está familiarizado com este sector, COMBATENTES aos quais vamos tratar de nomear seguidamente: peões florestais, peões especialistas, capatazes de Brigadas Florestais, Quadrilhas Florestais, Brigadas provinciais, de Autonomias, de Consórcios de Bombeiros, Brigadas de Emergências, Brigadas helitransportadas: BRIF, CAR, HELIF…, Brigadas Rurais, Bombeiros Florestais, Agentes Florestais, Agentes do Meio Ambiente, Agentes Rurais, operátios de maquinaria pesada, condutores de automboma, pilotos de meios aéreos, pessoal da UME …

E são “bons combatentes”?

Pode-se afirmar que a extinção em Espanha alcançou um grande nível de profissionalismo e eficiência pois, anualmente, cerca de 70% das ocorrências ficam por fogachos, isto é, não ultrapassam um hectare e para além disso, a superfície média afectada por cada incêndio reduziu-se consideravelmente nos últimos anos. Quando os incêndios não se podem controlar nos primeiros momentos podem converter-se em Grandes Incêndios Florestais (GIF), ocorrências com mais de 500 ha que sendo aproximadamente 0,2% do total são responsáveis por mais de 40% da superfície queimada. Na maioria dos casos estes incêndios produzem-se em condições de meteorologia adversa e em zonas com muita carga e continuidade de combustível.

Como se encontram hoje os combatentes?

Apesar deste aumento geral da eficiência dos operacionais, a presente situação de crise económica está a produzir efeitos que o próprio grupo de combatentes está transmitindo à opinião pública nos últimos meses através de diversas acções, a mais destacada ao nível nacional a Marcha do Fogo, celebrada no passado 1 de Março, em Madrid. Algumas destas reivindicações recolhem-se seguidamente por entender-se que forma parte do espírito do Dia do Combatente o dar visibilidade à sua situação actual.

  • Falta de estabilidade laboral que dificulta a profissionalização (uma percentagem muito alta do pessoal é contratado por períodos de entre três e quatro meses ou entre seis e nove).
  • Falta o reconhecimento da categoria profissional do “bombeiro florestal” que dignificaria a sua profissão.
  • Acesso a uma formação “continuidade e de qualidade” e uma melhoria das suas condições laborais (jornadas de trabalho mais curtas, menor ocorrências, …).

Outra das suas exigências é que a cidadania conheça e aprecie o seu trabalho que é um dos objectivos do Dia do Combatente.

Para além disso, neste Dia recorda-se todos os companheiros que perderam a vida na luta contra o fogo. É oportuno destacar neste sentido o prémio “Batefuegos de Oro”, uma iniciativa que se realiza todos os anos desde 2002 para reconhecer publicamente as pessoas e/ou entidades que trabalham para reduzir o número e os efeitos dos incêndios florestais que se produzem anualmente no nosso país, fazendo um reconhecimento expresso aos falecidos em cada campanha.

Que podemos fazer mais?

Os cidadãos devemos extremar as precauções quando fazemos uso do meio rural e florestal. A prevenção de incêndios é uma causa de todos: respeitar as proibições na hora de fazer fogo, não cometer imprudências (fósforos, beatas mal apagadas, churrasqueiras, etc.), não abandonar o lixo no monte e colaborar com as autoridades em caso de suspeita de que alguém está por detrás da origem de um incêndio.
Todos devemos de assumir a nossa responsabilidade na protecção das florestas e reconhecer os que defendem com o seu trabalho, os COMBATENTES.

Rosa Planelles é professora de Incêndios Florestais do Grau de Engenharia Florestal da Universidad Politécnica de Madrid


NOTA: Em Espanha não são contabilizados para registo estatístico e avaliação da eficácia do dispositivo de extinção os incêndios inferiores a 1000 m2 (0,1 hectare). A título de exemplo, no Alto Minho, 54% do total de ocorrências registadas entre 2005 e 2013 apresentam áreas inferiores a 1000 m2, pelo que se quisermos medir o sucesso da extinção teremos que analisar apenas os restantes 46% de ocorrências. Saber mais aqui: Alto Minho em Foco: Diminuição do número de incêndios com áreas superiores a 1 hectare - Meta Não Cumprida

Traduzido por: Emanuel de Oliveira

0 comentários:

Enviar um comentário