terça-feira, 15 de outubro de 2013

A Problemática e a Consequência dos Reacendimentos

Após ler detalhadamente o Relatório Provisório de Incêndios Florestais, de 01 de janeiro a 30 de setembro, elaborado pelo Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas, onde em referência a Análise por Distrito se descreve o seguinte:

«O maior número de reacendimentos regista-se no distrito de Viana do Castelo, com 314 casos (cerca de 27% do total), seguido do Porto com 285 reacendimentos (aproximadamente 25% do total).»
Incêndio florestal no Alto Minho, com formação de pirocumulus
Como técnico de DFCI com responsabilidades num Município do Alto Minho e como “alto minhoto” fiquei profundamente preocupado com a realidade que nos afecta, pelo que procurei analisar detalhadamente os dados e o impacto no território derivado de uma tarefa que exige o mais elevado profissionalismo e responsabilidade - o Rescaldo.

Analisados os dados daquele período, o distrito de Viana do Castelo apresentou 1877 ocorrências que conduziram a uma área ardida de cerca 12 207 hectares. O pior destes dados é que da totalidade das ocorrências 409 tiveram origem em reacendimentos que conduziram a 2 368 hectares de área ardida, o que corresponde a cerca de 22% das ocorrências.

Se quisermos ser mais rigorosos na análise com base nos dados ainda provisórios, podemos concluir das 409 ocorrências com origem em reacendimentos (já confirmados):

  • 336 reacendimentos originaram incêndios inferiores a 1 hectare, totalizando 38 hectares de área ardida;
  • 55 reacendimentos originaram incêndios superiores a 1 hectare e inferiores a 10 hectares, totalizando cerca de 152 hectares de área ardida;
  • 13 reacendimentos originaram incêndios superiores a 10 hectares e inferiores a 100 hectares, totalizando cerca de 466 hectares de área ardida.
  • 5 reacendimentos originaram Grandes Incêndios Florestais, ou seja superiores a 100 hectares e totalizando cerca de 1 713 hectares de área ardida.

Note-se que 2 destes reacendimentos, provocaram cada um deles, GIF’s com mais de 600 hectares no dia 2 de Setembro.
Combatente em repouso após mais de 24 horas de combate
Questiona-se pois qual ou quais as razões dos reacendimentos?
A primeira resposta que nos vem à cabeça é rescaldos mal executados!

Realmente, não haveriam tantos reacendimentos se o rescaldo fosse cumprido com rigor. No entanto, atrevo-me a dizer que os rescaldos não são executados com o rigor que lhe está imposto por diversas razões:

  1. O rescaldo exige equipas profissionais, experientes no uso de ferramentas e “frescas”, isto é descansadas. É impossível exigir um rescaldo rigoroso que reduza o potencial de reacendimentos a equipas que se encontram em combate há mais das 12 horas legais, ou nas piores condições há mais de 24 horas.
  2. Se as equipas de sapadores florestais constituem essas equipas profissionais, então não podem ser colocadas ao mesmo nível de combate num incêndio, exigindo o mesmo que se exige a quem tem a exclusividade da competência do combate. Caso ocorra, estas equipas não estarão em condições para assegurar a exigente operação de rescaldo.
  3. Elevada simultaneidade das ocorrências no Alto Minho não permitem a melhor operacionalização das diferentes unidades e o seu necessário repouso e descanso obrigatório.
  4. A falta de meios humanos no território tem implicações sérias quando ocorrem episódios de simultaneidade, esgotando-se o dispositivo em poucos dias de combate.
  5. A falta de formação, de experiência e de vontade no uso de ferramentas, também se reflecte no uso excessivo de água como solução generalizada e banal para a operação de rescaldo.
Equipa de sapadores em combate
É necessário repensar a forma de atuação das equipas de sapadores, pois estas equipas profissionais estão mais capacitadas fisicamente e tecnicamente para o apoio ao combate, exercendo as suas funções na primeira intervenção e obviamente no rescaldo. Contudo é habitual vê-las a serem accionadas como se tratasse de mais uma equipa para o ataque directo às chamas em incêndios de diversas horas, não se encontrando minimamente descansadas para a operação final e longa de rescaldo. Por outro lado, à semelhança das antigas brigadas florestais, com vista a aumentar a eficácia e a eficiência, importa que as equipas de sapadores se encontrem organizadas em brigadas compostas por 3 a 4 equipas, isto é entre 15 a 20 elementos, garantindo um trabalho mais dinâmico e rigoroso.


Aconselha-se a ler os seguintes artigos:

Manual Operacional do Rescaldo
Redefinição de Reacendimento


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